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quarta-feira, 3 de julho de 2019

Fanfarronadas têm um preço

A capitã do navio de africanos expôs o risco político do radicalismo xenófobo de Matteo Salvini

[os governantes tem como dever primeiro defender os seus governados e a capitã fez um ato que para ele pode ter sido exibicionismo, fanfarronice, bravata, mas, de fato foi um ATO DE GUERRA e a embarcação agiu como os piratas da Somália.

Ainda que desesperadora a situação dos 40 africanos, a capitã poderia ter escolhido outro porto, outro país; próximo ao porto invadido a brava capitã dispunha de portos em outros países que abrigam refugiados - qual a razão dela escolher o de um país que está dando preferência a cuidas dos seus naturais.

Aqui mesmo no Brasil, cada emprego que é dado a um venezuelano é um emprego a menos para um brasileiro.]

O retumbante Matteo Salvini, ministro do Interior da Itália, aprendeu uma lição. Quando o barco Sea Watch 3 entrou à força no porto de Lampedusa com 40 refugiados líbios, ele anunciou a prisão da capitã Carola Rackete com a teatralidade do radicalismo fanfarrão. A entrada do navio no porto teria sido um "ato de guerra" praticado por uma embarcação "pirata".

Os 40 africanos que haviam sido resgatados pelo Sea Watch em alto-mar seriam mais um lote de desesperados e Carola Rackete, mais uma ativista dessas ONGs que azucrinam os poderes estabelecidos. Nunca se sabe quando o vento da história sopra em cima de um poderoso da ocasião. O vento soprou em cima de Salvini.

O Sea Watch tem a bandeira holandesa e Carola Rackete é alemã. O ministro das Relações Exteriores de Berlim, Heiko Maas, pediu a libertação da marinheira: "Quem salva vidas não pode ser chamado de criminoso" —exatamente o que achou a juíza que ordenou sua soltura nesta terça (2). O governo da França classificou o ato de "histeria" e o presidente italiano recomendou que se baixasse a bola. Duas vaquinhas internacionais arrecadaram mais de 1 milhão de euros para ajudar a ONG do Sea Watch. [independentemente da bandeira do navio e da nacionalidade da comandante, o Sea Watch desrespeitou a soberania de um país, invadiu um porto. Com certeza esse um milhão de euros seria bem mais útil ajudando ao refugiados, do que ser doado a mais uma ONG.]

Os refugiados não precisam ficar na Itália e não era razoável que 40 pessoas ficassem à deriva no Mediterrâneo. As leis italianas pretendem conter o êxodo de refugiados africanos, na defesa dos interesses do país, e quando a marinheira desceu no cais de Lampedusa, populares chamaram-na de "vendida". Um deles gritou que ela devia ser estuprada pelos negros que transportou. Coisa dos tempos de hoje. No século passado os europeus fizeram coisas piores e em 1944 o governo italiano colou cartazes mostrando um soldado simiesco com o uniforme americano saqueando obras de arte. Deixar barcos em alto mar, chamando os tripulantes de piratas metidos em atos de guerra, é um triste retorno, e Salvini percorreu-o.

Isso era o que acontecia em 1947. O governo inglês capturava navios com judeus que seguiam para a Palestina. Depois, quando a saga do navio Exodus (com Paul Newman no papel principal) tornou-se um marco na vida de Israel, tiraram o corpo fora. Por trás do Sea Watch e das ONGs há uma rede de apoios e cumplicidades. A tripulação do barco tinha jovens franceses, holandeses e espanhóis. Nada de novo: havia uma rede clandestina e multinacional por trás de navios como o Exodus. (Nela militava Samy Cohn, que se tornou banqueiro e morreu no Brasil.) Há diferenças entre os refugiados judeus de 1947 querendo ir para a Terra Santa e os africanos de hoje querendo entrar na Europa, mas o ministro alemão que defendeu a libertação de Carola Rackete foi ao essencial: "Quem salva vidas não pode ser chamado de criminoso". Os líbios do Sea Watch poderiam ter morrido no Mediterrâneo e, segundo a capitã, ameaçavam jogar-se ao mar, como faziam os africanos dos navios negreiros do século 19. Calcula-se que neste ano 600 africanos afogaram-se no Mediterrâneo.

As falas de Salvini, repudiadas na terça pela juíza, foram uma fanfarronice demagógica. O ministro tinha motivos para saber que a marinheira, uma "fora da lei", segundo ele, não ficaria muito tempo presa. Sendo alemã, poderia ser deportada. Sabia também que os africanos não ficarão em Lampedusa. Jogou para sua plateia, mas subestimou a reação de outros países e das próprias instituições italianas. Nos dias de hoje, isso é comum.
Elio Gaspari, jornalista - O Globo e Folha de S. Paulo


quarta-feira, 22 de abril de 2015

Agarrados a cadáveres para não afundar

Alguns dos naufragados se agarraram a cadáveres para continuar boiando 

“A vontade de ter um futuro na Europa é maior que o medo” 

Se existiam motivos para esperança, era muito difícil encontrá-los nesta segunda-feira no porto de Catania. As notícias que chegavam durante a longa espera pelo barco que trazia de Malta 27 dos 28 sobreviventes do grande naufrágio de domingo, encontrados ao norte da Líbia, não podiam ser mais trágicas. O barco que naufragou era uma embarcação pesqueira levando centenas de pessoas que fugiam da África e que emborcou quando ia receber ajuda. A ilusão mesmo que mínima de encontrar mais sobreviventes foi se extinguindo, os alertas sobre novos naufrágios no Mediterrâneo multiplicavam a sensação de impotência diante da tragédia infinita, e, para culminar o mal-estar, uma operação da polícia de Palermo confirmava a crueldade extrema dos traficantes de pessoas.

Durante horas, dezenas de jornalistas postados sobre o cais de Catania faziam a mesma pergunta uns aos outros, sem esperança de resposta: “Você se lembra de Lampedusa?” A pergunta era, na realidade, a resposta: nada, absolutamente nada, mudou desde que, no início de outubro de 2013, dois naufrágios sucessivos encheram o aeroporto da ilha de cadáveres de homens, mulheres e crianças, muitas crianças. Desde então passaram-se um ano e meio e outros milhares de mortos. A semelhança entre os dois cenários era desoladora: o barco que se aproxima carregado de morte, os fotógrafos disparando suas câmeras, o grupinho de moradores locais aflitos, os políticos locais com expressões de preocupação apropriadas para as circunstâncias. “Em que porto será nosso próximo encontro?”

Ribka tem certeza que a tragédia vai se repetir. Ele tem 28 anos e era professor em seu país até decidir tentar a aventura, dois anos atrás. “Eu sabia que podia morrer”, afirma, sentado ao lado da oficina de Catania onde de vez em quando o deixam fazer a faxina em troca de um jornal. “Todos sabemos que podemos naufragar, ficar feridos ou ser mandados imediatamente de volta ao nosso país. Mas a vontade de deixar de sofrer lá, de ter um futuro na Europa, é muito maior.”

Ribka também embarcou num barco pesqueiro na costa da Líbia, pagou mais de 1.200 euros (3.900 reais) aos traficantes e teve a sorte de ser ajudado e de chegar são e salvo a Lampedusa. Agora ele espera juntar algum dinheiro para poder chegar até seus familiares na Holanda. “Mas”, ele diz, indicando o jornal, “cada vez que acontece uma tragédia como esta, sinto uma angústia enorme.”

O jornal italiano relata as provações vividas pelos sobreviventes, com um nível de detalhes que leva lágrimas aos olhos de Ribka. Alguns deles disseram à guarda costeira italiana: “Conseguimos sobreviver porque nos agarramos a cadáveres que boiavam, para não afundarmos”. Como em outras catástrofes anteriores, todos os sobreviventes são homens e jovens; talvez sejam os únicos com as forças necessárias para esperar a chegada das equipes de resgate. Um dos 28 sobreviventes —o que foi levado a Catania de helicóptero, devido a seu estado de saúde delicado— afirmou que “950 pessoas estavam na embarcação, entre elas 40 ou 50 crianças e 200 mulheres”.

Continuar lendo ........  El País 

[a opção de impedir a emigração desenfreada para a Europa até que é aceitável - dezenas de motivos sustentam a opção pela não abertura do continente europeu para refugiados; 

mas, antes o combate aos traficantes, aos que estimular os emigrantes, deve ser realizada de forma implacável e com penas severas.]