Alguém sentiu cheiro de queimado. O presidente do FNDE, nomeado em fevereiro, foi dispensado e seu sucessor, Rodrigo Dias, assumiu no dia 30 de agosto. A 4 de setembro revogou preventivamente o edital.

Entre agosto e as duas primeiras semanas de setembro a Controladoria-Geral da União apontou “inconsistências” no edital. Põe inconsistência nisso. Noves fora que o Ministério da Economia não foi consultado para uma licitação de R$ 3 bilhões, ficando-se só em dois pontos apontados pela CGU, via-se que:
Os 255 alunos da Escola Municipal Laura Queiroz, de Itabirito (MG), receberiam 30 mil laptops (118 para cada um). Poderia ter sido um erro de digitação, mas a CGU mostrou que 355 escolas receberiam mais de um laptop por aluno, e 46 delas, mais de dois. Cada jovem da Chiquita Mendes, de Santa Bárbara do Tugúrio (MG), receberia cinco.

Na outra ponta do negócio, o das empresas que ofereciam equipamentos, a  CGU achou duas, a Daruma (de Taubaté) e a Movplan (de Ribeirão Preto). Ambas mandaram cartas de cinco linhas, com o mesmo fraseado e o mesmo erro de português:
“Sem mais, para o momento, colocamo-nos à disposição para quaisquer esclarecimentos que se façam necessária.”
A Movplan fica em Ribeirão Preto (SP), mas datou sua carta de Taubaté (SP), onde mora a Daruma. [no governo petista um erro desse tipo passava fácil; 
apesar de muitos letrados no governo, eles para não ofenderem a regra petista, se faziam, ainda que inocentes (nem todos) de analfabetos.

A regra do governo petista era:
- presidente além de  semianalfabeto, era filho de mãe que nasceu analfabeta, se orgulhava de nunca ter lido um livro e não ter diploma.
Seu atual diploma é um Alvará, provisório, lhe concedendo, provisoriamente, a condição de ex-presidiário.]

As “inconsistências” apontadas pela CGU foram rebatidas pelo FNDE num documento de 20 páginas. A autorização do Ministério da Economia não seria necessária, não se tratou da coincidência gramatical das duas cartas e a remessa para as escolas de um número de laptops superior ao de alunos seria corrigida. O FNDE alegrou-se, informando que só na escola Laura Queiroz, a Viúva economizaria R$ 54,7 milhões.
O edital foi finalmente revogado pelo FNDE no dia 9 de outubro, data da conclusão do Relatório de Avaliação da CGU. Final feliz, graças à vigilância de competência de um órgão controlador da administração pública.

O que pode parecer um desfecho, deveria funcionar para Bolsonaro como um começo: Como é que esse edital apareceu? Uma despesa de R$ 3 bilhões não é um jabuti qualquer. A burocracia do FNDE blindou-se diante das advertências da CGU. Blindada, continuou depois da posse do novo presidente e da revogação preventiva do edital. Cada ato administrativo praticado nessa novela tem um responsável, ou vários. O mesmo se pode dizer das empresas que foram atraídas (ou fizeram-se atrair) pela bonança do negócio. Os auditores da CGU defenderam a bolsa da Viúva, mas se o caso terminar com a simples revogação do edital e zero a zero, bola ao centro, sem a exposição dos responsáveis, eles estarão enxugando gelo.

Serviço: O relatório da CGU, a réplica do FNDE e a tréplica dos auditores, estão na rede, neste link .
São 66 páginas de textos com algum “juridiquês” e muito “computês”, mas alegrarão quem acredita que há uma banda competente e vigilante no serviço público.

Os lençóis da Casa de Windsor



Numa perfídia dos deuses, enquanto a Netflix mostra mais um episódio de “The Crown”, estão no ar as lambanças do príncipe Andrew, o duque de York, terceiro filho da rainha Elizabeth. É como se a vida real competisse com a ficção mas, olhando-se bem, a história é uma só.  Andrew foi banido da família real porque frequentava a roda de um americano bilionário e cafetão que se matou na cadeia. “The Crown” já sugeriu que a rainha teve um caso com o chefe de suas cavalariças, Lord Porchester, ou “Porchie”. Em 1991 o jornalista Christopher Hitchens escreveu no “New York Times” que, segundo um cronista da família real, basta olhar para uma fotografia de Andrew e outra de “Porchie” para se perceber que dificilmente o príncipe Philip é seu pai. Assim como basta olhar para o cabelo de Harry, para se ver que Charles não foi seu pai. (Coisa que ele teria percebido na maternidade, ao ver o bebê ruivo.)

Na vida real, os lençóis da casa Windsor serviram ao roteiro de “The Crown”: A princesa Anne (filha da rainha) namorou Andrew Parker Bowles, que namorava Camila Shand, cuja avó namorou o avô do príncipe Charles, que ela passou a namorar. Na próxima série Charles vai se casar com Diana, que não havia namorado ninguém, enquanto ele continuou namorando Camila, com quem está casado, e ela foi em frente.

A série que está no ar perdeu a sutileza das anteriores. Numa cama de Tony Armstrong-Jones, futuro marido da princesa Margaret, viram-se cinco pernas. Agora, a senhora (uma jararaca) aparece beijando o presidente americano Lyndon Johnson, coisa que nunca aconteceu. Lord Mountbatten também não foi tão longe na armação do golpe de estado contra o primeiro-ministro Harold Wilson. Apesar do grande desempenho do ator Josh O’Connor, ele está exageradamente abobalhado.

Até o reinado de Elizabeth os Windsor metiam-se em trapalhadas, mas evitavam picaretagens e promiscuidades explícitas como aquelas em que se  meteram Andrew e sua primeira mulher, Sarah Ferguson.
Pelo visto, a próxima série de “The Crown” será animada pela entrada em cena de Diana. Com alguma sorte, poderá mostrar a nobreza dos plebeus. Nenhum dos três namorados de Kate Middleton antes de seu casamento com o príncipe William abriu a boca, e um deles é jornalista.

Na Folha de S. Paulo e em O GLOBO, leia a MATÉRIA COMPLETA - Elio Gaspari, jornalista