Prisão de Lula é marco da dissolução de toda sua geração política
Termina em liquefação um longo ciclo político, e com o personagem central vivo.
O
prelúdio foi no 7 de abril de 1978. Naquela sexta-feira, Claudio
Hummes, bispo de Santo André (SP), peregrinou por sua diocese coletando
doações — comida e dinheiro — para os operários metalúrgicos do cinturão
industrial do ABC paulista. Completavam a
primeira semana de uma greve inédita, em desafio ao confisco salarial
sustentado pelo regime militar. Na liderança emergia um ex-torneiro
mecânico que migrara para a burocracia sindical, Luiz Inácio da Silva. [durante o dia, especialmente período matutino, insuflava os metalúrgicos pela manutenção da greve, pelo tudo ou nada e mesmo pelo confronto com os militares;
ao final do dia, entrava em contato com o diretor-geral do DOPS paulista, delegado Romeu Tuma, e entregava os companheiros;
mais ao final da noite, se encontrava com os patrões na FIESP, entregava mais uma vez os companheiros enquanto enchia a pança com excelente comida e uísque importado;
NOME DA HIENA: Luiz Inácio Lula da Silva, conhecido na cúpula do DOPS como 'boi'';
ironicamente, logo que for transferido para o endereço citado no título usará como vaso sanitário um buraco no chão, chamado de 'boi'.]
Na
sexta-feira à noite, quatro décadas depois, Lula insistia em reescrever
o epílogo policialesco da sua biografia política. Refugiou-se no berço
sindical que o embalou à Presidência da República, dramatizando a
resistência à mudança de endereço imposta pela Justiça — do quarteirão
edificado do Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo, para uma cela
de 15 metros quadrados na Superintendência da Polícia Federal, em
Curitiba.
No decreto de prisão de Lula tem-se o
marco da dissolução não apenas do projeto que ele encarnou, mas de toda a
geração política que o acompanhou, no mesmo palanque ou na oposição. Sinaliza
uma inflexão à impunidade, com reflexos diretos no modo de fazer
política, nas relações das empresas com o governo e o Congresso, e
também do Judiciário com a sociedade. O centro da resistência às
mudanças continua instalado na Praça dos Três Poderes, em Brasília. Ex-presidente
e sem foro especial, Lula viu o desfecho do caso em velocidade recorde,
se comparado aos processos de políticos privilegiados com o remanso do
foro no Supremo.
Ainda não houve julgamento de
nenhum dos 78 senadores, deputados ou ministros denunciados no STF desde
março de 2015 por envolvimento nas roubalheiras reveladas pela
Lava-Jato. Porém, há seis meses os juízes desse tribunal discutem em
público e no plenário formas de lustrar seu poder sobre o desfecho
desses processos — desde a validação das delações premiadas até o
significado conceitual de "trânsito em julgado" e a instância de sua
resolução.
O drama construído na prisão de Lula
contém outro aspecto relevante: a fragilidade das forças autodenominadas
de esquerda, que se mantêm reféns do velho líder e não conseguem
vislumbrar o futuro além do horizonte da Rua Professora Sandália Monzon,
Bairro Santa Cândida, Curitiba — endereço da cela reservada para Lula.
José Casado, jornalista - O Globo
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