O destino é moleque
travesso. Faz das suas com quem acredita que pode confrontá-lo impunemente. Hoje, dia D do PMDB, está prestes a pregar uma peça no PT, cujo comandante vem tentando sem sucesso evitar o desembarque
da tropa que há 14 anos mandou à reserva. Com humilhação.
Exército esse também objeto do
desdém da sucessora que, logo após a reeleição, em 2014, chegou a por em
prática um plano para afastar o partido do vice-presidente da República e
substituí-lo por legendas periféricas e supostamente mais obedientes e menos
ambiciosas. Como se vê, deu tudo errado e a caça virou-se contra os
caçadores. A única dúvida que resta sobre a decisão de hoje é numérica: o
resultado em favor do rompimento pode ser acachapante ou apenas majoritário.
Em 2002, Luiz Inácio da
Silva, eleito presidente, desautorizou acordo fechado com o PMDB pelo capitão de
seu time, José Dirceu, com o
PMDB por um misto de soberba e cálculo. Considerava
o partido negativa e excessivamente marcado como fisiológico junto à opinião
pública e, por isso, julgou melhor repudiá-lo a fim de fazer um gesto para
a arquibancada, enquanto nos bastidores fechava acordo com legendas menores,
mas tão ou mais comercialmente disponíveis.
Logo no primeiro ano de governo
Lula foi informado por uma delas, o PTB, que no Congresso poderia até
haver centenas de “picaretas”,
conforme apontara anos antes, mas não havia bobos. No primeiro movimento
identificado pelo então presidente do partido, Roberto Jefferson, como uma
tentativa de “rifar” o PTB na divulgação de um vídeo em que um indicado por ele
aos Correios recebia propina de R$ 3 mil, veio o contra-ataque. Jefferson denunciou a existência do
Mensalão e deu início à derrocada da imagem dos petistas como defensores da
ética na política.
Sinal inequívoco – embora não interpretado assim pela maioria – de que a competência de Lula como articulador político poderia, no mínimo, ser duvidosa: no
lugar do apoio de um partido sólido, estruturado em todo o país, acostumado com
o poder e, sobretudo, empenhado em mantê-lo,
preferiu se aliar a
arrivistas de ocasião, acreditando que poderia manejá-los para todo o
sempre e conforme seus interesses.
É o tal negócio: os cooptados eram vistos e tratados como meros
vendilhões, mas tinham o direito de não concordar com a pecha. Ao se revoltar, abriram caminho
para o processo de derretimento da maquiagem com a qual o PT se apresentara à
sociedade durante mais de 20 anos. Erro de cálculo que Lula tentou
corrigir ao se aproximar do PMDB ainda no primeiro mandato e, no segundo,
conseguir a adesão oficial e praticamente unânime do partido.
Viriam outros indicadores de que
a fama de grande articulador não correspondia totalmente à realidade. O principal deles, a escolha de Dilma Rousseff
para sucedê-lo. Revelou-se uma opção desastrosa, pois ela conseguiu
ao mesmo tempo desarrumar a economia e a política. Foi animosa com o Congresso
– por temperamento e por ouvir conselhos
sobre as vantagens de se afastar dos políticos para conquistar popularidade
– em geral e o PMDB em particular com atos descritos acima.
Agora, às vésperas da separação formal, o governo
retalia os pemedebistas, retirando-lhes os cargos e
redistribuindo o espólio aos partidos menores, numa demonstração de que a persistência no erro não encontra limites
neste governo.
Fonte: Estadão - Dora Kramer