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sábado, 22 de outubro de 2016

O anel que tu me deste

A ciranda da corrupção colocou ex-intocáveis na roda. Vão todos cirandar na Lava Jato 

Era vidro e se quebrou. O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou. A ciranda cirandinha da corrupção no Brasil colocou ex-intocáveis na roda. Vão todos cirandar na Lava Jato. Nas rodas multimilionárias, que envolvem empreiteiros e governadores, o anel não é de vidro, mas de ouro branco e diamantes. Custou R$ 800 mil, foi dado pelo dono da construtora Delta, Fernando Cavendish, à mulher do ex-governador Sérgio Cabral, Adriana Ancelmo, como presente de aniversário, em 2009, no restaurante Le Louis XV, sob comando do estrelado chef Alain Ducasse, no Principado de Mônaco.

Parece história da carochinha, mas não é. O roteiro era censurado a nós. A promiscuidade político-empresarial ronda a pornografia. O Brasil de Cabral é redescoberto pelo juiz Sergio Moro. É salutar, é um curso de ética ministrado a fórceps. A prisão do poderoso Eduardo Cunha, cercado por lenhadores e ninjas tatuados da Polícia Federal, está inserida nessa ciranda. Por enquanto, os presos esperam dar apenas a meia-volta. Mas volta e meia vamos dar. É preciso crer no cancioneiro popular.

A história do anel, embora centrada no Rio de Janeiro, está carregada de simbolismo nacional e federal – é a joia da coroa num país onde a troca de favores envolve bilhões e macula a reputação de presidentes da República. Pensar em presentes pessoais de quase R$ 1 milhão, no estado mais falido hoje da Federação, é algo surreal. Em reportagem exclusiva do jornal O Globo, fomos informados do singelo anel de € 220 mil (equivalentes a cerca de R$ 800 mil) que Cavendish deu à então primeira-dama do estado do Rio, formada em Direito, advogada atuante.

No dia 18 de julho de 2009, Cabral levou Cavendish a uma joalheria de Monte Carlo, em Mônaco, a Van Cleef & Arpels, na Place du Casino, para pegar o presente de Adriana, que já estaria reservado. A conta teria apanhado o empresário de surpresa. Adriana colocou o anel na mão esquerda em seu jantar de aniversário, num restaurante que é uma pequena réplica do Palácio de Versalhes.

A foto com o anel foi entregue por Cavendish aos investigadores da Lava Jato como um mimo da delação premiada. Para provar que comprou a joia, o empreiteiro passou a nota fiscal e o comprovante de seu cartão de crédito. Cabral confirmou o presente, mas negou ter achacado o amigo e disse ignorar o valor do “cadeau”. Devolveu o anel a Cavendish quando os dois romperam a amizade em 2012. O motivo alegado da briga? Na Operação Monte Carlo, descobriu-se que o dono da Delta usava as empresas do bicheiro Carlinhos Cachoeira para lavar dinheiro. Quem devolveu o anel a Cavendish foi um amigo e assessor de Cabral, Paulo Fernando Magalhães Pinto. Curiosamente, está no nome do mesmo Paulo Fernando o luxuoso Ford Ranger que Cavendish disse ter dado a Cabral de presente.

O grupo gostava de comer e beber bem na Europa e de adornar a cabeça com guardanapos, dançando nas ruas. Até aí, farras inofensivas da vida, se não envolvessem um empreiteiro que conseguira dobrar seu faturamento graças à amizade com o governador. A Delta de Cavendish faturou R$ 11 bilhões em obras no Rio entre 2007 e 2012, pelo que se sabe até agora. Em maio, ex-executivos da Andrade Gutierrez disseram que Cabral só permitiu a entrada da construtora no consórcio de reforma do Maracanã junto com a Odebrecht sob uma condição: que não se mexesse nos 30% da Delta. Cabral reagiu “com indignação” a essa acusação.

Os laços não eram apenas profissionais. A tragédia pessoal também os uniu. A queda de um helicóptero em Porto Seguro, na Bahia, em 2011, matou a namorada do filho de Cabral, Mariana Noleto, e a mulher de Cavendish, Jordana Kfuri. Por pouco, não foram os homens as vítimas. Por falta de lugares no helicóptero, mulheres e crianças foram na frente. Entre os sete mortos estava a irmã de Jordana, Fernanda Kfuri, de 35 anos, que, segundo versões, namorava Cabral. O governador e a mulher, Adriana, se separaram durante um tempo após o acidente, mas Cabral jamais confirmou o caso.

No mundo todo, há ligações moralmente condenáveis entre o Poder e empresários. Ou entre presidente e congressistas. No Brasil, foi longe demais. Tudo andou tão desregrado por tanto tempo que as cenas de hoje parecem improváveis. Como imaginar que Eduardo Cunha e o ex-ministro de Lula, Antonio Palocci, estariam ambos presos um dia, separados por uma cela e impedidos de tomar sol juntos, para não atrapalhar investigações sobre propina e corrupção? O Brasil deixou de ser um país de “faz de conta”, afirmou Moro. Queremos acreditar. A paralisação das atividades no Congresso logo após a prisão de Cunha leva a crer que o medo se espalhou em Brasília. Quem tiver culpa nessa ciranda, diga um verso bem bonito, diga adeus e vá se embora.

Fonte: Época - Ruth de Aquino
 

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