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quarta-feira, 22 de abril de 2015

Agarrados a cadáveres para não afundar

Alguns dos naufragados se agarraram a cadáveres para continuar boiando 

“A vontade de ter um futuro na Europa é maior que o medo” 

Se existiam motivos para esperança, era muito difícil encontrá-los nesta segunda-feira no porto de Catania. As notícias que chegavam durante a longa espera pelo barco que trazia de Malta 27 dos 28 sobreviventes do grande naufrágio de domingo, encontrados ao norte da Líbia, não podiam ser mais trágicas. O barco que naufragou era uma embarcação pesqueira levando centenas de pessoas que fugiam da África e que emborcou quando ia receber ajuda. A ilusão mesmo que mínima de encontrar mais sobreviventes foi se extinguindo, os alertas sobre novos naufrágios no Mediterrâneo multiplicavam a sensação de impotência diante da tragédia infinita, e, para culminar o mal-estar, uma operação da polícia de Palermo confirmava a crueldade extrema dos traficantes de pessoas.

Durante horas, dezenas de jornalistas postados sobre o cais de Catania faziam a mesma pergunta uns aos outros, sem esperança de resposta: “Você se lembra de Lampedusa?” A pergunta era, na realidade, a resposta: nada, absolutamente nada, mudou desde que, no início de outubro de 2013, dois naufrágios sucessivos encheram o aeroporto da ilha de cadáveres de homens, mulheres e crianças, muitas crianças. Desde então passaram-se um ano e meio e outros milhares de mortos. A semelhança entre os dois cenários era desoladora: o barco que se aproxima carregado de morte, os fotógrafos disparando suas câmeras, o grupinho de moradores locais aflitos, os políticos locais com expressões de preocupação apropriadas para as circunstâncias. “Em que porto será nosso próximo encontro?”

Ribka tem certeza que a tragédia vai se repetir. Ele tem 28 anos e era professor em seu país até decidir tentar a aventura, dois anos atrás. “Eu sabia que podia morrer”, afirma, sentado ao lado da oficina de Catania onde de vez em quando o deixam fazer a faxina em troca de um jornal. “Todos sabemos que podemos naufragar, ficar feridos ou ser mandados imediatamente de volta ao nosso país. Mas a vontade de deixar de sofrer lá, de ter um futuro na Europa, é muito maior.”

Ribka também embarcou num barco pesqueiro na costa da Líbia, pagou mais de 1.200 euros (3.900 reais) aos traficantes e teve a sorte de ser ajudado e de chegar são e salvo a Lampedusa. Agora ele espera juntar algum dinheiro para poder chegar até seus familiares na Holanda. “Mas”, ele diz, indicando o jornal, “cada vez que acontece uma tragédia como esta, sinto uma angústia enorme.”

O jornal italiano relata as provações vividas pelos sobreviventes, com um nível de detalhes que leva lágrimas aos olhos de Ribka. Alguns deles disseram à guarda costeira italiana: “Conseguimos sobreviver porque nos agarramos a cadáveres que boiavam, para não afundarmos”. Como em outras catástrofes anteriores, todos os sobreviventes são homens e jovens; talvez sejam os únicos com as forças necessárias para esperar a chegada das equipes de resgate. Um dos 28 sobreviventes —o que foi levado a Catania de helicóptero, devido a seu estado de saúde delicado— afirmou que “950 pessoas estavam na embarcação, entre elas 40 ou 50 crianças e 200 mulheres”.

Continuar lendo ........  El País 

[a opção de impedir a emigração desenfreada para a Europa até que é aceitável - dezenas de motivos sustentam a opção pela não abertura do continente europeu para refugiados; 

mas, antes o combate aos traficantes, aos que estimular os emigrantes, deve ser realizada de forma implacável e com penas severas.]