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domingo, 27 de agosto de 2023

Descrentes do Estado

A grande surpresa de Milei na Argentina revela outros fenômenos

 Javier Milei

Javier Milei (Tomas Cuesta/Getty Images)
 
Os 7 milhões de votos para o candidato ultra libertário na Argentina continua a desafiar os especialistas em decifrar cabeça de eleitor, um enigma até na nossa era de hiperinflação. 
Vamos ter de esperar até 22 de outubro para saber se o fenômeno Milei se consolida ou se foi apenas um daqueles ataques de birra com que eleitores costumam deixar os institutos de pesquisa com a cara no chão. 
Mais do que analisar o perfil médio do eleitor que votou no excêntrico candidato — homem, jovem, descrente de todas as alternativas tradicionais —, é interessante ver os elementos sociais que podem fazer do caso argentino uma categoria e não uma exceção. 
 
As mudanças no estilo de vida são globais: jovens sem ter nem aspirar a ter empregos consolidados, com relações de trabalho tão fluidas quanto as pessoais, sem necessariamente esperar formar família ou mesmo casais fixos. Na Inglaterra, por exemplo, um dos assuntos do momento é o das mulheres com mais de 30 anos que nunca tiveram um namorado firme. Saem com alguém do aplicativo, rola o algo mais e a coisa não evolui. O jeito é fingir que se sente empoderada, assistir ao filme da Barbie e se afundar no vinho rosé com as amigas. 
 
Entre os homens, os casos mais extremos de isolamento produzem os incels, os celibatários involuntários, expressão sofisticada para o fenômeno muito triste de jovens que simplesmente não têm nenhum relacionamento com o sexo oposto. No limite, incels descontrolados são os jovens que cometem chacinas nas escolas onde se sentem excluídos.

“As mudanças são globais: jovens sem ter nem aspirar a ter empregos consolidados”

Ter uma saudável desconfiança em relação ao Estado não é a mesma coisa que rejeitar categoricamente todas as instituições públicas — abrindo-se, aqui, uma exceção para o caso argentino, diante do histórico de erros tectônicos da direita e da esquerda. 
No livro Bowling Alone, ou Jogando Boliche Sozinho, o cientista político Robert Putnam detectou na virada do século, entre os americanos, a perda do que chama capital social: o enfraquecimento da religião e do senso de pertencimento que ela proporcionava, o esgarçamento do casamento e das relações familiares e um sentimento muito presente entre americanos menos privilegiados, o de que as pessoas comuns têm sido traídas pelas elites. 
Atenção, Putnam não é de direita, bem ao contrário, embora as chagas apontadas possam fazer parte do manual do pensamento conservador. Olhando para os EUA com o foco mais aberto, diz ele: “Quando a economia vai bem, as pessoas confiam mais no governo. Quando a economia vai mal, a confiança afunda. Em três quartos de século, todos os índices máximos e mínimos de confiança no governo podem ser explicados por três fatores: a Guerra do Vietnã, Watergate e o desempenho da economia”.
 
“Tenho vendido minha alma / Fazendo hora extra todo dia por uma droga de salário / Para poder sentar aqui e desperdiçar minha vida / Voltar para casa e afogar as mágoas”, canta Oliver Anthony, numa espécie de hino do redneck que virou fenômeno viral. 
O americano-padrão Anthony não é muito diferente do argentino-padrão Milei. Preservadas, obviamente, as especificidades da Argentina, onde até o pensamento libertário gerou uma corrente populista. 
Seus seguidores , em muitas instâncias, estão sozinhos em casa, como versões adultas do personagem de Esqueceram de Mim. Com o celular na mão e muita bronca na alma.

Publicado em VEJA, edição nº 2856  de 25 de agosto de 2023, 

Vilma Gryzinski, Mundialista, Revista VEJA

 

sábado, 15 de agosto de 2020

[adaptações nem sempre funcionam] O que faz uma mulher ser mulher?

Vilma Gryzinski - Mundialista 

O devido respeito aos transgêneros vira absurdo da era PC 

[não está entre os temas do Blog Prontidão Total. Mas, o absurdo impõe sua postagem. 

Está difícil ser mulher, embora tenha fila de gente querendo entrar para a categoria. A própria palavra “mulher” tem sido usada com cautela. Por ser considerada uma agressão, micro ou macro, aos que tendo nascido biologicamente do sexo feminino, declaram pertencer ao outro clube. Daí decorrem alguns absurdos literalmente ridículos. Num tuíte sobre a nova recomendação para exames de colo do útero da Sociedade Americana do Câncer, a CNN anunciou que “indivíduos com cérvix” devem fazer o teste a partir dos 25 anos até os 65. A ideia é não ofender mulheres biológicas que se tornaram homens trans, mas continuam a ter aparelho reprodutor feminino. Incluindo colo do útero. Na Inglaterra, a situação é mais surreal ainda. Homens trans que se registraram como tal no Sistema Nacional de Saúde não  recebem uma cartinha avisando que está na hora de fazer o exame de colo do útero e a mamografia. Embora continuem tendo colo do útero e, na maioria das vezes, mamas. 

Georgios Papanicolau, o médico grego que pesquisou os ciclos reprodutivos e descobriu as diferenças entre células malignas e normais no colo do útero, abrindo caminho para o exame que detecta câncer cervical em seu início, provavelmente ficaria intrigado. Uma encrenca que já se tornou um clássico contemporâneo começou quando J.K. Rowling reclamou do tuíte de uma ONG referindo-se às agruras, durante a pandemia, de “pessoas que menstruam” e são  muito pobres, sem acesso a produtos de higiene. “Tenho certeza de que essa gente tem um nome”, ironizou a “mãe” de Harry Potter, fazendo trocadilhos com a palavra women, mulheres em inglês: “Wumben? Wimpud? Woomud?”.

(........)

Publicado em VEJA, edição nº 2700,  de 19 de agosto de 2020Blog Mundialista