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quarta-feira, 5 de maio de 2021

Canalhas da pior espécie: a grotesca politização da morte de Paulo Gustavo - Gazeta do Povo

Paulo Polzonoff Jr.

 
"Para nós, há apenas o tentar. O resto não é da nossa conta". TS Eliot.

Dizem que Paulo Gustavo era uma pessoa difícil, até porque se sabia talentoso. Mas só as pessoas interessantes são difíceis; os chatos é que são facinhos, facinhos.

Ontem à tarde conversava com um amigo sobre a politização da morte. Repassei a ele o comentário de um jornalista/professor (ô raça) que, sobre o trágico assassinato de bebês (!) numa creche de Saudade, em Santa Catarina, tuitou: “O município deu 63% de votos para o Bozo em 2018”. Logo depois, o corajoso jornalista/professor (ô raça) trancou o perfil nas redes sociais. Não me consta que tenha percebido o erro nem pedido desculpas.

Na mesma conversa, o amigo me mostra a chamada de um infame site noticioso da esgotosfera petista que diz “Mãe da bolsonarista Paula Toller é encontrada morta em casa, no Rio, aos 85 anos”. Ainda estou de queixo caído quando, conversa vai, conversa vem, o amigo fala sobre o estado de saúde do ator Paulo Gustavo, que viria a falecer ainda na noite de terça-feira (4).

Ele diz que estava se preparando para uma enxurrada de comentários homofóbicos ou exaltando a “força” das orações de um desses pastores de quinta categoria que teria orado pela morte do comediante. Sem falar nos militantes gays que viam em Paulo Gustavo um traidor da causa por se recusar a incluir um beijo entre dois homens num de seus filmes.

Concluímos a conversa com o tradicional “ai, ai, tá difícil”. Mal sabíamos o que nos esperava na manhã seguinte.
 
Narcisismo necrófilo duplo twist carpado
Caetano Veloso, aquele que se considerava muito corajoso para lutar contra a Ditadura, mas que morria de medo das baratas da prisão, escreveu: “É significativo que a notícia de que o perdemos [Paulo Gustavo] chegue no dia em que se abre a CPI da Covid no Senado Nacional. O povo brasileiro, que encheu os cinemas para rir com Paulo Gustavo, está de luto. E deve revoltar-se contra os responsáveis por nossa vulnerabilidade frente à pandemia que nos tirou essa pessoa amada por representar nossa vocação para o SIM”.

Um detalhe interessante no tuíte de Caê é que a hashtag #CaetanoVeloso vem antes de #PauloGustavo. A elas se segue um vídeo de Paulo Gustavo tietando Caetano Veloso. Eu chamaria isso de narcisismo necrófilo duplo twist carpado. Mas talvez a simples palavra “canalhice” dê conta de definir as palavras do sujeito.

(Em tempo: o que significa “nossa vocação para o SIM”? Seria um acrônimo para “Sacripantismo Imediato Mórbido?”).

O mago diante do espelho
Revoltado? Indignado? Enojado? Calma que tem mais. Também ele, o mago Paulo Coelho, manifestou sua indignação política pela morte do ator Paulo Gustavo. Mas, neste caso, tenho que tirar o chapéu para o xará de olhos vermelhos e orelhas compridas. Afinal, numa rede social marcada pela crueldade e perversidade, ele conseguiu se destacar. Escreveu o imortal da Academia Brasileira de Letras, com um erro de acentuação e um de regência:

“Assassinos de Paulo Gustavo:
- quem dizia ‘é só uma gripezinha’
- ‘não passa de 200 mortes’
- ‘cloroquina resolve’
- ‘gente morre todo dia’
- ‘Lockdown destroi o país’
- ‘máscara nos faz respirar ar viciado’
- ‘eu obedeço o comandante’
E por aí vai. Canalhas da pior espécie”.

Não, Paulinho. Paulo Gustavo morreu de uma doença que surgiu na China. Não se sabe ainda se o vírus foi naturalmente passado de animais para os seres humanos ou se a pandemia é fruto de um acidente de laboratório. Além disso, avaliações erradas quanto ao potencial letal da doença são absolutamente compreensíveis e nem todos compartilham do seu pavor diante da morte.

Por fim, não é preciso encarar o próprio reflexo numa poça d´água no meio do Caminho de Santiago para perceber que a conclusão do tuíte é a manifestação do inconsciente diante do espelho. Paulo Coelho teria percebido isso, se entendesse um mínimo de literatura.

Mamãe, falhei
Estrelas de menor grandeza também deram o ar da graça nesse espetáculo grotesco de politização da morte. “Não foi a Covid que matou Paulo Gustavo. Para a Covid existe vacina e, mesmo antes da vacina, existiam planejamentos possíveis. Paulo Gustavo é mais uma vítima de genocídio. Um genocídio com a assinatura de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes”, escreveu uma jornalista (ô raça) que se define como “sapatão, marxista, corintiana, anticapitalista e exausta do fascismo”.

E, para encerrar este texto antes que eu e você sejamos obrigados a tomar um Plasil, o pré-candidato ao governo de São Paulo Arthur do Val, mais conhecido como Mamãefalei, usou de toda a sua retórica de halteres para escrever: “(...) Não há como negar. Ele [Paulo Gustavo] é mais uma das 400 mil vítimas desse filho da p%$# que está no poder. Não há outra palavra, não há outra expressão! BOLSONARO É GENOCIDA!”. 

 Mamãefalei ao menos teve a decência de apagar a bobagem que escreveu num de seus costumeiros ataques de fúria.

Só os chatos são facinhos
Paulo Gustavo era um bom comediante. Ri muito com “Mamãe É uma Peça”. Mas sou riso fácil – e não me envergonho disso. Dizem que ele era uma pessoa difícil, até porque se sabia talentoso. Mas só as pessoas interessantes são difíceis; os chatos é que são facinhos, facinhos. Numa época em que reina o mau humor, alguém que faça rir usando o mais tradicional dos truques (vestir-se de mulher e imitar os trejeitos de uma mãe amorosamente controladora) sempre fará falta.

Paulo Polzonoff Jr, colunista - VOZES - Gazeta do Povo