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sábado, 24 de dezembro de 2016

Sem leitos de UTI, quem os médicos devem salvar?


Pacientes graves esperam até dois dias por vaga na terapia intensiva em São Paulo, revela estudo inédito do Conselho Regional de Medicina 

De todas as formas de desigualdade, a injustiça na saúde é a mais chocante e desumana”. 

A escolha da frase do líder Martin Luther King, Jr. não é mero detalhe no artigo que a médica Flávia Machado publicou na edição de ontem do The New England Journal of Medicine. É a mais perfeita tradução da realidade que ela enfrenta numa das unidades de terapia intensiva (UTI) do Hospital São Paulo, na capital paulista.

O relato de Flávia dá a justa medida da precariedade enfrentada pelos médicos que tentam fazer o melhor num cenário de progressivo sucateamento da saúde pública. Se para os profissionais o dilema é moral, para os pacientes é questão de vida ou morte.
São 7 horas da manhã e, mais uma vez, precisamos decidir quem ocupará um leito na unidade de terapia intensiva (UTI) depois de uma cirurgia eletiva. Uma avó de 55 anos com câncer de intestino? 
Um idoso com metástase no fígado? 
Uma jovem que sente dor e precisa de cirurgia numa articulação para continuar a trabalhar e sustentar a família?

Deveríamos escolher ou recusar os pacientes que têm câncer?  
Deveríamos fazer escolhas baseadas na idade? Na qualidade de vida prévia? 
Ou no impacto social, se, por exemplo, o doente tem quatro crianças para criar? 
Devemos oferecer o leito a quem já o negamos antes? 
Ou devemos simplesmente deixar de brincar de Deus e conceder a vaga a qualquer pessoa que tenha pedido antes?

Escolhas – por vezes, trágicas – são feitas. “Na maioria dos dias alguém fica sem leito”, me disse Flávia. Ela não trabalha num hospital perdido no meio do sertão no estado mais pobre do país. Pelo contrário. Flávia dirige o setor de terapia intensiva da disciplina de anestesiologia da Escola Paulista de Medicina, uma instituição de referência ligada à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

>> Artigo completo de Flávia Machado publicado no The New England Journal of Medicine

“Os frequentes cortes de verba nos hospitais federais pioram a qualidade do nosso atendimento”, diz ela. “Muitas vezes, um paciente da UTI está pronto para receber alta e liberar o leito, mas não há lugar para ele em outra ala do hospital.”

O problema não se resume às instituições federais. Um estudo do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), publicado com exclusividade por esta coluna, revela que pacientes graves esperam até dois dias por um leito de UTI em São Paulo. Doentes que não conseguem respirar sozinhos e precisam de entubação são acomodados nos leitos de retaguarda dos pronto-socorros.  “Isso é gravíssimo porque o doente está numa situação clínica instável e precisa de atendimento constante”, diz o psiquiatra Mauro Aranha, presidente do Cremesp. “Por lei, o paciente só pode ficar 24 horas no pronto-socorro à espera de vaga na UTI”.

A crise na saúde, com subfinanciamento em todos os níveis de atendimento, motivou o Cremesp a realizar o estudo. Diretores clínicos de 15 hospitais públicos ou filantrópicos (confira a lista abaixo) relataram os problemas vividos em suas instituições, com a condição de que não fossem reveladas quais deficiências ocorrem em quais hospitais.
As principais queixas dos diretores clínicos:
A taxa de ocupação nos pronto-socorros é superior a 100%
• Os leitos que seriam dedicados à observação se transformam em leitos improvisados de UTI
• Há dificuldade para conseguir vaga para cirurgias eletivas, principalmente ortopédicas, com demora de três a quatro semanas para o paciente ser operado
Faltam vagas para cirurgias especializadas de urgência (como as neurológicas e vasculares ou os traumas cranioencefálicos)
• Na área clínica, há demanda reprimida por algumas especialidades, como endocrinologia

Há dificuldade para compra de implantes para realizar procedimentos, principalmente de mama, quadril, joelho e coluna

Os hospitais que participaram do levantamento:
• Casa da Saúde Santa Marcelina
• Conjunto Hospitalar do Mandaqui
• Hospital Central da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo
• Hospital do Servidor Público Estadual Francisco Morato de Oliveira
• Hospital do Servidor Público Municipal
• Hospital Geral de Taipas
• Hospital Geral de Vila Nova Cachoeirinha
• Hospital Ipiranga
• Hospital Municipal Dr. Arthur Ribeiro de Saboya (Jabaquara)
• Hospital Municipal de Campo Limpo
• Hospital Municipal Professor Waldomiro de Paula
• Hospital São Paulo (Unifesp)
• Hospital Universitário da USP
• Hospital Municipal Professor Dr. Alípio Correa Neto
• Hospital Regional Sul


>> No Brasil, a conta da saúde fica com a prefeitura
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O que as autoridades têm a dizer? O secretário municipal de saúde Alexandre Padilha participou de uma das reuniões do Cremesp. Disse que vai repassar as queixas à equipe do prefeito eleito João Doria, que assume em janeiro. “Há déficit de mil leitos na cidade de São Paulo, que ficou dez anos sem abrir um hospital municipal”, disse Padilha na reunião.
O secretário estadual David Uip não foi a nenhuma das reuniões. Na última delas, uma advogada enviada pela pasta ouviu os relatos e disse que a Secretaria Estadual de Saúde está disposta a conversar com os profissionais para melhorar as condições dos hospitais.

Gostaria de encerrar meu último texto de 2016 com uma mensagem de esperança. Não deu. Só posso agradecer a valorosa companhia de cada um de vocês e trabalhar sempre pela redução da mais chocante e desumana forma de desigualdade.

Colunas de Cristiane Segatto 620x70 (Foto: Época)