Conceder ao goleiro mais uma hipótese de ser vilão será um erro administrativo
[Ruela já é um desastre; com Muralha e Rafael Vaz fica tudo uma desgraça.]
Está
claro que o goleiro Alex Muralha não tem mais condições de atuar no Flamengo
pelas próximas duas partidas que lhe restam no ano — quem sabe quatro, caso
avance à final da Sul-Americana. A arquibancada, cristã e perdoadora, se
dedicou a apoiá-lo, mas os gols santistas de ontem, na Ilha, zeraram o cheque
especial do goleiro.
A
diretoria, a comissão técnica e até a equipe rubro-negras edulcoram o discurso
público: quando podem, reafirmam ao microfone o caráter do goleiro e sublinham
que ele, por meio de seu trabalho, há de superar essa "fase ruim".
Querem esquecer que tal fase dura quase um ano e que, mesmo com o bem-vindo
Diego Alves em campo, Muralha não conseguiu, no banco, se aproveitar da fuga
dos holofotes para se reerguer. Agora, sabemos que o hesitante porteiro
rubro-negro nem poderia ser opção para o banco, uma vez que não estava pronto
para as emergências. E elas aconteceram.
Nervos em
frangalhos, falta de confiança... arriscar qualquer coisa da psicologia de Alex
Muralha é puro chute. Mesmo porque, ontem, não apenas tentou driblar Ricardo
Oliveira, numa ousadia que só tenta quem sente firmeza no próprio taco, como
assumiu suas falhas. Só tropeçou ao dizer que "fizeram" essa
"imagem de goleiro ruim".
Isso é
falta de autocrítica e um eco da velha tentativa de desviar a atenção — algo
que até funcionou no episódio da brincadeira do jornal "Extra" em
setembro, amplificada ao máximo para transformá-lo em vítima. Só que os três
gols tomados contra Júnior de Barranquilla e Santos não recomendam mais essa
tática. O que resplandece é uma queda técnica acentuada em 2017, de um goleiro
que já tinha algumas deficiências — entre elas, a de sair do gol — e agora se
acostumou a permitir a entrada de bolas fáceis.
O
"debate" agora é sobre escalar um goleiro sem ritmo ou dar uma nova
chance a Muralha. Ninguém pode garantir que o paradão César fechará o gol, mas,
nesse contexto, o terceiro reserva não se queimará, assim como o novato Thiago
não se queimou com a falha que gerou o gol de Arrascaeta na primeira final da
Copa do Brasil. Todo torcedor rubro-negro sabe que a alternativa Muralha não
tem mais clima neste ano. Se César não estiver à altura da tarefa, a culpa será
de quem montou o elenco. Ponto.
Conceder
a Muralha mais uma hipótese de ser vilão será um erro administrativo, uma
incoerência da parte de tantos que saíram em sua defesa em setembro. Em suma,
uma covardia. Agora é a hora de aqueles que o bancaram virem à frente e
dividirem com ele a responsabilidade sobre a medíocre campanha do Flamengo na
temporada 2017, poupando Alex de ser — sempre — o culpado mais evidente dos
infortúnios rubro-negros.
*Márvio
dos Anjos é editor de Esportes do GLOBO