Revista Oeste
Uma adolescente foi perseguida em sala de aula por dizer que o sexo biológico existe
Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
Uma baronesa deu uma palestra para os últimos anos do
ensino médio de uma escola particular do Reino Unido para meninas.
Depois
disso, uma garota foi cercada por um grupo grande de colegas. Elas gritaram,
atacaram, xingaram e cuspiram na adolescente, que fugiu, mas desmaiou por não
conseguir respirar direito.
A palavra bullying é usada de forma leviana hoje em
dia. As crianças se veem como vítimas do bullying quando se sentem excluídas.
Chefes que colocam a equipe sob pressão para cumprir prazos podem ser acusados
de bullying. De modo geral, essas são apenas experiências desagradáveis. Mas
uma estudante ser atacada, cercada, xingada e cuspida por suas colegas sem
dúvida é um caso evidente de bullying.
Sendo assim, nesse caso, poderíamos esperar que os
professores — totalmente treinados em todas as orientações antibullying mais
atuais — interviessem e acabassem com o sofrimento dessa garota, não é? Seria
de esperar que ela recebesse cuidados, e suas algozes fossem punidas, certo?
Mas não foi isso que aconteceu. Em vez de receber apoio de
seus professores, a aluna cercada por uma multidão enfurecida foi “afastada” da
escola. E, em vez de serem punidas, as colegas que a perseguiram foram tratadas
como vítimas.
Inacreditavelmente, tudo indica que a diretora da escola se
desculpou com as alunas envolvidas por “não conseguir manter um ‘espaço seguro’
e ter sido vista por tanto tempo oferecendo apoio à vítima [do bullying]”, que
a essa altura tinha sido “isolada na biblioteca”, para sua própria segurança.
Crime hediondo
A herege em questão supostamente cometeu um crime tão hediondo do ponto de vista moral que as cusparadas e os xingamentos foram considerados uma reação quase justificável.
Na sequência da fala da aristocrata sobre “transfobia no Parlamento”, a garota que causou o estardalhaço ousou questionar as ortodoxias da identidade de gênero.
Ela cometeu a temeridade de sugerir que o sexo pode ser biológico e imutável. Esses crimes de pensamento a fizeram ser considerada uma transgressora que mereceu ser punida.
O incidente veio à tona depois que um professor da escola
entrou em contato o Transgender Trend, um grupo de pais, mães, profissionais e
acadêmicos preocupados com o rápido aumento de crianças diagnosticadas como
transgênero.
Dali, a história chegou ao jornal The Times. E, então, finalmente,
as cenas dignas do filme As Bruxas de Salém ocorridas na escola foram expostas
ao escrutínio público.
Vale mencionar que a escola envolvida é uma “defensora da
diversidade”, e a aristocrata, que foi conversar com as estudantes durante uma
aula de educação pessoal, social, de saúde e economia, é uma conhecida ativista
e palestrante da questão LGBTQ.
Suas opiniões sobre as questões relacionadas à
transgeneridade teriam reiterado posições já conhecidas pelas garotas — se elas
não as tivessem ouvido na cultura popular, teriam escutado de figuras como a
instituição beneficente trans Mermaids, que tinha sido convidada para falar na
escola no ano passado.
As estudantes — que têm 17 e 18 anos — não estavam
deparando com o tema pela primeira vez. Elas tiveram anos de treinamento sobre
a forma “correta” de pensar. E tinham sido totalmente preparadas para concordar
com tudo o que a baronesa dissesse. Mas parece que sua educação de alto nível
não as preparou para a discordância dessa opinião. Como uma professora da
escola descreveu, as estudantes presumiram que a garota que se atreveu a fazer
perguntas “mereceu totalmente o corretivo que tinha acabado de receber”.
O pensamento woke é cada vez mais apresentado não como algo
político, mas como uma questão de boas práticas para promover a igualdade
Que adolescentes se comportassem assim é uma coisa. Mas e
os professores? De acordo com o Times, de início, muitos deram apoio à aluna em
questão, mas “recuaram depois de reclamações de outras alunas do mesmo ano que
a acusaram de transfobia”. Pelo jeito, ou eles concordaram que a aluna de fato
era uma herege, e por isso mereceu aquele tratamento, ou foram covardes demais
para se manifestar em defesa dela.
Culpa da vítima
Quando voltou para a escola depois de seu confronto com a multidão, a garota foi informada de que teria de estudar na biblioteca se dissesse qualquer coisa provocadora nas aulas.
Os
repetidos xingamentos e as acusações de transfobia significaram que ela
já passava os intervalos e o horário do almoço na biblioteca.
Os professores pareciam supor que era a garota que estava errada — que ela era o problema por expressar discordâncias e por ousar fazer perguntas —, e não as garotas que a cercaram.
Sob quaisquer outras circunstâncias, isso teria sido chamado de “culpar a vítima”. Infelizmente, mas talvez não surpreendentemente, a garota saiu da escola em dezembro e está estudando em casa desde então.
É totalmente absurdo que qualquer estudante de 18 tenha de
ser tratada dessa maneira apenas por fazer perguntas educadas a uma palestrante
convidada. Que isso tenha acontecido mostra não apenas a completa dominação
intelectual da ideologia transgênero nas escolas, mas também como ideias nada
científicas de identidade de gênero foram ensinadas às crianças como ortodoxias
morais inquestionáveis. Do berçário em diante, os estudante são levados a
absorver de maneira acrítica a crença de que o sexo não importa, de que o
gênero está num espectro e de que pensar qualquer coisa diferente disso é
transfobia.
Além do mais, esse caso específico da aluna que foi
perseguida expõe a completa covardia de muitos professores.
Eles não só não são
capazes de questionar as narrativas identitárias dominantes, como também não
conseguem defender os alunos que o fazem.
Na mente de muitos docentes, o
incentivo à curiosidade intelectual e ao debate foi substituído como objetivo
fundamental da educação pela necessidade de promover um dogma woke.
Esses
professores parecem estar tão afastados de seu grande propósito moral que não
se pode nem mais confiar que eles vão manter a segurança de seus alunos nas
escolas.
Os colégios estão sujeitos a requisitos legais de
imparcialidade política. Recentemente, os ministros do governo reiteraram essa
obrigação.
Um obstáculo enfrentado por aqueles que estão comprometidos com a
imparcialidade na educação é que o pensamento woke é cada vez mais apresentado
não como algo político, mas como uma questão de boas práticas para promover a
igualdade, a diversidade e a inclusão. Nada poderia estar mais equivocado.
O
que está acontecendo nas nossas escolas é uma forma de doutrinação moral. E
está tendo um efeito devastador nas crianças.
Leia também “Uma agressão às mulheres”
Joanna Williams é colunista da Spiked e autora do
livro How Woke Won (no prelo)
Joanna Williams, colunista - Revista Oeste