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domingo, 31 de outubro de 2021

REVOLTA DA CHIBATA - Depois de 111 anos, Marinha açoita memória de João Cândido - O Globo

A Comissão de Educação e Cultura do Senado aprovou a inscrição de João Cândido Felisberto no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria. O marujo morreu há 52 anos, foi anistiado duas vezes e é reconhecido como um ícone da luta contra o racismo. Ainda assim, a Marinha tenta barrar a homenagem.[um líder de um motim, um insurreto contra a Ordem instituída, não pode ser considerado herói; ainda que tenha possuído características que possam ser consideradas nobres, o autor de certos crimes - atentatórios contra principios basilares da disciplina e hierarquia - não pode ser alcançado por anistia. 
Não podemos olvidar, que castigos corporais - quase sempre reprováveis - eram comuns naquela época.
Para que alguém seja considerado herói é necessário que tenha realizado feitos heroicos. Ser alçado à condição de herói por motivações políticas é desmerecer os verdadeiros heróis - basta ver o que estão fazendo com o 'panteão dos heróis'.]

Filho de escrava, João Cândido liderou a Revolta da Chibata, movimento de marinheiros que parou o Rio em 1910. Os rebeldes tomaram quatro navios na Baía de Guanabara e apontaram os canhões para a cidade. Ameaçavam abrir fogo se as punições físicas não fossem abolidas.

Às vésperas do motim, o marujo Marcelino Rodrigues Menezes havia sido castigado diante da tripulação do encouraçado Minas Gerais. Foi amarrado ao mastro e levou 250 chibatadas. A rebelião mobilizou 2.379 praças aos gritos de “Viva a liberdade” e “Abaixo a chibata”. Em mensagem ao presidente Hermes da Fonseca, eles protestaram contra a rotina de maus-tratos: “Pedimos a V. Exª. abolir a chibata e os demais bárbaros castigos pelo direito da nossa liberdade, a fim de que a Marinha brasileira seja uma Armada de cidadãos, e não uma fazenda de escravos que só têm dos seus senhores o direito de serem chicoteados.”

A Lei Áurea, assinada em 1888, ainda não havia chegado aos navios de guerra. Os marinheiros, quase todos negros, continuavam a ser açoitados pelos superiores, quase todos brancos.  O motim instalou o pânico na então capital da República. Os rebelados mataram seis oficiais que tentaram reprimi-los. Um tiro de advertência matou mais duas crianças no Morro do Castelo.

A imprensa defendeu os marujos e apelidou João Cândido de Almirante Negro. No Senado, Ruy Barbosa cobrou o fim dos castigos e exaltou “o homem do povo, preto ou mestiço, que veste a nobre camisa azul da nossa Marinha”.  O governo ofereceu uma anistia para encerrar o movimento, mas descumpriu o trato e expulsou a maioria dos rebeldes. João Cândido foi preso e confinado numa solitária. Absolvido, passou a sobreviver como estivador e vendedor de peixes na Praça XV. Na velhice, morava numa rua sem luz e sem asfalto na Baixada Fluminense. “Ele comeu o pão que o diabo amassou”, conta o historiador Álvaro Pereira do Nascimento, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Morto em 1969, João Cândido viraria herói popular. Inspirou músicas, peças de teatro e desfiles de carnaval. O Congresso aprovou uma nova anistia há 13 anos, mas os chefes militares insistem em açoitar sua memória. Nos últimos dias, a Marinha tentou convencer os senadores a desistirem da homenagem. Em nota, definiu a Revolta da Chibata como “um péssimo exemplo e um episódio a ser lamentado”. “A Marinha não reconhece o heroísmo das ações daquele movimento e o considera uma rebelião”, sentenciou. O texto admite que os castigos físicos não eram “corretos”, mas condena a “ruptura do preceito hierárquico”.

A proposta foi aprovada na sexta-feira e seguirá para a Câmara, onde a pressão deve recomeçar. “Os militares querem apagar a História. João Cândido morreu há 52 anos e continua a ser perseguido”, critica o professor Nascimento. Somando o tempo de banimento em vida, já são 111 anos de perseguição.

Bernardo Mello Franco, colunista - O Globo


domingo, 18 de fevereiro de 2018

Submarino argentino - 20 mil léguas submarinas

Há três meses desapareceu o submarino argentino Ara San Juan 

Nessa quinta-feira cumpriram-se três meses do desaparecimento do submarino argentino Ara San Juan. Com 44 vidas a bordo, o submarino zarpou dos confins do mundo para o porto da cidade Mar del Plata. Nesse trajeto, “caiu da terra” (ou do mar) como se fosse plana, sem deixar sinal algum de seu paradeiro.
Submarino ARA San Juan (Argentina Navy/AP)

A Marinha argentina, sob o argumento de que seguia o protocolo, tardou 36 horas para dar como desaparecida a embarcação. Essas longas horas ajudariam a transformar o sumiço do submarino em um dos maiores mistérios da história contemporânea da região.

Durante duas semanas, a costa argentina se transformou em um enxame militar, com embarcações e aviões de todo o mundo chegando para ajudar nas buscas. Enquanto isso, no prédio da Marinha, no bairro de Retiro, em Buenos Aires, durante 14 extensos dias que a Marinha chamou de SAR (Operação de Search and Rescue, Busca e Salvamento), um homem pálido se apresentava diante das câmeras com o corpo retraído e acanhado, fala pausada e digna, sem nunca perder a calma ou subir de tom. Coube ao Capitão Balbi navegar um submarino invisível. Ao aparecer no 14º dia com os olhos miúdos, soterrados sob pele fina, demonstrava, no abismo da retina, a notícia terrível que a torcida humana hesitava em dar: estão todos mortos.

A 400 quilômetros dali, na base militar de Mar del Plata, a cena era outra. Desesperados com o destino terrível que pesava sobre seus amados, os familiares e amigos dos tripulantes se aferravam ora à esperança, ora ao desespero. Dentro dessa bolha submersa, estavam os tripulantes e 44 milhões de argentinos circunscritos a uma tragédia inimaginável, percorrendo juntos o que parecia ser 20 mil léguas submarinas. A cúpula do governo se debatia dentro de si, enfrentando o dilema de dar por perdidos seus homens e a mulher, no mar.

Durante esses meses, como a tripulação do Nautilus da novela de Julio Verne, comandada por Nemo, que em latim significa ninguém, uma alusão a rumo ao esmo, os argentinos enfrentaram suas fobias, a falência de suas instituições e o pensamento de um soterramento nas águas, como no mundo sub aquático e fantástico do livro 20 mil léguas submarinas. Confrontados com a fragilidade da vida no mar, a inoperância das máquinas, os segredos institucionais que dificultavam saber o que verdadeiramente aconteceu com o submarino, os argentinos, assim como os tripulantes, foram deixados à deriva rumo ao desconhecido, um destino tão misterioso que muitos não ousam nem imaginar.

Talvez jamais saibamos o que aconteceu com o Ara San Juan. Talvez seja melhor assim.
Gabriela G. Antunes é jornalista. Morou nos EUA e Espanha antes de se apaixonar por Buenos Aires. Na cidade, trabalhou no jornal Buenos Aires Herald e hoje é uma das editoras da versão em português do jornal Clarín. Escreve aqui todos os sábados 

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