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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Bolsonaro está mais forte. E as oposições? [quais oposições? tem algum aoposição no Brasil?

Felipe Maia

Não há escolha política acertada sem uma correta compreensão das relações de força. Por isso é forçoso constatar que Bolsonaro hoje está mais forte que há dois anos. As razões que explicam o fenômeno ainda estão por ser mais bem entendidas, mas a leitura dos fatos dificilmente permite outra conclusão. A vitória dos candidatos do governo nas eleições para as mesas das duas casas legislativas no início de fevereiro consolidou um realinhamento de forças políticas que teve início em meados do ano passado quando Bolsonaro livrou-se de Sérgio Moro e ampliou a participação do assim chamado “centrão” em seu governo. 
[NÃO EXISTE oposição ao governo Bolsonaro - o que existe é um amontoado de insatisfeitos com o resultado das eleições 2018, formado por adeptos do 'quanto pior, melhor' somados aos inimigos do Brasil, misturados aos inimigos do presidente e os sempre derrotados petistas e assemelhados  - que no desespero sentem que a caminhada dos brasileiros e brasileiras, sob o comando do Presidente Bolsonaro, rumo ao Brasil da ORDEM E PROGRESSO, do PLENO EMPREGO, da INDEPENDÊNCIA ECONÔMICA, da SAÚDE, da EDUCAÇÃO, da ERRADICAÇÃO TOTAL da Miséria, é inexorável, inevitável e exitosa. 
São tais coisas que pretendem - ou são consideradas - oposição?]

O que foi visto à época como um seguro contra um eventual processo de impeachment, pode se tornar agora o modus operandi permanente da relação entre governo e legislativo. Uma eventual reforma ministerial, com se especula, seria o próximo passo na reorganização das forças do governo. Ela poderia consolidar a aliança entre o grupo palaciano e os partidos dominantes no Congresso, num amálgama de interesses corporativos, religiosos e econômicos, em que se mistura a agenda cultural reacionária com a economia ultraliberal, que vê no desmonte das redes de proteção social e ambiental a tábua de salvação  ... 

... mas para derrotar o grupo de Rodrigo Maia e Baleia Rossi até em seus próprios partidos. Estima-se que até nos partidos da oposição de esquerda a aliança vencedora tenha amealhado votos, tendo sido emblemática a divisão da bancada do PT na escolha do posto que lhe cabia na composição da mesa diretora da casa. O arranjo encabeçado por Rodrigo Maia, que reunia partidos de centro-direita independentes do governo e a oposição de esquerda, se desfez. Foi essa articulação que permitiu manter a Câmara longe do controle do governo, o que serviu como um muro de contenção para reduzir os danos da política destrutiva de Bolsonaro. Desfeito o obstáculo, o governo tem agora caminho mais livre para encaminhar sua agenda no Legislativo. 

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E isso ainda mais se Bolsonaro conseguir manter o controle de outros elementos chave da dinâmica política. Em sua relação com o Judiciário, ele vem, aos poucos, ganhando terreno. Já indicou um ministro ao Supremo Tribunal Federal, que vai se revelando bastante colaborativo, e ainda poderá indicar ao menos mais um até o fim de seu mandato, o que não é suficiente para alterar a composição do plenário que é hoje, com todas as críticas que se possa ter a ela, resistente aos impulsos autoritários.

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No novo quadro, ele fica mais isolado no “mundo ocidental”, mas não no planeta, pois os autoritarismos de direita têm força no globo, na Índia e na Rússia, que são potências, e que não vão isolar Bolsonaro por razões democráticas. Nem a China o fará.

A resistência ao autoritarismo e a um segundo mandato de Bolsonaro dependem da política interna brasileira. Vê-se que o governo se refez, mas e a oposição? Seria ela capaz de superar sua fragmentação? As diferenças políticas entre a oposição liberal de João Dória e os partidos de esquerda dificilmente permitiriam a constituição de um movimento programaticamente unitário, mas não deveriam impedir a colaboração em torno de pontos em comum, notadamente, a defesa da Constituição de 88 e a recusa dos “negacionismos” em políticas de saúde ou ambiental, o que, no entanto, apenas muito timidamente se esboça. A derrota da frente mais ampla na eleição para a mesa da Câmara corre o sério risco de ser mal interpretada, enfraquecendo a adesão a iniciativas de oposição que transcendem as divisões programáticas, quando, ao contrário, deveria favorecer o reconhecimento da força do adversário e da gravidade da ameaça que representa.

Na esquerda, a prevalência de estratégias partidárias autocentradas também dificulta a construção de uma concertação mais ampla. É assustadora a perspectiva de repetição da configuração eleitoral de 2018 que pode levar ao mesmíssimo resultado. Ou não aprendemos nada sobre a força do autoritarismo no mundo e no Brasil? Esse é um desafio político, que não se supera sem um realinhamento de orientações partidárias para oferecer à população uma alternativa nova, capaz de dialogar mais amplamente com uma sociedade que é tão heterogênea quanto desigual. Não podemos deixar que a ilusão de uma revanche ou de um tira teima das eleições passadas nos conduza novamente ao abismo autoritário que se anuncia.

MATÉRIA COMPLETAFelipe Maia, professor e pesquisador