Bruno Boghossian
Só faltou oferecer um troféu ao presidente por ainda não ter dado um golpe de Estado
Na última semana, Jair Bolsonaro e Dias Toffoli fizeram uma dobradinha.
Questionado sobre críticas feitas por ministros do STF a seus ataques à
democracia, o presidente protestou. “Eu queria que essas pessoas
apontassem um ato meu, uma ação antidemocrática. Só isso, mais nada”,
disse, na quinta-feira (3). “Quando é que eu tentei censurar a mídia?”, emendou Bolsonaro. Ele deve
se lembrar do dia em que disse ter vontade de encher de porrada a boca
de um repórter que perguntou o motivo dos depósitos de R$ 89 mil na
conta da primeira-dama, mas essa é outra história. [quanto a ato antidemocrático praticado pelo presidente da República, não há o que apontar - alguns repórteres e inimigos do presidente Bolsonaro = por extensão inimigos do Brasil da democracia e das liberdades = fazem ilações, criam a verdade transfigurada, a notícia infundada e a narrativa manipulada = e classificam como ato antidemocrático ações do presidente que não envolvem a democracia.
Ter vontade é desejar e sua expressão não constitui crime, se a vontade, o desejo, tivesse se concretizado poderia configurar vias de fato, nunca ato antidemocrático.]
Horas depois, Toffoli decidiu absolver o colega do Planalto. Ao fazer um
balanço de sua gestão, na manhã seguinte, o presidente do Supremo disse
nunca ter visto “nenhuma atitude contra a democracia” partindo de
Bolsonaro e seus ministros. Toffoli poderia ter ficado no papo do equilíbrio institucional ou até
repetido a propaganda sobre seus esforços para reduzir a tensão entre os
Poderes. Mas o chefe do Judiciário preferiu passar um verniz
democrático numa conduta delinquente.
Bolsonaro é o presidente que, irritado com um punhado de decisões do
STF, passou a divulgar uma teoria segundo a qual as Forças Armadas
poderiam fechar o tribunal. Ele também já ameaçou descumprir decisões da corte e disse que não
aceitaria determinações de seus ministros. “Acabou, porra!”, gritou o
democrata depois que a Polícia Federal acordou extremistas que apoiam o
governo nas redes sociais. [mais um parágrafo em que o presidente expressa desejos e faz uma interpretação, uma opinião, sobre o artigo 142 da CF.
Este parágrafo é excelente na apresentação de desejos, que não são, nunca foram e nunca serão atos antidemocráticos.]
Quanto aos ministros do governo, Toffoli deve ter esquecido que a
Esplanada tem integrantes que falam com despreocupação sobre a edição de
um novo AI-5 e gente que promete “consequências imprevisíveis para a
estabilidade nacional” quando se vê sob a mira do tribunal. [desejar um AI-5, desejar uma Constituição com pena de morte, a prisão de bandidos, o fim do desemprego, a cura do câncer, são desejos, apenas desejos.]
Com certo orgulho, Toffoli afirmou ter feito o presidente “compreender
que cabe ao Supremo declarar inconstitucionais determinadas normas”. Só
faltou oferecer um troféu a Bolsonaro por ainda não ter dado um golpe de
Estado. [como presidente do STF, por extensão, chefe do Poder Judiciário, o presidente Toffoli não pode, nem deve, tipificar desejos e sua expressão como atos antidemocráticos.
Lembrando que sua Excelência tem contra sua gestão no STF a instauração do 'inquérito do fim do mundo'.]