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sexta-feira, 29 de março de 2019

Trump e as Colinas de Golan

Trump contrariou décadas de políticas não só de seus antecessores, como também de seus aliados na ONU e na Otan

Ao reconhecer, em 21 de março, a soberania de Israel sobre as Colinas de Golan, tomadas à Síria na Guerra dos Seis Dias, em 1967, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, exercitou mais uma vez seu voluntarismo, mais nocivo precisamente onde suas prerrogativas de chefe de Estado o liberam de alguns freios legislativos e judiciários: as relações internacionais. Localizado entre Israel, Síria e Jordânia, o planalto rochoso de Golan sempre foi palco de disputas por seus recursos hídricos. Era sobretudo uma fortaleza para a Síria. A 60 km da capital síria, Damasco, tornou-se, a partir de sua ocupação, um escudo nas mãos de Israel, que dali expulsou cerca de 150 mil sírios e estabeleceu assentamentos e postos militares. A comunidade internacional, a começar pelos Estados Unidos, sempre negou a legitimidade da ocupação, conseguindo que Israel ao menos considerasse a retirada em troca de concessões sírias.

Assim, Trump contrariou décadas de políticas não só de seus antecessores, como também de seus aliados na ONU e na Otan, além do procedimento consensual em casos de ocupações territoriais: o não reconhecimento acompanhado da negociação diplomática. Desde a 2.ª Guerra Mundial, os próprios Estados Unidos não reconheceram nenhum outro território ocupado. Agora abriram um precedente para que outras potências pisoteiem o direito internacional em ocupações forçadas – como a Rússia na Crimeia ou a China no Mar do Sul da China.

O anúncio – via Twitter, naturalmente – muda pouco a situação no campo. Mas, antes de tudo, aquele que se vangloria de ser um master negotiator” fez um péssimo acordo para seu país, entregando de graça uma alavanca diplomática importante só para prestigiar seu aliado, o premiê israelense, Benyamin Netanyahu, envolto em escândalos em plena corrida eleitoral. Mas é questionável que Israel mesmo saia ganhando.

Segundo Fred Hof, ex-funcionário do Departamento de Estado responsável pelas negociações com a Síria, o anúncio será “bem acolhido pelos inimigos mais amargos de Israel – o Irã e o Hezbollah –, que verão a anexação como uma justificativa adicional para operações terroristas”. O ditador sírio, Bashar al-Assad, por sua vez, tem a oportunidade de posar de vítima, desviando a atenção dos seus crimes de guerra. A reação dos países árabes só não foi pior porque nos últimos anos têm se aproximado de Israel como um aliado contra o Irã. Mas a promessa eleitoral de Trump de conduzir um acordo entre israelenses e palestinos se torna ainda mais irrealista, uma vez que estes últimos, já humilhados pelos cortes de recursos e pela mudança da embaixada norte-americana para Jerusalém, promovidos por Trump, têm mais motivos para temer que o mesmo reconhecimento possa acontecer na Cisjordânia, também ocupada na Guerra dos Seis Dias.

É mais um episódio em que a personalidade instável de Trump desestabiliza as relações internacionais de seu país e do mundo – como a guerra comercial com a China, as ameaças de intervenção militar na Venezuela ou a retirada de acordos internacionais como o tratado nuclear com o Irã ou o acordo climático de Paris. Trump parece transpor a sua cultura empresarial para as relações exteriores, como se estas fossem só negociações competitivas, e as conduz como fazia em seus reality shows, promovendo a imprevisibilidade e a rotatividade dos protagonistas para se manter como estrela do espetáculo.

Com isso, acentua a velha ambivalência dos Estados Unidos em relação à multilateralidade diplomática. Como apontou a revista The Economist, “a vontade singular dos Estados Unidos de liderar fundindo poder e legitimidade serrou a União Soviética e os conduziu à hegemonia”, e a ordem mundial que os norte-americanos engendraram “é o veículo para esta filosofia”, mas “o sr. Trump prefere recair na velha ideia da lei do mais forte”. Com tamanha truculência, é cada vez mais difícil para a comunidade global acreditar num líder do mundo livre que não acredita no mundo livre.

Editorial - O Estado de S. Paulo


domingo, 13 de novembro de 2016

Reflexões amargas


Cabe ao PSDB responder à vitória reafirmando o social de seu nome, opondo-se, portanto, às ondas reacionárias entre nós


Há poucos dias, em Lisboa, assustei-me vendo o noticiário da TV. Surgiu na tela um porta-aviões russo deslizando nas costas europeias, cercado por navios patrulheiros. Que mal haveria, pensei depois, em mostrar o garbo de um navio russo? Nada e tudo. Fossem normais os dias e seria tão banal quanto ver o desfilar de um porta-aviões da armada americana cercado por poderosos navios protetores. Por que, então, o susto? Porque as coisas estão mudando, há cada vez mais riscos e medos no ar.

Passadas décadas do estabelecimento de relações diplomáticas entre a China comunista e os Estados Unidos (pasmem! sob Nixon e Kissinger), em meados dos anos 70, e do fim da União Soviética, no início dos anos 90, nos damos conta do que esses fatos significaram: a Pax Americana. Terá ela chegado ao fim? Pode ser. Os russos, com sua ingerência na Síria, tentam forçar o Ocidente a dar-se conta de que, por mais que seu poderio bélico haja diminuído, ainda são uma potência atômica. Os novos tzares se dão ao luxo de ocupar a Crimeia e de ameaçar a Ucrânia sem que a Otan, ou quem seja, limite suas aspirações restauradoras do que historicamente pertenceu à Rússia.

Também a China depois de décadas de relações estáveis com os Estados Unidos se ouriça com o Tratado Transpacífico (TTP), e mostra disposição de definir como “suas” ilhas remotas situadas no Mar do Japão e de reivindicar soberania sobre águas presumivelmente internacionais no Mar do Sul da China. Ao mesmo tempo, desenvolve projetos de integração viária e econômica com a Europa, quem sabe sentindo-se mais segura na Eurásia do que no Pacífico. E começa a ser mais amiga da Rússia, de quem sempre foi rival.

A Europa fragmentada, mais ainda depois do Brexit, não é capaz de responder aos desafios da imigração crescente dos desesperados da terra, nem de outorgar nova legitimidade ao pacto social de pós-guerra que a manteve una e próspera. Como responder aos novos tempos de desemprego e baixo crescimento, e evitar a onda direitista e reacionária?

Não escrevo isso por diletantismo geopolítico. Em Paris, de onde envio este artigo, segui as notícias das eleições brasileiras. As urnas confirmaram o que se previa: a derrocada do PT, os êxitos do PSDB e a emergência da antipolítica, que se expressou nas abstenções, nas anulações de voto e na vitória de candidatos de não partidos. Ganhamos, diria como eleitor do PSDB, mas para o que fazer?

Qual é a proposta, não só do PSDB, mas dos dirigentes políticos em geral, para o Brasil como nação, mais do que como simples economia, e como país que é parte de um mundo desafiador, no qual coexistem os avanços da globalização e as dificuldades dos Estados nacionais para lidar com as demandas dos perdedores dela e das organizações internacionais para evitar a escalada de conflitos geopolíticos?

Nesse contexto, tenho a sensação de que os que temos responsabilidades públicas ainda não sentimos com força a urgência do que é preciso fazer para reconstruir o tecido social de um país com 12 milhões de desempregados, em situação fiscal falimentar e com suas formas tradicionais de coesão política desarticuladas. O estrago que o lulopetismo e o milenarismo esquerdista fizeram foi sentido pelo povo, como as urnas mostraram. Mas nós, líderes políticos, temo ainda não termos percebido que acima de nossas bandeiras partidárias temos que reconstruir a economia, refazer as bases da convivência política, tragadas moralmente pela permissividade e pela corrupção, e engatar novamente o Brasil no mundo em que vivemos.

Talvez não tenhamos nos dado conta de que as classes sociais hierarquizadas em cujas diferenças amarrávamos nossas ideologias e nossos partidos, sem se dissolverem, estão fragmentadas em múltiplos interesses, valores e lealdades num caleidoscópio de fios que se tecem e se desfazem graças às novas formas de comunicação (cada vez mais instantânea) que quebram as referências políticas tradicionais.

Teremos discernimento para vislumbrar onde ancorar o interesse nacional num mundo de predominância financeiro-tecnológica, bélico e com riscos de incêndio? Saberemos refazer alguma solidariedade, pelo menos sul-americana, e, a partir dela, nos posicionarmos sem a afetação de que somos uma potência, e ao mesmo tempo sem sermos subservientes às nações poderosas nem prisioneiros de um “terceiro mundo” que não funciona mais como periferia colonial do capitalismo competitivo, como foi no passado?

Não estaremos à altura dos desafios se não afirmarmos que precisamos de uma trégua nacional, não para conciliar elites, mas para pactuar o futuro e pensar sobre ele. Será preciso coragem para o STF deixar a Lava-Jato cumprir seu papel de restaurador da moral pública, mas também manter vivo o respeito aos direitos individuais. E o governo federal, que bem fez em buscar a harmonia dos Poderes a despeito da figura dos titulares, precisa encaminhar soluções jurídicas que mantenham as empresas ativas, salvaguardando os empregos e nossa capacidade produtiva, sem prejuízo da punição dos dirigentes que a Justiça julgar cabível aos responsáveis por crimes. Caso contrário, não faltam capitais globais dispostos a adquirir na bacia das almas o que caro custou construir.

Tais desafios requerem vozes. No vazio político das sociedades contemporâneas, paradoxalmente, precisamos que os líderes se comprometam, explicitem suas posições, tomem partido sem tanta preocupação com seus “partidos” e que ao propor soluções se recordem de que a voz não ouvida, a dos que se sentem deslocados pelo “progresso”, se não encontrar um lugar digno na sociedade do futuro se tornará inimiga dela. 
Cabe ao PSDB responder à vitória reafirmando o social de seu nome e acompanhando as transformações dos valores e da cultura, opondo-se, portanto, às ondas reacionárias não só na Europa, mas também entre nós.
Fonte: Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente - O Globo

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Governo chinês precisa acatar decisão de Haia

Pequim erra ao não reconhecer decisão do tribunal internacional sobre impasse no Mar do Sul da China, sinalizando a escalada de conflitos na região 

Numa decisão anunciada na terça-feira, a Corte Permanente de Arbitragem, em Haia, considerou ilegal o pleito de soberania do governo chinês sobre o Mar do Sul da China. A decisão é importante, uma vez que a expansão chinesa na região vem gerando conflitos com países vizinhos e potências como os EUA, que questionam a reivindicação territorial de Pequim. 

A iniciativa é vista por especialistas como parte da estratégia do presidente Xi Jinping de tornar a China uma potência mundial. Isto inclui a construção de ilhas artificiais na região para instalar bases militares.  O processo em Haia foi impetrado pelo governo das Filipinas diante da presença ostensiva da Marinha chinesa. Segundo a sentença, Pequim violou a soberania filipina, além de pôr em perigo barcos de pesca e plataformas de prospecção petrolífera do país. 

O tribunal também estabeleceu que a China infringiu leis internacionais ao “causar graves prejuízos ao meio ambiente de recifes de coral” e por não conseguir evitar a devastação por pescadores chineses de espécies em extinção, como tartarugas marinhas, “em grande escala". Esta é a primeira vez que um sistema judicial internacional questiona a China, e a sentença, além de criar jurisprudência, pode estimular outros países da região a levarem suas disputas com Pequim à Haia. Afinal, o Mar do Sul da China também é disputado por Malásia, Vietnã, Brunei, Indonésia e Taiwan. 

Embora a decisão seja importante, a Corte de Arbitragem de Haia não tem como impor o cumprimento da sentença à China, e o governo de Pequim, que se recusou a participar do julgamento, já avisou que vai ignorá-la. A chancelaria divulgou nota afirmando que a “China não aceita ou reconhece” a decisão.


O embaixador chinês em Washington, Cui Tiankai, reagiu afirmando que, com a decisão de Haia, as demandas chinesas sobre a região vão “intensificar os conflitos e até mesmo confrontações”. Além da localização estratégica, o Mar do Sul da China faz parte de uma das principais rotas comerciais de navegação e de pesca, além de potencialmente conter volumosas jazidas de petróleo e gás. 

Analistas dizem que os governos da região temem que a sentença estimule a China a acelerar a ocupação da área sob disputa, conforme alertou o Departamento de Estado americano. Se for este o caso, a previsão do embaixador chinês em Washington se cumprirá. Mas isto seria um grave e perigoso erro. Não se questiona o papel que a China, como potência, exerce atualmente na ordem mundial. Por isso mesmo, espera-se que o presidente Xi atue de acordo com a estatura do país, busque o diálogo e respeite a legislação internacional. Justamente por sua importância e peso, a China não pode agir de forma irresponsável, como se fosse uma Coreia do Norte gigantesca.

Fonte:  O Globo
 


sábado, 11 de junho de 2016

Empresas zumbis assombram governo chinês

Modelo adotado para enfrentar a crise financeira de 2008 dá sinais de esgotamento, com riscos de desemprego, bolhas e contágio da economia global

A economia chinesa — e mundial — vive hoje assombrada pela ameaça das firmas zumbis, como são adequadamente chamadas as empresas estatais falidas, que só sobrevivem graças a subsídios do governo. Após o estouro da crise financeira global, em 2008, a China se viu obrigada a rever sua estratégia, passando a injetar internamente bilhões de dólares na economia, além de estimular os bancos a financiarem todo tipo de negócio e consumo. E a maior preocupação do governo tem sido manter o alto patamar de crescimento, necessário para absorver a imensa mão de obra do país. 

Construíram-se cidades, shoppings, estradas, entre outros projetos imobiliários e de infraestrutura vários entre eles ociosos —, estimulando setores industriais. O país manteve o ritmo acelerado, porém bem acima da capacidade interna e externa de absorção. Principalmente as províncias e municípios se endividaram pesadamente, apostando numa demanda que não veio. Além de gerar um perigoso desequilíbrio fiscal e obrigar a intervenção do governo, o excesso de produtos deprimiu ainda mais os já desvalorizados preços de itens como carvão, alumínio, aço, entre outros, retardando a recuperação econômica, inclusive no mundo.

Em recente encontro entre autoridades americanas e chinesas, durante o Diálogo Estratégico China-EUA, representantes de Pequim resistiram às pressões da Casa Branca para que permita o colapso de pelo menos parte das firmas zumbis, que estão inundando os mercados, interno e externo, com produtos para os quais não há procura. 

Segundo dados do Goldman Sachs revelados pelo “New York Times” esta semana, o endividamento da economia chinesa saltou de 130% do PIB, em 2008, para 235% em 2015. O banco projeta que, em 2020, este percentual poderá chegar a 344% do PIB. No opaco campo financeiro chinês, esses números se traduzem em risco de explosão de bolhas, com efeito dominó na economia global. 

A realidade apresenta a conta. Estima-se que a inevitável redução do ritmo de produção industrial poderá levar entre cinco e dez milhões de trabalhadores ao desemprego, o pior pesadelo do regime, devido ao alto potencial de conflito social. [enquanto dez milhões de desempregados assombram a China - número pequeno em relação à população da China - o Brasil resultado da herança maldita do maldito PT já possui quase doze milhões e, infelizmente, número que ainda cresce.
Na China os responsáveis por um desastre desse já teriam recebido a famosa bala na nunca. No Brasil, tanto Lula quanto Dilma  não foram sequer denunciados.] Bancos e investidores, por sua vez, terão que fazer provisões de bilhões de dólares ou reestruturar as dívidas. 

O impasse econômico tem levado Pequim a não só atrasar as reformas do presidente Xi Jinping, como estimular lateralmente projetos militares no Mar do Sul da China e iniciativas de expansão geopolítica para criar empregos e valorizar uma retórica nacionalista, deslocando o problema para fora das fronteiras.  As empresas zumbis que assombram o governo chinês são apenas a ponta de um perigoso iceberg. O verdadeiro terror, para o país e o mundo, é a imprevisibilidade do efeitos de uma crise generalizada no gigante asiático.

Fonte: Editorial -  O Globo