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domingo, 2 de janeiro de 2022

Larry Bird, Magic Johnson e 2022 - Revista Oeste

Ana Paula Henkel

Best of Enemies não só mergulha na rivalidade que tornou os jogos entre os dois times espetaculares, mas mostra como a atual sociedade emburreceu

Mais um ano chega ao fim. Como de costume, durante a última semana do ano, meus filhos e marido perguntavam sem parar o que eu gostaria de ganhar de presente de Natal. Pensei, pensei e, finalmente, na sexta-feira dia 24 encontrei o presente perfeito. Depois de ligar para a minha família no Brasil na noite de Natal e desejar uma noite abençoada, desliguei o telefone. Não, não apenas me despedi e desliguei a chamada, desliguei o telefone. Deslizei o dedo pelo botão que aparecia para mim na tela: “TURN OFF”. Puf. Tela escura e desligada. E assim ela permaneceu — em OFF — até o domingo dia 26 à noite. Dois dias inteiros sem WhatsApp, sem redes sociais, sem notícias… Foi o melhor presente que eu poderia ter me dado nos últimos anos.

       Dividida entre Larry Bird e Magic Johnson - Foto: Reprodução/NBA 

Apostas sobre em quanto tempo eu ligaria o telefone foram feitas em casa e, diante da minha tranquilidade em não querer por um segundo ligar o telefone, no sábado à tarde, marido, enteada e filho resolveram fazer o mesmo. E a mágica aconteceu! Durante dois dias inteiros, o tempo pareceu passar mais devagar. Tortas de maçã, biscoitos e bolos foram feitos. Velas e mais velas cheirosas foram acesas, vinhos e bebidas foram degustados — e não apenas ingeridos —, jogos de tabuleiros foram jogados e muitas risadas foram dadas. 
E filmes, muitos filmes foram vistos, desde os clássicos It’s a Wonderful Life e Cantando na Chuva, até clássicos recentes como Gran Torino e Interestelar. E esse foi o melhor presente que os meus filhos e meu marido poderiam ter me dado nos últimos anos.

Dentre as muitas boas horas de filmes e séries a que assistimos juntos, um programa chamou a atenção de todos nós, e acabou alimentando um debate pertinente, saudável e importante em casa. A importância de dar importância ao que é realmente importante. Pode parecer uma frase redundante, mas um documentário sobre a clássica rivalidade entre Boston Celtics e Los Angeles Lakers, times da NBA, acabou trazendo uma boa reflexão a todos. Antes de mais nada, para os amantes do esporte, como eu, “Celtics/Lakers: Best of Enemies” mergulha na rivalidade que tornou os jogos entre os dois times nos anos 1960 e 1980 não apenas espetaculares, mas históricos.

Os rivais Larry Bird e Magic Johnson | Foto: Divulgação/NBA

A saga do “Fla x Flu” do basquete profissional norte-americano mostra como Magic Johnson, Larry Bird, Kareem Abdul-Jabbar, Cedric Maxwell, James Worthy, Kevin McHale e muitas outras lendas mudaram o jogo para sempre. No entanto, as quase cinco horas de pura imersão no universo do esporte profissional não contam apenas a história de uma rivalidade esportiva como outras pelo mundo. Para quem gosta de análises estratégicas detalhadas de jogos clássicos, Best of Enemies  preenche esse requisito com muitas imagens estonteantes e muitas entrevistas internas cheias de detalhes. Mas a série vai além disso.

Em muitos momentos, o documentário também desnuda várias nuances da psicologia humana e de como a atual sociedade, tão polarizada política e intelectualmente, emburreceu e retrocedeu no campo da civilidade e do amadurecimento emocional. Não sei se os mais jovens sentirão certa nostalgia doída de quem viveu nos anos 1980 e 1990, quando o esporte dividia as tribos pelas cores dos uniformes de seus times, e não pela cor da pele ou pelas posições políticas, mas há muito o que ser explorado ouvindo homens de fibra.

Obviamente, a questão racial não é excluída da série. Especificamente, Best of Enemies aborda o assunto, tanto no preconceito intelectualizado de alguns repórteres esportivos — que elogiavam as virtudes do “basquete fundamental” (dos brancos) versus o “estilo playground” (dos negros) —, quanto nas tensas relações raciais dentro de Los Angeles e Boston. O diretor, Jim Podhoretz, também não esconde os problemas do mundo real que obscureciam o jogo, como drogas, mas foca em sua maior atração: o Boston Celtics liderado por Larry Bird e o Los Angeles Lakers liderado por Magic Johnson. Entre 1980 e 1989, o Lakers chegou às finais do Oeste oito vezes e conquistou cinco campeonatos, enquanto o Celtics representou o Leste cinco vezes, vencendo três finais. As duas equipes se enfrentaram apenas três vezes — em 1984, 1985 e 1987 —, mas cada série cativou a nação de maneira marcante até hoje, gerando personalidades e histórias que ajudaram a estabelecer a NBA como um verdadeiro passatempo nacional, pouco antes da chegada de Michael Jordan ao Chicago Bulls, época em que o jogo e a liga foram catapultados para outro nível.

O documentário, além de apresentar um elenco fabuloso de personagens que mudariam a NBA e abririam a mente coletiva da América, revive a década de 1980 com Larry Bird, Magic Johnson e todo o drama dessa época de ouro da NBA. O Celtics de Bird e o Lakers de Magic se enfrentaram por quatro anos até o encontro épico da final em 1984. Sem maiores spoilers, a última parte da série mostra as páginas logo depois das emocionantes finais da NBA de 1984 e, em seguida, explora a saga de 1985 a 1987 e como a rivalidade acabou solidificando, gradualmente, o respeito entre seus personagens. Ao final da última batalha, em 1987, enquanto ainda havia muita animosidade, eles também desenvolveram uma reverência mútua e profunda.

Há momentos preciosos na série, de lições valiosíssimas de humildade, decepção, tristeza, superação. Há frases que, normalmente ditas por palestrantes ou os chamadoscoaches, caem numa certa pieguice das platitudes de autoajuda. Mas quando são ditas — e acompanhadas de imagens espetaculares — por Magic Johnson, por exemplo, a reflexão é inevitável: “Autoavaliação é difícil, mas você tem de ser honesto consigo mesmo. Tive de entender que não era tão bom quanto pensava que fosse”.

O esporte, assim como o mundo, mudou muito com a tecnologia, com o acesso em tempo real a informações que podem mudar o rumo de uma partida ou o destino de um atleta. Programas de computação aplicados a treinamentos e jogos podem fazer toda a diferença. O talento individual e a incansável dedicação não são mais as únicas vias para o sucesso no âmbito do esporte profissional. Muito pode ser ensinado e desenvolvido em tempo recorde nos dias de hoje. No entanto, há talentos incrivelmente pertinentes a esse mesmo âmbito que não podem ser ensinados. Eles normalmente são pontos genéticos ou traços que foram desenvolvidos por meio de experiências importantes ao longo da vida. Estou falando do que esses líderes e rivais tinham em comum: acessibilidade, carisma, determinação com os pés no chão. Mesmo que pudesse haver o debate racial entre negros e brancos, a NBA dos anos 1980 mostrou que isso era secundário, que a espinha dorsal de união e paixão pelo esporte seguia seu caminho com propósito, como lembra Cedric Maxwell, ex-jogador do Celtics no documentário: “Depois de seu terceiro campeonato e terceiro MVP, o respeito por Larry Bird não podia ser negado. Quando vi a foto de Larry em uma barbearia de negros, disse — ele realmente cruzou a linha! Você via Jesus, Malcom-X, mas não uma foto de Larry Bird em uma barbearia de negros!”.

Nos anos 1950, ainda sob as leis raciais em muitos Estados, foi o esporte que abriu portas para a extinção das vis políticas segregacionistas

Em 2021, vimos, mais uma vez, as plataformas sociais — mesmo com todo o apreço que podemos ter pela democratização de opiniões através delas — terem um papel vital na segregação vil e ignorante da atual sociedade. Vimos esses espaços supostamente democráticos usando o esporte, um campo em que diferenças são abandonadas, em especial durante os Jogos Olímpicos, sofrer incansáveis tentativas de sequestros e desvirtuações. Qualquer desavença política ou diferença religiosa sempre foram tratadas como coadjuvantes no campo esportivo. Não importa se na NBA ou nas Olimpíadas, o roteiro fiel ao esporte sempre foi de histórias de superação e respeito, recheadas de enredos dramáticos com derrotas e vitórias espetaculares. A celebração na excelência atlética.

Larry Bird, Michael Jordan e Magic Johnson | Foto: Divulgação/NBA

Mas o que mudou? Infelizmente, já há alguns anos, algo vem atingindo o espírito esportivo. E isso vem sendo demonstrado da maneira mais estúpida possível, por uma sociedade repleta de analfabetos olímpicos e personalidades hedonistas. Depois de alguns anos e uma pandemia global que trouxeram não apenas a banalização da história e suas palavras, até quando vamos seguir com a politização de tudo? O esporte já dava sinais de que não ia escapar à “idiotização” política, com frases do Black Lives Matter sendo repetidas por atletas importantes, ou a visão distorcida e triste de jogadores em campeonatos como a NBA se ajoelhando — literalmente.

Nos anos 1950, ainda sob as leis raciais em muitos Estados norte-americanos, foi o esporte — mais uma vez — que abriu portas para a extinção das vis políticas segregacionistas. E a NBA foi parte fundamental nisso. Em uma sociedade em que movimentos como o Black Lives Matter usam o terrorismo e a violência contra negros e brancos para propagar suas ideias e demandas, em que políticos plantam a segregação racial ou em que ligas esportivas e atletas são sequestrados por grupos ideológicos, é gratificante assistir a um documentário como Celtics/Lakers: Best of Enemies. Ver a magnitude de uma obra que aborda a divisão racial de maneira madura, mas que também traz o melhor de todos nós, independentemente da cor da nossa pele ou de como votamos, não deixa de ser um sopro de esperança para 2022. Divisões sempre existirão, mas a vontade de fazer o correto pode sempre ser exaltada.

Em um ano em que o politicamente correto avançou de maneira violenta, linchando médicos, jornalistas e atletas que ousaram pensar fora das linhas da turba;  
em que o politicamente correto sufocou atletas femininas para proteger a injustiça de apoiar homens biológicos competindo com mulheres
em que o politicamente correto tentou nos obrigar a aplaudir a fraqueza de atletas egoístas que abandonaram suas equipes na última hora porque não conseguiram se manter sob os holofotes e não souberam olhar de frente para as adversidades, despeço-me de 2021 neste último artigo do ano com uma das frases finais de Magic Johnson no documentário: “Eu odiava o Celtics. Mas amei jogar, porque pude jogar contra Larry Bird e o Celtics. Nunca teria sido o jogador mais valioso (MVP), nunca teria sido o jogador que fui se não fosse por Larry Bird e o Celtics. Eles me fizeram alcançar a grandeza, a excelência. Nos anos finais dessa rivalidade entre Celtics e Lakers havia tantos afro-americanos que ovacionavam Larry Bird. Eles sabiam quão grande ele era. Não era sobre cor, sobre raça, era puro respeito por um cara corajoso”.

Que a boa e saudável divisão em 2022 volte, aquela em que a única raiva que tínhamos um do outro era por perder para rivais históricos no esporte. Enquanto isso não chega, que tal, como presente de ano novo, dois dias sem telefone? Recarregar sem estar plugado pode ser uma maneira antiga — porém eficiente — de dar valor ao que realmente importa. Obrigada pela companhia em 2021 e desejo um próspero 2022, com menos redes sociais e mais clássicos na TV. Happy New Year!

Leia também “A guilhotina do bem”

Ana Paula Henkel, colunista - Revista Oeste

 

 

sábado, 21 de agosto de 2021

O EXTRAORDINÁRIO PODER DOS OMISSOS - Percival Puggina

A frase de Shannon Adler vale por uma sirene de alerta. Diz ele: “Frequentemente, aquilo que as pessoas não dizem, ou deixam de lado, conta a verdadeira história”.

E eu acrescento: Quantos de nossos males seriam evitados se não comprássemos por dois vinténs de sossego os dissabores de amanhã!

A omissão dos conservadores e liberais favoreceu, nas últimas décadas, a condução do Brasil por maus caminhos, em más companhias. Se é verdade que fizemos nossa autodescoberta em 2018, não é menos verdade que quando acordamos da euforia inerente àquela vitória, a soberania popular jazia entre quatro velas no artigo primeiro da nossa Constituição. Voltamos a ser a galinha dos ovos de ouro no poleiro daqueles que decidem nosso destino e regem nossas liberdades. O mudo consentimento dos omissos permite a migração do poder real da República para mãos impróprias.

Atente, pois. Se alguém lhe jogar por cima etiquetas ofensivas e frases feitas; se disser que “um outro mundo é possível”, que o problema de Cuba é o “terrível bloqueio ianque”, que a ideologia de gênero é uma imposição da vida moderna e uma necessidade das crianças, que as drogas devem ser liberadas, que “interrupção da gravidez” é direito da mulher, que os cristãos devem ficar de boca fechada para que só eles falem porque o Estado é laico, que a pobreza é causada pela riqueza, que a polarização faz mal à política, saiba: aí está alguém animado por mentalidade revolucionária. 

Alguém que fará qualquer coisa pelo poder e que, no poder, agirá por dentro e por fora da ordem para destruí-la, pondo em curso o projeto revolucionário. Saiba mais: essa pessoa não quer melhorar o mundo, como eu e você queremos. Ela quer destruir a civilização e os valores que buscamos preservar. O Brasil, para elas, é apenas um dos espaços geográficos dessa disputa. Por isso, rejeitam o patriotismo, a bandeira e o Sete de Setembro.

Nossos valores, nossos apreço à liberdade, nossa rejeição à tirania e aos totalitarismos os contraria.  
Nós, de fato, preferimos a ordem à desordem e à anarquia. Respeitamos a justiça e o devido processo, o Estado de Direito e a Democracia. Rejeitamos revoluções e abusos de autoridade. Sabemos que a prisão dos criminosos liberta os cidadãos
Não investimos contra os bens alheios e exigimos que a propriedade privada seja respeitada. 
Consideramos que o Estado existe para a pessoa humana e não a pessoa humana para o Estado. Sabemos que a instituição familiar é importante, deve ser preservada e constituir objeto de atenção. Queremos um Estado eficiente nas tarefas que lhe correspondem, não intrometido na vida privada. 
Entre nós, mesmo os ateus reconhecem o valor da moral judaico-cristã, apreciam os fundamentos da civilização Ocidental e estão longe de considerar o Cristianismo como um mal que deva ser extirpado dos corações e das mentes.
As forças que exercem de modo efetivo o poder nacional, em proporção a cada dia mais evidente, rejeitam esse inteiro pacote, sem acordo possível. Querem a posse integral dos meios para dirigi-los a fins opostos. Abandonam os cidadãos à sanha dos bandidos porque lhes convêm o aumento da criminalidade e a insegurança. 
Põem em curso as agendas identitárias, não porque se interessem pelas pessoas concretas, mas porque toda trincheira e toda fratura aberta na sociedade serve ao projeto.  
Defendem a liberação das drogas, não porque considerem isso melhor do que a proibição, mas porque a drogadição abala os valores das comunidades. 
Hasteiam a bandeira dos Direitos Humanos de cabeça para baixo porque as únicas agressões a direitos humanos que os mobilizam são as que, de algum modo, atingem militantes do seu projeto.

Não tenho a menor condição de compor um cenário nacional para os próximos sessenta dias. Só sei que ele, muito provavelmente, será como os omissos permitirem que seja, antes de porem a culpa em alguém.

Percival Puggina (76), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.

 

sexta-feira, 6 de março de 2020

A economia da epidemia - Revista Época

 Monica de Bolle

A esta altura da epidemia que se alastra rapidamente pelo planeta é razoável dizer que não sabemos absolutamente nada. Nessas situações, a reação é a mais extrema possível

Já compraram montanhas de desinfetantes para as mãos, máscaras, papel higiênico? 
E quanto a pilhas, antitérmicos, termômetros e vitamina C? Velas e lanternas? Já não há álcool ou sabonete líquido nas farmácias? 
 Vai faltar comida?

O comportamento que tem levado ao desaparecimento de medicamentos das farmácias, ao sumiço de produtos de higiene pessoal e de alimentos não perecíveis das prateleiras dos supermercados é o mesmo que leva às corridas bancárias. Explico: a crise bancária típica ocorre quando as pessoas, temendo que os bancos não serão capazes de devolver seus depósitos, correm para sacá-los o mais rapidamente possível.

Como os bancos não mantêm 100% dos depósitos em caixa, se todos os depositantes correrem ao mesmo tempo, alguns de fato não receberão o dinheiro de volta, justificando o pânico inicial. Nenhuma farmácia ou supermercado estoca toda a quantidade de suprimentos que a população pode vir a demandar em casos excepcionais. Logo, quando há uma epidemia, ou o risco de que ela aconteça, as pessoas farão exatamente a mesma coisa que fazem quando imaginam que não terão acesso a seus depósitos: correm para as farmácias e para os supermercados, esgotando produtos. Os afortunados garantirão seus suprimentos, enquanto os demais ficarão a ver navios. Esse é apenas um dos aspectos da economia da epidemia.

Outro aspecto é o comportamento das pessoas diante de situações de incerteza. Incerteza não é risco — incerteza é tudo aquilo que pode ser descrito como um imponderável desconhecido, enquanto risco envolve algum conhecimento sobre a probabilidade de diferentes cenários. A esta altura da epidemia que se alastra rapidamente pelo planeta é razoável dizer que não sabemos absolutamente nada — inclusive não sabemos aquilo que não sabemos.

Nessas situações, a reação é a mais extrema possível: cancelam-se de viagens a eventos de massa, exaltam-se a quarentena e as medidas que cerceiam brutalmente as liberdades individuais. Mas, vejam: não entrem em pânico! Trata-se de precaução, nada mais. E lavem as mãos com sabão, usem desinfetantes, não se esqueçam de estocar medicamentos, produtos de higiene e limpeza, alimentos não perecíveis.

A Organização Mundial da Saúde divulgou a nova taxa de mortalidade global desse coronavírus, ou SARS-CoV-2, para os íntimos. É de 3,4%, dizem. Mas, por favor, não entrem em pânico, ainda que a taxa seja uma média ponderada de países atingidos de modo diferente, com sistemas de saúde distintos, com as mais variadas capacidades de resposta das autoridades responsáveis.

Ou seja, a taxa de mortalidade gravíssima é nada mais do que uma média sem sentido, sobretudo quando se considera a enorme variância entre países, para não falar da variância dentro da própria China, epicentro da epidemia. Na Coreia, o país com maior número de casos depois da China e que está testando gente por meio de drive-through, a taxa é de 0,7%; aqui nos Estados Unidos, o país mais rico do planeta, a taxa de mortalidade é de 7%. Falta explicar que os 7% são todos os casos de morte registrados em um estado apenas (até agora), onde um lar de idosos foi duramente atingido. A divulgação de números sem as qualificações necessárias acelera o pânico e o desabastecimento generalizado que as mesmas autoridades querem evitar.

Em meio a isso, está a economia — a global, a brasileira. A paralisia que resulta da incerteza haverá de retirar um bom pedaço do que se esperava para o crescimento mundial em 2020, ainda que o mundo mais do que descoordenado de hoje, ao contrário de como estava na crise de 2008, consiga fazer medidas de estímulo mais ou menos simultâneas. 

O Brasil, pobre Brasil, continua entregue à historinha de que se as reformas andarem a coisa vai, mesmo que isso não tenha acontecido nos últimos três anos. O corre-corre de nossas galinhas sem cabeça entregou crescimento de 1,1% em 2019, ano da reforma da Previdência. No ano do coronavírus não é difícil imaginar que o país pare de crescer ou mesmo sofra uma leve recessão no melhor dos casos, quiçá cheguemos a nossa marca registrada, o PIB de 1%.  A economia da epidemia, afinal, é isso aí. Uma grande balbúrdia em meio à falência cognitiva generalizada. Para os que aterrissaram do Carnaval, feliz 2020.

Monica de Bolle, colunista Época 


domingo, 19 de agosto de 2018

A misteriosa morte de duas crianças decapitadas e a imaginação satânica de um delegado gaúcho

A polícia ainda não sabe quem são, como, quando, por que foram mortos e por que seus corpos tiveram tratamento tão bárbaro 

A imagem de Belzebu no Templo de Lúcifer, que foi investigado pela polícia. As evidências colhidas lá desmentiam a versão do delegado Fermino - Arthur Kolbetz / Agência O Globo

Na manhã de 4 de setembro de 2017, o delegado Rogério Baggio Berbicz mal havia tomado posse como titular da Delegacia de Homicídios de Novo Hamburgo, cidade gaúcha de cerca de 250 mil habitantes no Vale dos Sinos, quando surgiu o primeiro caso. As informações preliminares indicavam um crime sinistro, repulsivo. Em busca de material reciclável, um homem vasculhava detritos rotineiramente despejados num matagal quando deparou com pedaços de carne. Assustou-se ao perceber que se tratava de partes humanas e chamou a polícia. Os peritos constataram que troncos, pernas, braços, pés e mãos haviam sido cortados com precisão nas juntas, como se uma serra de frigorífico tivesse sido usada. Estavam em um saco plástico azul e em duas caixas de uma marca de material de limpeza do Nordeste, não comercializada na Região Sul. Catorze dias depois, mais pedaços dos corpos foram localizados no lado oposto da mesma via. As cabeças nunca foram achadas.

As vítimas são uma menina de 12 anos e um menino de 8, conforme concluiu o Instituto de Criminalística. A garota já exibia os primeiros sinais de puberdade no corpo e de vaidade nas unhas pintadas de rosa; o garoto usava uma camiseta vermelha e possuía alto teor de álcool no sangue. Ambos tinham a pele branca com o bronzeado de quem passava horas brincando ao sol. Os cadáveres não cheiravam mal, o que levou a polícia a inferir que as mortes teriam ocorrido no máximo 48 horas antes. O exame de DNA apontou que as crianças são parentes por parte materna. Supõe-se que sejam irmãos, filhos da mesma mãe, mas de pais diferentes — é tudo que se sabe sobre eles. Ninguém reclamou sua morte.
 Escultura abandonada no Templo de Lúcifer. Nas buscas, o delegado Fermino mandou agentes seguir galinhas em busca de pistas - Arthur Kolbetz / Agência O Globo

O delegado Berbicz determinou que a solução do mistério do duplo homicídio fosse prioridade. “Foi uma coincidência esses corpos serem encontrados no mesmo dia em que comecei na delegacia”, disse o delegado de 39 anos de idade, dez de carreira. “Parecia que era um caso que só eu tinha de resolver.” As impressões digitais das crianças foram checadas em bancos de dados de todos os estados, cadastros de desaparecidos no Brasil passaram a ser monitorados regularmente e famílias de estudantes que estavam faltando às aulas na região foram visitadas pelos investigadores da Delegacia de Homicídios de Novo Hamburgo. Tudo em vão.

Na manhã de 8 de janeiro de 2018, a três dias de voltar ao trabalho, depois de quase um mês de férias no Paraná, Berbicz foi avisado por colegas que o mistério fora resolvido. Os detalhes do crime envolveriam um ritual de magia negra, um bruxo de fama internacional e empresários do ramo imobiliário. Àquela altura, quatro pessoas já estavam presas e tudo seria explicado em uma coletiva de imprensa pelo delegado Moacir Fermino Bernardo, de 67 anos, que o substituíra durante as férias. Como mero espectador, Berbicz acompanhou a coletiva de imprensa transmitida ao vivo pela página no Facebook de um jornal local para entender a trama que não havia sido capaz de solucionar.


Ao lado de dois superiores da Polícia Civil estava o delegado Fermino. Antes de começar a falar, foi elogiado pelos chefes. Com 40 anos de polícia, não escondia o contentamento. Era o grande caso que esperava para se aposentar e projetar-se nas carreiras política e religiosa que pretendia seguir, segundo pessoas próximas. Fermino já se candidatara duas vezes a vereador, em 2004 e 2008, em São Leopoldo – sem sucesso. Desta vez, pensava em concorrer a uma vaga de deputado estadual ou federal. Nascido católico, ele se tornara evangélico três anos antes. Apresentava-se como um “servo de Deus” e alimentava o sonho de ser pastor.

Fermino começou a falar com voz alta e grave e gestos expansivos, como numa pregação. “Primeiro, quero agradecer a Deus Todo-Poderoso pela revelação que deu a dois profetas e a um servo seu menor, Moacir Fermino Bernardo”, disse, referindo-se a si mesmo na terceira pessoa. Era só o começo. Fermino surpreendeu a todos ao afirmar que a solução do caso fora uma “revelação divina”. Segundo ele, um empresário do ramo imobiliário em dificuldades financeiras teria pagado R$ 25 mil para um bruxo, dono de um templo de culto a Lúcifer em Gravataí – cidade próxima –, para fazer uma magia em troca de prosperidade. Para dar certo, relatou Fermino, elevando a voz para dramatizar o caso, era preciso que o trabalho dedicado a Moloque deus cultuado pelos amonitas, um povo citado no Antigo Testamento, e considerado um demônio pelo cristianismo ¦ tivesse a participação de sete pessoas.


Além disso, explicou o delegado, o empresário renunciou a Deus pingando sete gotas de sangue em uma Bíblia perante o altar de uma igreja. Para obter a prosperidade nos negócios, duas crianças deveriam ser sacrificadas. Por fim, as partes dos corpos das vítimas teriam sido descartadas próximo à propriedade do empresário, de modo a fechar quatro pontos, conforme o rito satânico. As cabeças deveriam permanecer enterradas para concretizar o pacto diabólico. O tal empresário era Jair da Silva. Também teriam participado do crime dois filhos de Silva, além de seu sócio Paulo Ademir Norbert e dois vizinhos, um deles um argentino que teria roubado um caminhão em Novo Hamburgo e o trocado pelas duas crianças na província de Corrientes, na Argentina. Fermino referia-se aos suspeitos como os “sete discípulos de Satanás”.

O Ministério Público deu parecer desfavorável aos pedidos de prisão feitos pelo delegado, diante da fragilidade das evidências materiais apresentadas. Mesmo assim, a Justiça considerou que havia “provas contundentes” e acatou em 21 de dezembro de 2017 o pedido de prisão temporária dos sete envolvidos. A prisão temporária foi convertida em preventiva, graças ao aparecimento de uma testemunha-chave, que afirmou ter visto os sete acusados com duas crianças em um ritual com velas e capas pretas perto de onde foram encontrados os corpos. Dizia ela que a menina estaria caída no chão, enquanto o garoto exibia sinais de embriaguez.

A testemunha contou que foi à noite ao local, onde trabalhava fazendo uma escavação, buscar um casaco e a carteira, que havia esquecido durante o dia. Essa não teria sido a única pessoa a presenciar partes do ritual. “O depoimento de várias testemunhas (comprovam o ritual). Algumas viram e outras se calaram porque têm medo de morrer”, garantiu o delegado Fermino. Ele sugeriu que todos fossem incluídos no Programa Estadual de Proteção à Testemunha.

O delegado Fermino levantou o braço acima da cabeça ao dar voz de prisão a Silvio Fernandes Rodrigues, de 44 anos, e vociferou: “Eu sou Deus e vim prender o Satanás!”. Mestre de alta magia há mais de 20 anos, Rodrigues que recusa o título de bruxo –foi surpreendido com a chegada de duas viaturas da polícia ao Templo de Lúcifer, uma área de 7 hectares em Gravataí. A propriedade na área rural exibe um pentagrama no portão. O símbolo, usado em práticas pagãs, esotéricas e satanistas, costuma atiçar a curiosidade e o medo de quem passa pela estrada.

(...)

Fermino foi afastado de suas funções e está sendo processado. Um policial também está respondendo judicialmente por ter assinado o relatório de serviço. O falso profeta Paulo Sérgio Lehmen é o único que foi preso. Permaneceu na cadeia por quase cinco meses até conseguir um habeas corpus no final de junho. O outro informante foi liberado. A Justiça revogou as prisões de todos os sete acusados iniciais.

Os envolvidos ainda contabilizam os danos em sua vida, reflexo dos dias em que seus rostos não saíram de evidência. “Eu não confio mais na Justiça”, disse Jair da Silva, que afirmou ter dificuldade para seguir fazendo seus negócios e até mesmo para vender melancia na beira da estrada. O mestre de magia Silvio Rodrigues fechou seu templo e já não tem clientes como antigamente. Atualmente, faz seus rituais em uma garagem de 18 metros quadrados. A imagem de Belzebu, feita em gesso, está com o chifre esquerdo quebrado. “Eles atacaram minha espiritualidade. Vou usar o lado negativo para eles sentirem na pele tudo o que passei. Vou guerrear com todas as minhas armas e trancar os caminhos deles”, disse.