Um faroeste caboclo que não tem fim: Luziânia, cidade por onde a reportagem é iniciada, é uma das mais violentas
A
criminalidade que atinge o Entorno do Distrito Federal coloca alguns
dos municípios goianos como os mais violentos do país. Nessas cidades, a
pobreza se mistura com a insegurança. Bandidos deixam órfãos, viúvas e
pais sem filhos. Em meio à rotina simples, moradores enfrentam a falta
de segurança. Vale tudo, inclusive correr para pegar um mototáxi ao
descer do ônibus à noite, na volta para casa.
Todo
e qualquer trajeto pode se tornar uma ameaça. A partir de hoje, o
Correio começa a mapear o cinturão do crime no DF. De Luziânia a
Formosa, de Valparaíso a Planaltina de Goiás, de Águas Lindas a Santo
Antônio do Descoberto. Os repórteres vão percorrer os extremos, do
Entorno Norte ao Sul, para entender como a violência afeta a vida dessas
pessoas.
A começar por Luziânia, cidade distante
apenas 60km do Congresso Nacional, a realidade para os moradores da
cidade é bem diferente de quem vive no Plano Piloto. Para a comunidade
goiana, os adjetivos como “inseguro”, “violento” ou “intimidador” são
expressões corriqueiras que definem o sentimento de vulnerabilidade em
que estão. Comércios com grades e pessoas desconfiadas compõem o centro
da cidade outrora pacata, mas ainda cheia de tradição. Há uma semana, o
perigoso líder do tráfico no Jacarezinho, comunidade do Rio de Janeiro,
foi preso na cidade. Nilson Roger da Silva de Freitas faz parte de uma
das maiores facções criminosas do Rio, o Comando Vermelho.
O
município é feito de contrastes. Nas áreas mais pobres, as vias são de
terra batida e cascalho, as casas são simples e falta o básico, como
transporte público e policiamento. Na cidade quase tricentenária, as
ruas guardam mais histórias sobre assaltos e homicídios do que sobre o
passado de sagas ao Planalto Central. Os moradores adotaram até mesmo um
toque de recolher: às 21h ninguém sai de casa.
Assim
como acontece no DF, em Luziânia, quanto mais distante do centro, pior.
Outra semelhança é a dificuldade no acesso à saúde e educação e, entre
os moradores, poucos querem continuar na cidade. O sonho da maioria é
“comprar uma casa em Brasília” ou “voltar para a terra natal”. Alguns
saíram de outros estados em busca de oportunidades, mas não conseguiram
se sustentar economicamente no DF e recorreram ao Entorno. Outros são
conterrâneos e já nasceram procurando uma brecha para partir.
Em
Luziânia, os medos e as angústias conversam entre si. Uma tragédia pode
acontecer a qualquer momento. Em 2014, Ângela Vieira dos Santos, 31
anos, perdeu o marido e, hoje, é responsável por educar os quatro filhos
sozinha. No mesmo ano, Marina (nome fictício), 51, teve o filho
assassinado durante um assalto. O sentimento de revolta tomou conta da
mulher. Após três anos, as duas afirmam que nada mudou. A dor e o medo
continuam com elas na cidade goiana.
Luziânia é a
21ª cidade mais violenta no Brasil. A cidade possui uma taxa de 74,7
mortes a cada 100 mil habitantes. Fica atrás do Novo Gama, considerada a
20ª cidade mais violenta do país, com taxa de 75 assassinatos a cada
100 mil moradores.
No primeiro semestre de
2017, de janeiro a junho, o município registrou 73 assassinatos, 77
tentativas de homicídios, cinco roubos seguidos de morte (latrocínios) e
sete tentativas de latrocínio. No mesmo período, houve 2.258
ocorrências de roubo, 10 roubos com sequestro, 1.909 furtos, 180 lesões
corporais e 74 casos de tráfico de drogas. Luziânia
está entre as cinco cidades de mais atenção das forças de segurança
pública, além de Valparaíso de Goiás, Águas Lindas, Formosa e Novo Gama.
O município possui três presídios: as cadeias públicas de Luziânia
(para homens e para mulheres) e a Casa de Prisão Provisória de Luziânia.
A cidade fala
Por que o município é tão violento e o que pode ser feito para mudar a situação da cidade na sua opinião?
José Nilson da Silva,
45 anos, comerciante
A
violência é um problema no mundo todo. O que está acontecendo aqui,
também acontece no resto do país. Ao meu ver, falta investir em
educação, cultura e segurança pública, além de modificar as leis do
país, que estão desatualizadas e precisam ser mais severas.
Vânia dos Santos Ribeiro,
37 anos, manicure
A
violência está como está pela falta de investimento em segurança
pública. Falta efetivo policial e policiais nas ruas. Isso incentiva os
criminosos a agirem, pois ficarão impunes. Também é preciso investimento
em cultura, pois nossos adolescentes não têm o que fazer na cidade.
Melquezedec Paiva de Brito,
37 anos, barbeiro
A
cidade é violenta, principalmente, por causa do tráfico de drogas e das
disputas que isso gera. Recentemente, a prefeitura mudou e intensificou
o policiamento, mas ainda há muito o que fazer. Precisamos de equipes
da PM nas ruas e mais abordagens.
Sônia Cristina Pereira,
45 anos, auxiliar de produção
A
verdade é que quase não vemos policiais nas ruas. Não há carros da PM
circulando, por exemplo. Eu já fui assaltada quatro vezes. Sempre por
adolescentes interessados na bolsa ou no celular. É preciso investimento
em cultura e segurança pública para mudar a situação.
A ótica das autoridades
Cristóvão Tormin (PSDB), prefeito de Luziânia
“Luziânia
é uma cidade tranquila e pacata que cresceu desordenadamente com a
vinda da capital federal e o inchaço populacional. Por isso, várias
demandas ficaram reprimidas porque faltaram, ao longo das décadas,
investimentos em várias áreas essenciais. A prefeitura tem feito a sua
parte, mas depende dos poderes constituintes, como os governos federal e
estadual. Por parte da prefeitura, nunca houve tanto investimento na
área de segurança e educação em tempo integral. Mas o que aumenta os
índices de violência é que, quando há uma morte nas cidades vizinhas,
como em Cristalina e Padre Bernardo, as estatísticas saem de Luziânia. O
IML de Luziânia corresponde a todas as cidades da região, mesmo não
sendo de competência do município. Estamos conseguindo melhorar os
números oficiais, mas os roubos, por exemplo, são fruto do desemprego.
Essa é a gestão que mais investiu em benefícios”.
Emmanuel
Henrique Balduino de Oliveira, superintendente executivo de Ações e
Operações Integradas da Secretaria de Segurança Pública e Administração
Penitenciária de Goiás (SSPAP-GO)
“Luziânia não é uma
ilha isolada do estado. O município sofre consequências em virtude da
sua proximidade com cidades do Distrito Federal, cujos índices de
violência são maiores que o de Luziânia, por exemplo, Samambaia. Esse
cenário não é só de Samambaia ou Luziânia, mas de todos os municípios
brasileiros. Entre as causas de criminalidade e violência estão a falta
de envolvimento da União em dividir os custos e investimentos na
segurança pública, o modelo do pacto federativo que deixa a
responsabilidade de segurança para os estados, a legislação penal
ultrapassada e ineficiente e, ainda, a falta de uma política
penitenciária que discipline e mantenha o transgressor da lei fora do
convívio em sociedade. O problema não é regional, mas nacional e
sistêmico, violência e criminalidade não se resolvem com polícia
somente.”
Hildo Aniceto, secretário municipal de Segurança Pública
“Alguns
fatores contribuem para a violência na cidade de Luziânia. Uma delas é
que é uma cidade cortada pela BR-040, que dá acesso a várias outras
cidades, como Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo. Com isso,
lamentavelmente a presença do crime organizado tem chegado à nossa
cidade. Já é fato público que na região há atuação do PCC (Primeiro
Comando da Capital), Comando Vermelho, Família do Norte, entre outras.
Por causa do fator geográfico e em razão da presença do crime
organizado, o tráfico de drogas passa por Luziânia. Além disso, é a
porta de entrada e de saída para o Distrito Federal. O crescimento
demográfico é outro grande fator que impacta na segurança. As políticas
públicas nem sempre acompanham o crescimento populacional e, sendo uma
cidade quase tricentenária, a mão do estado ainda não chegou de forma
suficiente para trabalhar o âmbito social e educacional. Lutamos muito
forte contra o crime organizado, além dos casos de assalto à mão armada,
roubo de veículos, homicídios e roubo em residências. Nós não nos
eximimos de nossa responsabilidade.”
Alberto Carlos Clemente da Silva, tenente-coronel e comandante do 10º Batalhão da PM-GO
“A
impunidade é o que reflete a insegurança dos moradores. A falha na
legislação não deixa o indivíduo (que cometeu um crime) preso. A gente
prende a mesma pessoa quatro, até cinco vezes, e ela retorna para o
convívio da sociedade. Muitas das vezes, a lei não ajuda que essa pessoa
pague pelo crime que cometeu. A crise nacional também repercute na
violência por causa dos altos índices de desemprego, além da
reincidência. Deveria haver um maior rigor na legislação para manter
preso os autores e que para eles sejam punidos de acordo com a lei.”
Rodrigo Mendes, delegado regional
A
reportagem tentou falar com o delegado desde quarta-feira. Até o
fechamento desta reportagem, ligou de duas a três vezes por dia para o
celular do policial. Também enviou mensagens de texto e deixou recado na
caixa postal e com policiais, mas ele não retornou a nenhuma das
tentativas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário