O Estado de S.Paulo
Os gestores da epidemia não sofrem as consequências das
decisões que tomam
Eis aí o Estado de São Paulo de volta à fase de restrições radicais por
conta da covid – e é bom ir dando graças a Deus, segundo indicam as
“autoridades locais” que receberam do STF a incumbência de gerir a epidemia sem interferências de
cima ou dos lados. Como acaba de dizer o gestor-chefe do Alto Comissariado que
decide hoje em dia o que o cidadão pode ou não pode fazer na sua vida, a atual
“fase vermelha” da quarentena talvez não seja suficiente para satisfazer o grau
de paralisia da sociedade que acham satisfatório; já ameaçou com a adoção de
uma “fase preta”, na qual querem proibir ainda mais coisas. Quais? Nem eles
sabem direito. Só dizem que vai ficar pior.
Permanecem de pé, enquanto eles distribuem as suas ordens,
duas questões essenciais. A primeira é: para que tudo isso? Nunca se adotaram
medidas de intervenção nas liberdades individuais e públicas mais extremas que
as de agora. Ao mesmo tempo, nunca morreu tanta gente – quase 260 mil pessoas,
segundo os critérios que definem o que é morte por covid e segundo os últimos
números publicados pela imprensa. Obviamente, pela observação objetiva dos fatos
que estão à vista de todos, o “fique em casa” não deu certo – se tivesse dado,
a quantidade de mortos e de infectados estaria diminuindo, e não aumentando.
Tudo o que se diz em defesa do fechamento é a mesma coisa que vem sendo dita
desde o começo: seria pior se não fosse assim. Quanto pior? Aí cada um diz o
que quer. Haveria 3 milhões de mortos etc. etc. etc. Ou seja: acreditem em mim,
façam “home office” e chamem o motoboy para o “delivery”.
A segunda questão é igualmente simples: depois de um ano inteiro
de gestão exclusiva da covid
(na prática, as decisões locais não podem ser mudadas por decisões superiores)
e de gastarem dezenas de bilhões de reais em dinheiro tirado do público, o que
as autoridades que trataram da epidemia têm para mostrar em seu favor? Nesse
período o cidadão foi governado por decretos-leis e a Constituição foi
sistematicamente desrespeitada.
Uma recessão que fez a economia recuar mais 4%
em 2020 destruiu empregos, liquidou empresas e arruinou as vidas de milhões de
brasileiros.
Num país desesperadamente atrasado na educação de suas crianças e
jovens, a maioria das escolas está fechada há um ano.
Em troca de tudo isso, o
que se tem são 260 mil mortos e a constatação de que o sistema público de
hospitais está em colapso – segundo os próprios responsáveis diretos pelo seu
funcionamento.
As coisas estão assim, dizem eles, porque o número de casos
aumentou demais. Mas não é justamente para isso, para resolver emergências
extremas, que receberam esses poderes todos e estão aí fazendo o que bem
entendem desde março de 2020?
Não foi para tratar exclusivamente da covid que
Estados e municípios receberam, ao longo deste último ano, R$ 35 bilhões em
verbas federais? Com esse dinheiro o Brasil
poderia ter hoje 250 mil leitos de UTI; tem menos de um terço disso. Quando
apresentados a qualquer desses fatos, os comissários da covid ficam
impacientes: dizem que é tudo “negacionismo” e encerram a conversa.
Não muda
nada – o fracasso continua do mesmo tamanho, e daí eles dobram a aposta. O fato é que os gestores da epidemia não
sofrem as consequências das decisões que tomam.
Nenhum deles perdeu o emprego
até hoje, nem renda, nem fez cinco minutos numa fila de ônibus, nem passou um
dia inteiro sem café da manhã, almoço e janta.
Ninguém ficou sem elevador, luz
elétrica e água quente – para isso, garantindo o conforto de quem está “em casa”,
há sempre um infeliz pendurado no poste ou enfiado embaixo da terra. Eles que
se aglomerem.
[por falar em aglomeração, o secretário de Mobilidade Urbana do DF, braço direito do Ibaneis Rocha, foi questionado devido o excesso de aglomerações no transporte urbano - a autoridade saiu-se com essa pérola de burrice e desprezo pelos trabalhadores - deboche mesmo:"é preciso esse pessoal evitar o transporte coletivo."]