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domingo, 18 de agosto de 2019

Blindagem - Eliane Cantanhêde

O Estado de S.Paulo

Fim da crise, Bolsonaro, Moro e Valeixo vivem felizes para sempre. Será?

Vamos falar claramente. É preocupante a investida simultânea do presidente Jair Bolsonaro contra a Polícia Federal, a Receita e o Coaf, além de sua estranha relação com Sérgio Moro e a dificuldade para definir o procurador- geral da República. Pior: no caso da PF e da Receita, os alvos imediatos são os superintendentes no Rio, base dos Bolsonaro e assolado por violência, milícias e “rachadinhas”. O presidente diz que “não é um banana” e é ele quem manda. Isso, porém, não significa sair nomeando os homens da PF e da Receita nos Estados, já que são órgãos de investigação, obrigatoriamente autônomos. Bolsonaro escolher pessoalmente os superintendentes no Rio abre a porteira. Os governadores vão querer indicar, políticos e empresários investigados, também e não para mais. O que vai parar são as investigações de corrupção.

[infelizmente, o grande problema do presidente Bolsonaro - fácil de ser resolvido, depende só dele querer -  é falar demais.
Ele precisa tem em conta que o estilo "Geisel" é o mais adequado - decide fazer e faz.

A democracia não obriga o presidente a anunciar com antecedência que vai demitir ou nomear alguém, ou transferir  - o mais acertado é nomear, demitir ou  transferir e que o porta-voz, através de uma nota, divulgue o ocorrido:

- O caso do Coaf, Bolsonaro é acusado de interferir, quando na realidade o grande erro daquele órgão foi vazar investigações - todos parecem esquecer que as ações do Coaf são reservadas (na quase totalidade das vezes, envolvem sigilos - fiscal e/ou bancário, portanto, qualquer vazamento é crime) condição que tornou crime o vazamento das investigações sobre Fabricio Queiroz;

- a troca na PF do Rio era assunto para ser conversado com o ministro da Justiça, o presidente não tinha nada que sair dando explicações, demonstrando autoridade - Geisel demitir o General Sylvio Frota, ministro fortíssimo, e nada falou, nem antes, nem depois. Demitiu o general Hugo Abreu e nada falou.
Autoridade se demonstra, exercendo e não gritando que manda e desmanda.


- já a Receita Federal, quer criar uma nova categoria de servidor público = insubstituível =, o que é um verdadeiro absurdo, NINGUÉM É INSUBSTITUÍVEL - tem um provérbio português que diz: "de pessoas insubstituíveis, os cemitérios estão cheios". 

 ------- ATENÇÃO: antes que interpretem a citação como uma  ameaça, enfatizo que  é apenas e tão somente uma citação de um provérbio,  confirmando uma situação óbvia.-----

O trecho abaixo, de documento enviado ao presidente Bolsonaro, pela cúpula da  Receita, mostra a existência dos 'insubstituíveis'."Acúpula da Receita fez chegar ao presidente Jair Bolsonaro um dossiê que alertasobre o alto risco de substituição, no porto de Itaguaí, do atual delegado daalfândega por um fiscal menos experiente." 
O Marcos Cintra já deveria ter sido demitido, mas, o presidente fica no chove não chove, quando resolver demitir, vai fazer um alarde e complicar uma demissão de um funcionário do terceiro escalão.

Outro detalhe importante: o eleitor brasileiro precisa entender que o cidadão ser um bom animador de auditório, bom cantor, um humorista, um empresário de sucesso  não o torna um excelente presidente - os exemplos são muitos.]  

Justiça se faça. Lula foi investigado, condenado e preso, Dilma foi investigada e caiu por impeachment, mas não ousaram meter a mão na PF. E, quando Temer nomeou Fernando Segovia para a PF por apadrinhamento político, ele não durou três meses na direção geral. Ao anunciar a jornalistas a troca da PF no Rio, com críticas ao superintendente Ricardo Saadi, o presidente acendeu o sinal amarelo. Não era um caso isolado. Ele já vinha investindo contra o Coaf, empurrado para o Banco Central, e contra a Receita, em pé de guerra com a intervenção no Rio e “otras cositas mas”. Na sexta-feira, o secretário da Receita, Marcos Cintra, já teve uma conversa séria com o chefe imediato, Paulo Guedes.



Para se blindar, a PF lançou como sucessor de Saadi o atual superintendente de Pernambuco, Carlos Henrique Souza. Mas Bolsonaro foi à tréplica, anunciando no dia seguinte que quem manda é ele e que seria o superintendente do Amazonas, Alexandre Saraiva. De amarelo, o sinal da PF virou vermelho. O diretor-geral, Maurício Valeixo, e toda a cúpula da PF ameaçaram pedir demissão em bloco e comunicaram ao ministro Sérgio Moro que não havia meio termo: ou vingava o nome indicado pela PF, como sempre foi, ou haveria uma debandada. Valeixo é do Paraná, próximo a Moro, destaque da Lava Jato e principal estrela da PF.



Espremido entre o presidente e a PF, Moro articulou a saída: em nova entrevista, Bolsonaro esqueceu a história do “banana” e disse que, tudo bem, podia ser o delegado do Amazonas, podia ser o de Pernambuco. Bolsonaro escapa de uma crise grave, Moro sobrevive a mais uma desfeita, Valeixo fica num cargo onde está brilhando e vivem todos felizes para sempre. Será? Essas coisas deixam cicatrizes. E se as bases da PF e da Receita decidirem retaliar? Bolsonaro é especialista em abrir frentes de atritos dentro e fora do País, incluindo agora Luciano Huck, potencial adversário em 2022. Mas que motivos o presidente tem para confrontar a PF, que mantém um rumo absolutamente profissional e acumula troféus neste ano? Prendeu dois perigosos mafiosos italianos sem um tiro, rastreou e prendeu eficazmente o “doleiro dos doleiros”, um gol. E o que dizer da operação rápida de identificação, rastreamento e prisão dos “hackers da República”?



Se há uma bronca de Bolsonaro com a PF, além das ocultas, envolvendo seus filhos, é que ele não se conforma com as conclusões sobre a facada durante a campanha, convencido de que Adélio Bispo não é maluco e não agiu sozinho. Pois vai se surpreender com o relato da extensiva e sofisticada investigação feita pelos policiais federais – aliás, comandada pela PF de Minas, não do Rio. Isso só confirma a essência do governo Bolsonaro. As prioridades número um, dois e três são sempre pessoais: seus filhos, seus interesses, suas crenças, suas obsessões. As instituições começam a reagir e a se impor.

Eliane Cantanhêde - O Estado de S. Paulo