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domingo, 26 de setembro de 2021

Dilma merece ser vice de Lula - Revista Oeste

Augusto Nunes

O falastrão que odeia leitura e a mulher que não fala coisa com coisa nasceram um para o outro

 Dilma Rousseff e Lula | Foto: Estadão Conteúdo

Dilma Rousseff e Lula | Foto: Estadão Conteúdo

Em 16 de maio de 1990, depois que seu filho Christian matou com um tiro na cabeça Dag Drollet, namorado da irmã Cheyenne, Marlon Brando isolou-se numa sala da casa em Beverly Hills até chegar a hora da entrevista coletiva. Caminhou em direção aos jornalistas e, antes que as perguntas começassem, disse uma frase que parecia ter acabado de sair do script de um filme em que o filho de um grande ator mata com um tiro na cabeça o namorado da irmã:

— A tragédia bateu em minha porta.

Quem pronunciou as seis palavras exemplarmente encadeadas? 
Um homem golpeado pelo drama terrível? 
Ou o gênio das telas interpretando o personagem? Jamais se saberá. “O grande ator não é gente como a gente, é outra coisa, muito misteriosa”, dizia o jornalista Paulo Francis. “E Marlon Brando é o melhor de todos os tempos.” Para amparar a avaliação, Francis evocava a cena de O Último Tango em Paris em que o protagonista chora ao lado do túmulo de sua mulher. “Era mais que um choro, era um uivo”, deslumbrava-se meu amigo. “Era uma tristeza fora do alcance do homem comum. Nem o mais inconsolável dos viúvos conseguirá chorar daquele jeito.”
Francis talvez mudasse de ideia se testemunhasse a performance de Lula no dia em que Dilma Rousseff enviuvou da Presidência da República, ao fim do casamento de cinco anos infelizes para quem consegue enxergar um palmo adiante do nariz. Nunca antes neste país, ou nunca antes neste mundo, viu-se alguém tão desoladoramente arrasado quanto o fabricante do poste que instalou no coração do poder até que se consumasse o despejo. Encerrado o velório sem cadáver no Palácio da Alvorada, um punhado de militantes do PT acompanhou por alguns metros a partida da mulher demitida pelo impeachment.  
Perdido no grupo de carpideiras, um Lula catatônico zanzava à deriva, com o olhar de quem sobe os degraus do cadafalso, o rosto castigado por rugas recém-nascidas e vincos que avisavam: nunca mais apareceria por ali sequer o esboço de um sorriso.

A passagem do tempo, o cerco movido pela Lava Jato, a temporada na cadeia, a namorada nova — essas e outras ocorrências desviaram as preocupações para outras direções. O sofrimento causado pelo calvário de Dilma agora parece suportável. Mas o luto continua. Na semana passada, a ex-presidente revisitou a memória do seu criador durante outra discurseira, de novo marcada pela insistência em algemar a liberdade de expressão com o que já se chamou “controle social da mídia” e ressuscitou rebatizado com outro codinome: “regulação da mídia”. Vistos de perto, tanto o controle quanto a regulação têm cara de censura, jeito de censura — e são isso mesmo: variações da velha censura, sempre camuflada por fantasias em farrapos. “A imprensa precisa respeitar limites”, berrou o palanque ambulante para outra plateia amestrada. “Não podemos esquecer que a mídia apoiou descaradamente o golpe contra Dilma Rousseff.”

Os institutos de pesquisa já entregaram a faixa presidencial ao chefe do maior esquema corrupto da História

Aos olhos malandramente estrábicos do ex-presidente presidiário, a queda de Fernando Collor em 1991 não tem parentesco com golpe nenhum. Com o apoio do PT, a bancada majoritária dos descontentes apenas utilizou o instrumento do impeachment, prescrito pela Constituição. Tampouco pode ser considerada golpista a campanha “Fora FHC”, deflagrada em janeiro de 1999, semanas depois da segunda vitória de Fernando Henrique sobre Lula no primeiro turno. 
E só negacionistas, terraplanistas ou genocidas ousam enxergar algum tipo de golpe na pilha de pedidos de impeachment erguida pelas tribos derrotadas em 2018. 
A coisa só se transforma em conspiração fascista se o alvo desfila na ala dos democratas que não admitem discordâncias nem toleram o convívio dos contrários. Dilma Rousseff é o mais vistoso destaque desse monumento ao cinismo.
 
Caso efetivamente ache que a sucessora comandou um governo admirável, caso acredite mesmo que perdeu o emprego porque só pensava nos pobres, Lula não pode perder a chance de reparar a injustiça na eleição do ano que vem
Como se sabe, os institutos de pesquisa já entregaram a faixa presidencial ao chefe do maior esquema corrupto da História. 
Que tal completar a chapa com Dilma candidata a vice — e, por que não?, ceder-lhe metade do mandato para que conclua a obra rudemente interrompida? 
Dois anos no poder não são pouca coisa, atesta o resgate parcial do besteirol acumulado por Lula em 2003 e 2004. 
Extraídos de excelente artigo de Dora Kramer, os momentos aqui reproduzidos avisam que, perto do colecionador de diplomas de doutor honoris causa, Jair Bolsonaro é um apóstolo do politicamente correto.

Ao sancionar o Estatuto do Idoso, Lula exortou os aposentados a “não ficarem em casa atrapalhando a família”. Ao recepcionar portadores de deficiências físicas, o presidente animou-se ao reconhecer um deles: “Estou vendo o Arnaldo Godoy sentado, tentando me olhar, mas ele não pode me olhar porque é cego. Estou aqui à tua esquerda, viu, Arnaldo?”. Numa audiência concedida a atletas que disputavam vagas na delegação que viajaria para a Grécia, Lula desejou-lhes sorte na Paraolimpíada de “Antenas”. Com a mesma delicadeza foi contemplado o gênero feminino. Depois de esquecer Marisa Letícia dentro de um carro na Espanha, procurou redimir-se num falatório no Rio: “A galega engravidou no primeiro dia porque pernambucano não deixa por menos”. Disposto a deixar claro que nunca foi preconceituoso, viu em Pelotas, no interior gaúcho, “um polo exportador de viados”. (Assim mesmo: com i.)

Entre uma grosseria e um pontapé nas boas maneiras, caprichou no espetáculo da ignorância. Aboliu 3.000 quilômetros de fronteira ao anunciar que, além do Chile e do Equador, também a Bolívia não estava na lista dos países vizinhos do Brasil. Na Síria, dissertou sobre um certo “continente árabe” e ergueu um brinde com bebida alcoólica ao presidente, que é abstêmio por motivos religiosos. Poderia ter evitado algumas agressões a conhecimentos elementares se não achasse que “leitura é pior que exercício em esteira”.  
A catarata de cretinices prosseguiu, mas deixou de inundar o noticiário jornalístico para abrir espaço ao cortejo de escândalos que começou com o Mensalão, chegou ao clímax com o Petrolão e só cessou quando o Supremo Tribunal Federal resolveu atender ao apelo de Romero Jucá e estancou a sangria.

Também Dilma Rousseff mereceu a carteirinha de sócia do clube dos incapazes capazes de tudo. Entre incontáveis espantos, a inventora do dilmês enxergou um cachorro (oculto) por trás de cada criança. Compreendeu que tudo seria diferente se fosse possível estocar vento. Aconselhou Barack Obama a evitar que a pasta saia do dentifrício. Descobriu que o coronavírus é esperto, solerte e ataca na horizontal. Ensinou que é mais sensato dobrar metas inexistentes. E, na mais assombrosa de suas façanhas, provou que é possível presidir o país — durante cinco anos sem falar coisa com coisa, sem declamar uma única frase com começo, meio e carregando na cabeça baldia um neurônio solitário.

Nascidos um para o outro, Dilma merece ser vice de Lula e Lula merece ter Dilma como vice. Quem não merece essa dupla de nulidades arrogantes é o Brasil que pensa e presta.

Leia também “Lula e a mulher-aranha”

Augusto Nunes, colunista - Revista Oeste

 

sábado, 5 de dezembro de 2020

Hipócritas desmascarados (e aglomerados)

Guilherme Fiuza

O governador da Califórnia é simpático, sorridente, bem apessoado, alto, magro, aparência atlética nos seus 50 e poucos anos de idade, democrata, politicamente correto, a favor do meio ambiente, das minorias, do bem e da felicidade. Na pandemia, se apresentou como um grande defensor de vidas. Sua exuberante bondade só tem um defeito: é falsa.

Gavin Newsom impôs à Califórnia um lockdown severo. Como toda autoridade que adotou políticas de restrição extrema, afirmou que esta era a forma recomendada pela ciência para salvar seres humanos da covid. No entanto, os estados americanos que trancaram mais suas populações não conseguiram números de óbitos mais baixos, como já atestado por estudo feito na UCLA – Universidade da Califórnia em Los Angeles. Mas o governador bondoso não se abalou.

Com a aproximação das festas de fim de ano, ele decidiu como será a ceia dos californianos. Limitou o número de pessoas por residência e decretou que a celebração pode ter no máximo duas horas. E que ninguém pode cantar. Talvez você tenha se distraído, então vamos recapitular: não estamos falando da União Soviética, nem do Afeganistão. Estamos falando do estado mais “progressista” da maior democracia do mundo.

Gavin Newsom é a personificação da bondade, mas não é de ferro: depois de toda essa engenharia implacável de controle sanitário e social, foi visto (e fotografado) numa alegre confraternização em ambiente fechado sem máscaras, nem distanciamento. Na sua doce aglomeração estavam presentes vários médicos e um lobista.

Não perca seu tempo dizendo que o governador fofo da Califórnia é um hipócrita. Isso já está carimbado na testa dele para sempre (se os Senhores da Verdade não derem um jeito de apagar). O que você precisa constatar é que Gavin Newsom não é um suicida. Você acha que ele se ajuntou com sua turminha desmascarada para brincar com a morte num ritual satânico?

Não, né? Pois é. Então é o seguinte: o hipócrita de Beverly Hills não vê na pandemia o risco que diz ver – e que embasa suas medidas ditatoriais, que por sua vez não são para salvar ninguém, senão o companheiro Newsom não colocaria o seu corpinho na reta, certo? Então responda: Você acha que o governador da Califórnia deveria responder criminalmente pela gravidade dos seus atos?
Você acha que as demais autoridades, inclusive no Brasil, que submeteram os cidadãos a restrições abusivas com o pretexto de segurança sanitária também deveriam responder criminalmente por 
isso?

Você acha que autoridades que lacraram lojas e soldaram portas deveriam ter de explicar à Justiça a necessidade inescapável dessas medidas brutais?
Ou você acha que os cidadãos arrebentados pelo fascismo sanitário devem só arcar com o prejuízo e lamber suas feridas?
Você acha que uma autoridade pode proibir hospitais públicos e privados de realizar cirurgias sem precisar demonstrar matematicamente o risco de colapso da rede por internações de

covid?
Você acha que autoridades podem determinar o trancamento de populações inteiras sem demonstrar a eficácia disso para a proteção aos grupos de risco?
Você acha normal que essas mesmas autoridades passem a falar em obrigatoriedade de vacinação da população inteira sem que a taxa de letalidade da covid aponte essa necessidade? [uma certeza temos: que pode até demorar mas todas as autoridades que cometeram os abusos citados acima, incluindo outras que podaram poderes de algumas autoridades e empoderaram outras terão que prestar contas. Pode demorar um pouco mas serão julgadas e punidas.]

Somos muito inocentes para suspeitar que isso tudo seja uma questão de poder e dinheiro. O ser humano não pode ser tão miserável assim. Vamos buscar as explicações
Mas não é contar história triste para imprensa amiga. 
Essa história tem que ser contada à Justiça. Ou à polícia – quem for mais atencioso.

O diretor regional da Organização Mundial da Saúde na Europa, Hans Kluge, declarou que o lockdown deve ser evitado. E que as escolas devem funcionar. Gavin Newsom, o rei do lockdown, disse que sua festinha californiana foi “um erro”.

Vamos ajudá-lo a entender melhor a situação. Prezado Newsom, você não cometeu um erro. Você é um erro. Da sua afetação politicamente correta à sua suposta defesa da saúde humana, nada é verdadeiro. Se a humanidade não desistiu de vez da democracia, você e seus comparsas de boa aparência vão ter que desistir do seu surto ditatorial. E pagar por isso.

Guilherme Fiuza, jornalista - Vozes - Gazeta do Povo

 

domingo, 29 de janeiro de 2017

Populistas são os outros

Obama é o personagem dos sonhos de Hollywood, mas o legado do presidente bonzinho é pífio 

Dizem que Donald Trump vai provocar uma guerra mundial. Mas ela já começou, mesmo antes da posse do novo presidente americano. Assim como no Carnaval há (ou havia) a batalha de confetes, o planeta vive hoje a guerra dos panfletos. É mundial, estúpida e devastadora. Ponha seu crachá, decore sua cartilha e se atire no front. Hollywood está unida contra o populista. Artistas convidados para se apresentar na posse dele, como o tenor italiano Andrea Bocelli, foram intimidados nas redes sociais: ninguém poderá aderir ao populismo impunemente. Não seja louco, caro leitor, de perguntar quem é o populista. Você será fuzilado sumariamente pela patrulha democrata e pacifista.

Mas... Quem é o populista?  Segundo o moderno dicionário ideológico universal, populista é Donald Trump. Agora se segure firme no cavalo e não mostre esta revista a ninguém, para não ser executado a sangue-frio: mais populista que Trump, só Barack Obama. O candidato vencedor das eleições presidenciais americanas, que parecia ser apenas uma laranjada demagógica, surpreendeu a todos, quebrou as bancas de apostas e chegou lá. O espetáculo daquele magnata afetado fazendo comícios que mais pareciam discussão de bar, num tom oposto à verve polida de Obama, deu ao mundo a certeza de estar diante de um aventureiro – na melhor das hipóteses. A outra diferença básica entre o laranja malcriado e o negro elegante é sutil: um está chegando à Casa Branca, e o outro acaba de passar oito anos lá.

E agora? Quem é o populista?  A resposta proibida é a seguinte: Trump, por enquanto, não é nada. Arrivista? Demagogo? Estadista? Picareta? Estrategista? Nem Deus sabe. Na retórica eleitoral tudo cabe. Mas, se o objetivo é a Presidência da nação, o que importa é a Presidência, certo? Então vamos falar de Obama – que, nesse quesito, é o único dos dois de quem se pode falar.  Obama é um fofo. Jogando basquete, é uma gracinha. Aquele sorriso largo combinado com a fala pausada e o inglês perfeito arranca suspiros. Jovem, magro... E ainda dança. Falta alguma coisa?
Basicamente, tudo.

Obama é o primeiro presidente negro dos Estados Unidos e o primeiro a ganhar um Nobel da Paz por antecipação – no primeiro ano de governo. Uma coisa, infelizmente, tem a ver com a outra. E tem a ver com a obsessão da humanidade culta pela criação e adoração de mitos. Barack é o personagem dos sonhos de Hollywood – e quem acordar a turma de Beverly Hills vai pagar caro. Bem, como já estamos todos pagando muito caro pelo conto de fadas dos coitados profissionais, vamos botar o despertador na orelha deles.

O legado do presidente bonzinho que prometeu taxar sem pena os ricos para dar aos pobres é pífio. Mais impostos, mais burocracia, menos pujança econômica – e o final patético de toda política que promete drenar riquezas para a salvação social: estagnação. O único milagre dessa história é, no frigir dos ovos, o discurso “sensível” de Obama permanecer de pé. Nem a eleição ele ganhou, mas o mito está intacto. Sabem qual é o nome disso? Populismo.

O observador honesto, que largar os crachás e as cartilhas para ver as coisas como elas são, constatará facilmente que a prioridade de Obama foi o discurso. Árabes, negros, mulheres, gays... Todas elas causas nobres e urgentes – mas quem tem coragem de dizer que o sectarismo refluiu nesses oito anos? Os Estados Unidos ainda são os maiores líderes do planeta, e a paz no planeta não foi ao show de Obama – como se nota, por exemplo, na escalada do Estado Islâmico. Não pode haver nada mais populista do que governar no palanque.

Apesar de derrotados nos Estados Unidos e enxotados do poder no Brasil por delinquência explícita, os ases da narrativa sabem o tesouro que têm nas mãos. A plateia adora um gigolô da bondade. Em São Paulo, um folclórico líder sem teto, que na verdade faz política fisiológica e engordou à sombra do governo petista, conseguiu depois de muitas tentativas ser detido pela polícia. “Atentado à democracia!”, gritou Dilma, sua ex-patrocinadora, que ainda está solta. 

Pois eis que esse populismo mais vagabundo e deletério, que sugou inocentes acima e abaixo do Equador com verniz socialista, agora vem dizer que populistas são os outros. Segure a carteira, que a bondade dessa gente não tem limite.

Fonte: Guilherme Fiuza - Época

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quinta-feira, 10 de novembro de 2016

‘Direto ao topo’

Trump vai assumir Presidência aos 71 anos incompletos como o mais cru dos aprendizes

Bill Clinton não era um calouro quando assumiu a Presidência dos Estados Unidos, em 1993. Já havia sido Procurador-Geral do Arkansas e governara por duas vezes seu estado natal. Ainda assim, logo depois de eleito, tratou de se aconselhar junto aos membros da confraria mais exclusiva do mundo — a dos que o antecederam na Casa Branca.

Já a partir da primeira semana procurou Ronald Reagan, Gerald Ford, Jimmy Carter, Richard Nixon e George Bush, pai, começando pelo primeiro, com quem tinha uma diferença de idade de 35 anos. Saiu do encontro com uma aptidão nova. Segundo relatam os autores Nancy Gibbs e Michael Duffy em “The Presidents Club”, o veterano Reagan havia notado que o candidato sulista, ao longo da campanha, não fizera uma única saudação militar decente quando em visita a alguma unidade das Forças Armadas. Pecado indesculpável para um futuro comandante em chefe. Como ex-oficial do Exército e ex-ator tarimbado, Reagan demonstrou as duas etapas distintas do movimento e passou à aula prática.

Foi assim que um presidente eleito de 46 anos, democrata, ensaiou a continência militar numa sala de um o 34º andar de Beverly Hills diante de um atento ex-presidente octogenário, republicano. Com Richard Nixon, tratou de União Soviética, mas também aproveitou para fazer perguntas práticas: como era a sua rotina? O dia a dia, do acordar ao adormecer? Como Nixon organizara sua agenda? O futuro locatário da Casa Branca não queria cometer erros banais. Mesmo veteranos na política ficam atordoados a partir do momento em que se veem na Casa Branca, sozinhos com o poder conquistado.

Donald Trump vai assumir a presidência aos 71 anos incompletos como o mais cru dos aprendizes. Ele pousa direto no topo, sem passar por qualquer cargo público. Como escreveu Evan Osnos da “New Yorker”, em valioso retrato do universo trumpiano, o bilionário confia em seu instinto e rapidez de decisão. Contudo, ele vai dispor de apenas 73 dias para montar uma equipe de governo, preencher quatro mil cargos federais e assumir um tentáculo de 2,9 milhões de funcionários civis e 1,5 milhão nas Forças Armadas.

Não é pouca coisa para um candidato cuja força maior foi justamente ser visto por seus eleitores como um He-Man que pode tudo sozinho e não deve nada a ninguém. Em parte, eles têm razão. Ao contrário de sua adversária, a estrutura da campanha de Trump era caótica, noves fora seu avião de rock star e fortuna particular. Abandonado a meio caminho pela caciquia do próprio partido, ele subia ao palco sozinho, enquanto Hillary Clinton tinha à disposição toda uma galáxia de estrelas como Le Bron James, Jay Z e Beyoncé ou Miley Cyrus atuando como chamarizes para comícios.

Por ter sido eleito presidente, Trump recebe desde ontem os mesmos briefings diários ultrassecretos que Barack Obama. É o início de sua transição para o mundo concreto do poder e para o universo real da geopolítica. Espera-se que a receita que distribuía anos atrás — “seja paranoico” — tenha sido abrandada com o tempo. Quanto à autópsia da derrota de Hillary, ela será dissecada ad nauseam daqui para a frente, com estatísticas capazes de sustentar qualquer teoria — do referendo contra a globalização ao repúdio às elites democráticas convencionais, passando pela revolta de uma classe majoritária que se sentia minoria em casa e outras tantas mais.

Contudo, nenhuma análise ou interpretação deve eludir o fator-chave que acabou se revelando insolúvel e intransponível: a vulnerabilidade múltipla da própria candidata democrata. Apontada por Trump como a encarnação da falência do poder encastelado e corrupto de Washington, ela foi a adversária mais fácil de ser abatida. Esta eleição foi tão atípica que um hipotético embate entre Donald Trump e o combativo senador Bernie Sanders talvez tivesse tido outro resultado.

Como se sabe, a base fervorosa de Sanders tinha em comum com a de Trump a convicção de que Hillary e o Partido Democrata são corruptos e trocam favores com doadores bilionários. O senador pelo Vermont há décadas aponta para Wall Street como um câncer e para a fraude financeira como um negócio que ajuda a arruinar a vida de milhões de americanos. Embora alguns trechos de seus discursos pudessem ser extraídos de plataformas democratas dos anos 1940, eles soaram radicais e incômodos demais para a liderança de 2016. Mas não para a base de seguidores da geração millenial do senador, cuja fidelidade canina não arrefeceu. Tanto assim que apenas 22% dos jovens de 18 a 29 anos votaram em Hillary.

Na verdade, os dois partidos políticos do país saíram lanhados desta eleição, uma vez que seus candidatos não conseguiram mobilizar sequer metade do eleitorado a maior disputa foi pelo maior índice de rejeição, 54% para Hillary, 61% para o presidente eleito. As lideranças poderiam começar a buscar as origens do atoleiro no novo livro de Thomas Frank, “Listen, liberal: Or, what ever happened to the party of the people?” (em tradução livre: “Ouça, liberal: Ou o que houve com o partido do povo?”). A tese de Frank é que não existe mais partido nos EUA que represente e defenda o trabalhador. Sentindo-se órfão, esse eleitor acabou ouvindo um cavaleiro branco de cabelo alaranjado e boné USA, que prometeu defendê-lo contra tudo e contra todos.

Donald Trump toma posse no dia 20 de janeiro com os poderes da Presidência consideravelmente ampliados desde os ataques do 11 de setembro de 2001, por George W. Bush, e interpretados com igual elasticidade por Barack Obama. Impossível prever a leitura que o novo presidente fará da Constituição, tendo maioria no Senado, na Casa dos Representantes e contando com uma futura Suprema Corte de maioria conservadora. “A verdadeira liberdade não deve ser baseada nem em despotismo nem em extremos de democracia, mas num governo moderado”, ensinou o Founding Father Alexander Hamilton, um dos artífices da Constituição americana.

Quase dois séculos mais tarde, na noite em que o então presidente Jimmy Carter levou uma surra de Ronald Reagan nas urnas (perdeu em 44 dos 50 estados), seu vice Walter Mondale pronunciou-se assim sobre a humilhante derrota: “Hoje, em todos os cantos do país — nas escolas, padarias, salas comunitárias, igrejas, sinagogas —, o povo americano exerceu tranquilamente seu extraordinário poder... Hoje celebramos acima de tudo o processo que chamamos de liberdade americana”. Não foi um pronunciamento retórico. Mondale, de 88 anos, sempre foi autêntico.

Um de seus bordões preferidos vale para todos que não elegeram Donald Trump presidente dos Estados Unidos da América: “Se você tem certeza de entender tudo o que está acontecendo, é porque você está perdidamente confuso”.

Fonte: O Globo - Dorrit Harazim