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sexta-feira, 24 de março de 2023

Lula e o PCC sonham juntos - Augusto Nunes

Revista Oeste

O presidente que enxergou uma “armação do Moro” no plano frustrado pela PF merece virar testemunha de defesa dos criminosos

Sérgio Moro e a ameaça do PCC | Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock/Divulgação
Sérgio Moro e a ameaça do PCC | Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock/Divulgação 
 
À vontade como um Dilma Rousseff cercada por Erenices e Kátias, o presidente Lula guilhotinava plurais na entrevista concedida a jornalistas domesticados quando a conversa enveredou pelos 580 dias na gaiola em Curitiba. Depois de reafirmar que todas as acusações foram feitas por delatores intimidados por integrantes da Operação Lava Jato, confessou que a temporada na prisão o transformara num pote até aqui de mágoa: “De vez em quando, ia um procurador, entrava lá num sábado, dia de semana, para perguntar se estava tudo bem”, disse Lula. “Entravam três ou quatro procuradores e perguntavam: ‘Está tudo bem?’. Ele dizia que não: só se sentiria em paz depois do acerto de contas que ainda não chegou. “Só vai estar tudo bem quando eu foder esse Moro. E eu estou aqui para me vingar dessa gente.”
 
“Quando Lula fala, o mundo se ilumina”, garantiu em 2004 Marilena Chauí. Fora a curandeira da seita que tem num gatuno semianalfabeto seu único deus, ninguém jamais viu a voz roufenha gerando mais energia do que mil Itaipus. 
Quando o palanque ambulante agarra um microfone, o que se vê são fenômenos bem diferentes.  
Plurais saem em desabalada carreira, a gramática se refugia na Embaixada de Portugal, a regência verbal se esconde em velhos dicionários, o raciocínio lógico providencia um copo de estricnina (sem gelo) e os pronomes se preparam para resistir a outra sessão de tortura. Neste 21 de março, uma terça-feira, o elogio do rancor reduziria a destroços a “impressionante intuição” celebrada pelo falecido Antonio Cândido. Quando dava aulas na USP, o respeitado intelectual não perdoava o mais inofensivo cacófato
Convertido em militante do PT, pariu a tese segundo a qual, em matéria de política e eleição, Lula não precisou estudar nada porque já nascera sabendo tudo.
 
A senha para a derrapagem do trapalhão fantasiado de doutor honoris causa foi uma frase do dono do site 247 (pode chamar de 171 que ele atende). “A prisão foi mais que um ataque ao senhor, foi um ataque ao Brasil”, caprichou na sabujice o entrevistador-chefe. 
Com a polidez que Lula atirou ao lixo antes mesmo de aprender a falar, Moro repreendeu a repulsiva cafajestagem, recomendou mais compostura ao grosseirão juramentado e fez o alerta: o que dissera o presidente poderia estimular ações violentas contra o ex-juiz e seus parentes.  
De novo, o consórcio da imprensa recorreu a artifícios gráficos e verbos menos chulos para abrandar o palavrório de bordel. Alguns redatores recorreram a reticências: o presidente só quis f… o senador paranaense. Em outros, pretendeu apenas “ferrar” o desafeto.  
Como o vídeo escapou de truques pudicos, a viagem à beira do penhasco, contemplada com sorrisos cúmplices pelos parças da imprensa, pode ser vista em toda a sua abjeta inteireza. Fora um tremendo tiro no pé.
 
Foi transformado em tiro na testa já na quarta-feira, 22 de março, quando o país foi a
presentado às assombrosas descobertas pela Operação Sequaz. Embora tivesse sido anunciada pelo próprio ministro da Justiça, é provável que Flávio Dino tenha esquecido de comunicar ao presidente a iminente ofensiva contra o Primeiro Comando da Capital. 
Mobilizando 120 homens da lei em quatro Estados e no Distrito Federal, que sobraçavam mandados de busca e apreensão expedidos pela juíza Gabriela Hardt, a Polícia Federal impôs uma dura derrota ao PCC. Além da prisão de nove figurões da organização que lidera o ranking sul-americano do narcotráfico, o Brasil que presta pôde celebrar o confisco de manuscritos, planilhas e documentos que detalham um plano que escancara a insolência assassina do PCC. 
 
Abortada a poucos dias do início da execução, o plano se dividia em três etapas. Na primeira, o chefão Marcola seria resgatado do presídio em Porto Velho. A segunda previa o sequestro e o assassinato do senador Sergio Moro, do promotor de Justiça Lincoln Gakyia e das famílias desses dois alvos prioritários. Outras autoridades estavam na mira dos matadores. A última etapa cobraria da Justiça a imediata concessão de privilégios que tornariam ainda mais agradável a vida na cadeia de que desfrutam meliantes de altíssima periculosidade.

Como os chiliques de Dilma, os surtos de Lula são de difícil tradução. Mas não é complicado identificar os efeitos colaterais de uma fala que teria o entusiasmado endosso de qualquer napoleão de hospício

Abalados pela linguagem de pátio de presídio usada na entrevista ao Brasil 247, grogues com a descoberta de que por pouco o PCC não materializou o sonho do ex-presidiário de volta ao poder, Altos Companheiros resolveram escapar da queda golpeando a verdade.
Flávio Dino proclamou-se indignado com “o mau-caratismo de gente que tenta politizar uma operação séria, tão séria que está aqui preservando e investigando uma ação contra a vida de um senador da oposição e de outros agentes públicos”. 
Gleisi Hoffmann creditou na conta de Lula a ofensiva policial concebida no governo Bolsonaro. Em seguida, acampada em redes sociais, a presidente do PT sacou do coldre o trabuco municiado com mentiras de grosso calibre e mandou chumbo: “Juiz parcial, que não se importou com o ódio alimentado pela Lava Jato, tem aula de civilidade e democracia do governo Lula”. Dino e Gleisi imaginavam ter encontrado a saída quando outro falatório do trapalhão incontrolável devolveu às cordas a turma toda.

Na quinta-feira, 23 de março, Lula foi interceptado no Rio por jornalistas interessados no que tinha a dizer sobre as revelações da Polícia Federal. A primeira resposta foi um riso debochado. A segunda desandou na ironia: “Eu não vou falar, porque eu acho que foi mais uma armação do Moro”. Pausa. “Mas eu quero ser cauteloso, quero descobrir o que aconteceu”, recuou alguns centímetros. Então, mandou às favas a sensatez, os escrúpulos e o juízo, ergueu o tom de voz e emitiu o parecer amalucado: “É visível que é mais uma armação do Moro”. Engatou uma terceira e desandou no chilique: “Eu vou pesquisar e vou saber por que da sentença. Até fiquei sabendo que a juíza não estava nem em atividade quando deu o parecer para ele, mas isso a gente vai esperar. Eu não vou ficar atacando ninguém sem ter provas. Eu acho que é mais uma armação e se for mais uma armação ele vai ficar mais desmascarado ainda, aí eu não sei o que ele vai fazer da vida se ele continuar mentindo do jeito que está mentindo”. À esquerda do declarante, o senador Renan Calheiros aprovou o elogio da demência com movimentos verticais do queixo.

Como os chiliques de Dilma, os surtos de Lula são de difícil tradução. Mas não é complicado identificar os efeitos colaterais de uma fala que teria o entusiasmado endosso de qualquer napoleão de hospício. Em poucas palavras, Lula afirmou, sugeriu ou insinuou que a Polícia Federal está sob o controle de Sergio Moro, tanto assim que concordou com uma armação; que, por se tratar de uma operação forjada, nove garotões do PCC foram injustamente engaiolados; que são falsas as provas coletadas pelos policiais federais; que Gleisi e Dino elogiaram a operação porque não sabem o que dizem; que Moro mente mais que ele: que o Brasil é governado por uma cabeça baldia. Tudo somado, o que esperam os advogados do PCC para incluir o presidente da República entre as testemunhas de defesa dos nove chefões arbitrariamente engaiolados pela Polícia Federal.

Para o ressentido incurável, o PCC não é a maior ameaça à segurança pública nacional. É um partido aliado que garante a vitória do PT em morros e presídios. 
E os envolvidos no asqueroso complô não são matadores patológicos. 
São gente boa, disposta a tudo para materializar o maior sonho do presidente que acorda e dorme pensando em vingar-se de Sergio Moro. 
O revide dos insultados reduziu o grande intuitivo a um amador quase octogenário. 
A juíza Gabriela Hardt quebrou o sigilo do caso e exibiu um balaio de provas. O senador mostrou que está aprendendo a bater no fígado: “O senhor não tem decência? O senhor não tem vergonha?”. Moro sabe que não.

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Augusto Nunes, colunista - Revista Oeste