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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Uma nova Guerra Fria



Nota do editor: o general Ion Mihai Pacepa (foto) é o oficial de mais alta patente que desertou do Bloco Soviético para o Ocidente. Em dezembro de 1989, o presidente romeno Nicolae Ceauscescu foi executado após um julgamento no qual as acusações foram, quase palavra por palavra, tiradas do livro Red Horizons, de Pacepa, subsequentemente publicado em 27 países. Após o presidente Carter ter aprovado o seu pedido de asilo político, Pacepa se tornou cidadão americano e trabalhou com agências de inteligência americanas contra o Bloco Oriental. A CIA elogiou a colaboração de Pacepa por ter proporcionado “uma contribuição importante e única para os Estados Unidos”. O seu livro mais recente, Disinformation, em coautoria com Ronald Rychlak, foi publicado pela WND Books em 2013.

A análise de que a mais recente onda de violência islâmica mundialincluindo o ataque mortal à embaixada americana na Líbia e as novas ameaças do Irã – seja, de alguma forma, uma reação “espontânea” ao filme de baixo orçamento A Inocência dos Muçulmanos tem se revelado, na melhor das hipóteses, ingenuidade política e, na pior, um uso do episódio como bode expiatório, por ignorância ou intencionalmente. Afinal de contas, até mesmo o presidente da Líbia, Yousef El-Magariaf, afirmou que, “sem dúvida”, o ataque havia sido “planejado”, enfatizando que os terroristas haviam escolhido uma “data específica para essa auto-denominada demonstração”.

Como quer que seja, o dia do assassinato do nosso embaixador, 11 de setembro de 2012, coincidiu com o exato dia em que o Kremlin comemorou um aniversário importante – 125 anos do nascimento de Feliks Dzerzhinsky, fundador do KGB, agora rebatizada FSB.

A minha experiência no topo da comunidade de inteligência do Bloco Soviético me dá uma sólida base para garantir que os ataques islâmicos às embaixadas americanas e o assassinato do nosso embaixador na Líbia, levados a cabo por lança-granadas, Kalashnikovs e coquetéis Molotov, foram tão “espontâneos” quanto os desfiles de Dia das Mães em Moscow – e também garanto que eles tẽm os mesmos organizadores.

Em 1972, tomei café da manhã com o então chefe da KGB, Yuri Andropov, em Moscow. O Kremlin, ele me disse, havia decidido converter o anti-semitismo árabe em credo antiamericano para todo o mundo muçulmano. A idéia era retratar os EUA como um país sionísta bélico financiado pelo dinheiro dos judeus e governado por um voraz “Conselho dos Sábios de Sião” (epíteto irônico da KGB para o Congresso americano) empenhado em fazer do resto do mundo um feudo judeu. Andropov salientou que um bilhão de inimigos poderia causar um dano muito maior do que apenas 150 milhões. Mesmo Maomé, disse ele, não havia restringido a sua religião aos países árabes.

O chefe da KGB descreveu o mundo muçulmano como uma placa de petri pronta para que nela cultivássemos o ódio contra os americanos, gerado a partir da bactéria do pensamento marxista-leninista. O anti-semitismo islâmico era profundo, disse ele. Os muçulmanos tinham uma tendência para o nacionalismo, jacobinismo e vitimologia, e as suas multidões iletradas e oprimidas poderiam ser facilmente insufladas até um ponto de ebulição. Tínhamos apenas de continuar repetindo, dia após dia, que os Estados Unidos eram um país sionísta bélico ávido por se apropriar do mundo inteiro.

A comunidade da KGB enfiou milhões de dólares e milhares de pessoas naquele projeto gigantesco. Até 1978, quando eu deixei a Romênia para sempre, apenas o meu serviço de espionagem romeno havia enviado cerca de 500 agentes infiltrados para diversos países islâmicos. Muitos deles eram religiosos, engenheiros, médicos, professores e instrutores de arte. De acordo com uma estimativa grosseira recebida de Moscow, até 1978 a comunidade de inteligência do Bloco Soviético como um todo havia enviado cerca de quatro mil agentes de influência para o mundo islâmico.

Até onde chegou a influência de todo esse esforço? Ninguém pode saber ao certo, mas mais de 20 anos de efeito cumulativo da disseminação de milhões de traduções árabes dos “Protocolos dos Sãbios de Sião” em todo o mundo islâmico retratando os Estados Unidos como um criminoso sionista deve ter deixado alguma marca. Veja a invasão à embaixada americana em Teerã em 1979, o atentado ao quartel dos marines americanos em Beirute em 1983, o atentado ao World Trade Center em Nova Iorque em 1993, a destruição das embaixadas americanas no Quênia e na Tanzânia em 1998 e os abomináveis ataques terroristas  ao próprio EUA em setembro de 2001 que mataram quase três mil americanos.
Até 1978, quando eu finalmente criei coragem para romper com o maligno império soviético, fui testemunha dos esforços da inteligência do Kremlin para transformar o mundo muçulmano. Em 2006, relatei esses esforços à colunista americana Kathryn Jean Lopez e, dias depois, os descrevi em um artigo publicado por ela no National Review sob o título Russian Footprints (Pegadas Russas). No último mês de março, o artigo foi publicado novamente no site do historiador Daniel Pipes, diretor do Middle East Forum e editor da revista Middle East Quarterly, sob o título “Why has Pacepa been ignored on the cause of global terrorism and on the cause of the Arab Israeli conflict?”

Como repetitio est mater studiorum, permita-me tomar a liberdade de repetir, aqui e agora, alguns dos assuntos de que tratei naquele artigo. Hoje, eles realmente parecem fazer pleno sentido. Esses assuntos estão mais aprofundados e melhor documentados no meu livro “Disinformation”, escrito em co-autoria com o professor Ronald Rychlak, a ser lançado pela WND Books no início de 2013.

Sequestro de aviões comerciais: a arma escolhida pelo KGB
De volta a 1969, Andropov me apresentou a uma nova arma no arsenal do KGB: o sequestro de aviões da companhia aérea nacional de Israel, a El Al. Andropov havia começado os seus imprecedentes 15 anos como chefe da KGB poucos meses antes da Guerra de Seis Dias em 1967 entre árabes e israelenses na qual Israel humilhou os mais importantes aliados da União Soviética no mundo árabe na época – Egito e Síria. Naqueles dias, esses dois países eram, na verdade, governados por conselheiros soviéticos. Como novo chefe da KGB, Andropov decidiu restabelecer o prestígio da KGB humilhando internacionalmente Israel.

Antes de 1969 terminar, terroristas palestinos, treinados na escola de operações especiais da KGB na cidade de Balashikha, a leste de Moscow, haviam sequestrado o primeiro avião da El Al e pousado na Argélia, onde 32 passageiros judeus foram mantidos reféns por cinco semanas. O sequestro havia sido planejado e coordenado pelo 13° Departamento da KGB conhecido no jargão de inteligência do Bloco Soviético como Department for Wet Affairs (wet – úmido – era um eufemismo da KGB para sangrento). 

Para esconder a mão da KGB, Andropov fez a Frente Popular para a Libertação da Palestina (criada e financiada pela KGB) assumir o crédito pelo sequestro. Nos dois anos seguintes, vários terroristas palestinos (treinados pela KGB) assumiram o crédito pelo sequestro de 13 aviões de passageiros israelenses e ocidentais e pela explosão de um avião da Swissair em pleno vôo, matando 47 passageiros e a tripulação. Todos esses sequestros foram arquitetados pela KGB.

Certamente, não foi por acaso que os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 foram cometidos por terroristas islâmicos usando aviões sequestrados.
Terrorismo – a principal arma do Kremlin contra o seu “Principal Inimigo”
“No mundo atual, em que as armas atômicas tornaram obsoleta a força militar, o terrorismo deveria ser a nossa principal arma contra contra o sionismo americano”. Isso era o que Andropov começou a pregar no início dos anos 1970. O enorme “sucesso” político granjeado pelo sequestro de aviões o encorajou a expandir o terrorismo internacional e mirar diretamente os Estados Unidos, durante anos chamado pela KGB de “Principal Inimigo” (glavnyy protivnik em Russo).

Em 1971, Andropov lançou a operação “Tayfun” (Tufão, em Russo), destinada a expandir o terrorismo anti-americano na direção da Europa Ocidental. Ele até estabeleceu uma “divisão socialista do trabalho” para mobilizar todo o bloco soviético em apoio ao seu novo terrorismo internacional. O serviço de inteligência tchecoslovaco foi encarregado de fornecer explosivo plástico inodoro (Semtex-H), indetectável por cães farejadores nos aeroportos. Em 1990, Vaclav Havel, presidente tchecoslovaco, reconheceu que o antigo regime comunista do seu país enviou secretamente cerca de mil toneladas desse explosivo para terroristas palestinos e líbios. Segundo Havel, apenas 200 gramas são o suficiente para explodir um avião comercial durante o vôo. “O terrorismo mundial tem um estoque de Semtex para 150 anos” estimou Havel.

Por seu lado, os alemães orientais tinham de prover os terroristas com armas e munição. De acordo com documentos secretos descobertos nos arquivos da Stasi (clone do KGB na Alemanha Oriental) após a queda do Muro de Berlim, apenas em 1983 a Stasi abasteceu organizações terroristas secretas na Alemanha Ocidental com o equivalente a US$ 1.877.600 em munição para AK-47.

Os cubanos ficaram encarregados da produção em massa de dispositivos de disfarce para contrabandear os explosivos plásticos para os países-alvo. Em 1972, eu passei um “feriado de  trabalho” em Havana como hóspede de Raul Castro, na época comandante das forças militares e das forças de segurança, e visitei o que se mostrou ser a maior fábrica do bloco soviético para a manufatura de malas de parede dupla e outros dispositivos de disfarce para infiltração secreta de armas em diversos países não comunistas. Sergio del Valle, chefe das forças de segurança de Cuba, me disse que o contrabando de armas para organizações terroristas era uma das suas principais tarefas na época.

 O pedaço de pizza da Romênia nessa joint venture era produzir passaportes ocidentais falsos para os “guerreiros da liberdade” de Andropov. Durante os meus últimos seis anos na Romênia, a Securitate, polícia política do país, tornou-se o principal fabricante de passaportes falsos – alemão-ocidentais, austríacos, franceses, britânicos, italianos e espanhóis – do Bloco Soviético, os quais eram regularmente entregues a diversos grupos e organizações terroristas internacionais.

Em meados dos anos 1970, uma onda de terrorismo varreu a Europa Ocidental. A primeira maior realização da operação Tayfun foi o assassinato de Richard Welsh, chefe da representação da CIA em Atenas em 23 de dezembro de 1975. Seguiu-se um atentado a bomba ao general Alexander Haig, comandante da OTAN, em Bruxelas que, felizmente, não foi ferido, embora a sua Mercedes blindada tenha sido destruída. Depois, em rápida sucessão, vieram o ataque a míssil contra o general Frederick J. Kroesen, comandante das forças armadas americanas na Europa, que também escapou com vida; o ataque a granada contra Alfred Herrhausen, um dos principais presidentes do Deutsche Bank favoráveis aos americanos, que foi morto; e a tentativa de assassinato de Hans Neusel, secretário de estado pró-americano no Ministério do Interior da Alemanha Ocidental responsável pelos assuntos de segurança interna, que foi ferido.

Quando a União Soviética ruiu, aquelas operações terroristas felizmente acabaram e inúmeros terroristas patrocinados pela KGB foram presos na antiga Alemanha Oriental. Peter-Michael Diestel, que se tornou Ministro do Interior na Alemanha Oriental após a queda do governo comunista, reconheceu em 1990 que o Aeroporto Schõnefeld em Berlim Oriental havia sido durante anos um “trampolim da KGB para terroristas de todos os tipos”. Christian Lochte, oficial sênior do serviço de contra-inteligência da Alemanha Ocidental, afirmou que a KGB e o seu clone na Alemanha Oriental, a Stasi, fizeram “todo o possível para desestabilizar esse país e também o resto da Europa Ocidental”

Andropov: pai do anti-semitismo e do terrorismo internacional atuais
Na discussão do legado de Andropov, sovietologistas ocidentais normalmente se limitam a recordar a brutal supressão dos dissidentes políticos, o seu papel no planejamento da invasão da Tchecoslováquia em 1968 e sua pressão sobre o regime polonês para impôr a lei marcial. Por contraste, os líderes da comunidade de inteligência do Pacto de Varsóvia, quando eu era um deles, olharam para Andropov como o pai da nova era de influência política internacional concebida para ressuscitar o anti-semitismo em todo o mundo e converter o mundo islâmico no mortal inimigo do sionismo americano.

Em agosto de 1998, dois meses após o pupilo de Andropov e ex-general do KGB, Yevgeny Primakov, ter se tornado primeiro ministro da Rússia, o general Albert Makashov, um membro da Duma, alegou que os judeus estavam sendo pagos pelo sionismo americano para arruinar a pátria russa e clamou pelo “extermínio de todos os judeus da Rússia”. Dia após dia, as telas dos televisores russos mostraram-no gritando na Duma: “Vou capturar todos os Yids (denominação pejorativa para judeus) e mandá-los para o outro mundo”. No dia 4 de novembro de 1998, a Duma apoiou o pogrom de Makashov votando contra uma moção parlamentar (121 a 107) que censurava o seu discurso de ódio. No dia 7 de novembro de 1998, numa marcante demonstração do 81° aniversário da Revolução de Outubro, multidões de antigos oficiais da KGB mostraram o seu apoio ao general, cantando “hands off Makashov” e carregando cartazes com slogans anti-semitas.

A terrível decapitação do repórter do Wall Street Journal, Daniel Pearl, em 2002, resume o legado de Andropov. Khalid Sheikh Mohammed, mentor dos ataques de 11 de setembro de 2001, cometeu o repulsivo assassinato de Pearl somente porque ele era um judeu americano.
Não é de admirar que, por ser profundamente anti-semita e anti-americano, Andropov tenha se tornado o primeiro chefe da KGB a galgar o trono do Kremlin. Em 1989, Andropov também se tornou o único chefe da KGB a ter o seu escritório transformado em santuário. Jornalistas ocidentais foram convidados a visitar Lubianka e devotamente conduzidos para ver a sala de conferências com a sua lareira de mármore, o seu escritório particular com outra lareira e o dormitório contíguo mobiliado de modo espartano com cama, refrigerador e mesa. Pelas descrições dos jornalistas, todos os ambientes se parecem exatamente com o que me lembro de ter visto da última vez que estive lá. Ainda mais admirável é o relato de que o santuário de Andropov tenha sobrevivido à queda da União Soviética.

A Rússia de hoje: a primeira ditadura de inteligência da história
A Rússia pós-comunismo realmente tem se transformado de forma imprecedente e positiva e uma jovem geração de intelectuais tem lutado para desenvolver uma nova identidade nacional para o país. Não obstante, independentemente do que lemos nos jornais, vemos na tv ou é dito pelo Departamento de Estado, a Rússia ainda não é uma democracia. Na verdade, a Rússia se tornou a primeira ditadura de inteliência da história e assim deve ser tratada.
Em 31 de dezembro de 1999, Vladimir Putin – outrora meu colega na KGB em minha outra vida – que meses antes havia manobrado para se tornar o primeiro ministro da Rússia, se entronizou no Kremlin como líder supremo, após um golpe no palácio da KGB.

 Em seguida, Boris Yeltsin, o primeiro presidente livremente eleito da Rússia, abandonou o campo de batalha e em rede nacional de TV anunciou a sua aposentadoria: “Entendo que é meu dever fazer isso” disse ele “e a Rússia deve entrar no novo milênio com novos políticos, com novas faces, com novas pessoas inteligentes, fortes e enérgicas. Em seguida, Yeltsin assinou um decreto transferindo o seu poder a Putin. Por seu lado, Putin assinou um decreto perdoando Yeltsin – que, diziam, estava envolvido em gigantescos escândalos de suborno – “quanto a quaisquer possíveis crimes” e garantindo a ele “imunidade total” contra ser processado (ou mesmo investigado) por “toda e qualquer” ação cometida durante o exercício do cargo. Putin também deu a Yeltsin uma pensão vitalícia e uma dacha do governo. Quid pro quo, diríamos.

Durante a Guerra Fria, a KGB era um estado dentro do estado. Sob o presidente Putin, a KGB, rebatizada FSB, é o estado. Três anos após Putin ter se sentado com estrondo no trono do Kremlin, cerca de seis mil antigos oficiais da KGB – a organização responsável por, sozinha, ter massacrado pelo menos 20 milhões de pessoas na União Soviética – estavam tocando o governo federal e os governos locais. Cerca da metade de todos os outros altos postos governamentais eram ocupados por antigos oficiais da KGB. Após ter cuidado disso, o recentemente nomeado presidente Putin trouxe de volta o velho e bom hino de Stalin, proibido desde a queda da União Soviética. Apesar do “novo” hino ter letra nova, ela fora escrita pelo mesmo velho poeta, Sergey Mikhalkov, autor da letra original louvando Stalin, Lênin, o Partido Comunista e a “indestrutível” União Soviética. Yelena Bonner, viúva de Andrey Sakharov, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, chamou o ressuscitado hino soviético de uma “profanação da história”. Putin discordou e disse: “Ultrapassamos as diferenças entre passado e presente”.

Em 12 de fevereiro de 2004, Putin afirmou que a fim da União Soviética foi uma “tragédia nacional em escala enorme” e, em julho de 2007, ele previu uma nova Guerra Fria contra o Ocidente. “A guerra começou” anunciou Putin no dia 8 de agosto de 2008, minutos após o presidente George W. Bush e outros líderes mundiais, reunidos em Pequim para assistir a cerimônia de abertura das Olimpíadas, terem ficado chocados ao saberem que tanques russos haviam invadido a Geórgia.

Seria muito irreal sugerir que essa nova Rússia lembra a imagem hipotética de uma Alemanha pós-guerra governada por antigos oficiais da Gestapo, que restabelecessem o “Deutschland Über Alles” de Hitler como hino nacional, qualificassem o fim da Alemanha Nazista como uma “tragédia nacional em escala enorme” e invadissem um país vizinho, talvez a Polônia, do mesmo modo como Hitler ocasionou a Segunda Guerra Mundial?

Na Rússia, quanto mais as coisas mudam, mais parecem ficar na mesma
Durante aqueles dias em que Andropov era o chefe da KGB e eu estava no topo da comunidade de inteligência exterior do Bloco Soviético, havia uma faixa em meu escritório dizendo, em letras maiúsculas: A ESPIONAGEM CAPITALISTA RELATA A HISTÓRIA. NÓS A FAZEMOS. No bloco soviético, os nossos oniscientes ditadores não queriam que lhes mandássemos informações. Eles sempre sabiam mais e, na verdade, eles se sentiam ofendidos quando nós, chefes da inteligência, tentávamos contar a eles algo novo. 

Como exemplo clássico desse tipo de mentalidade, ainda se conserva um relatório de inteligência enviado a Stalin em maio de 1941 prevendo que Hitler poderia atacar a União Soviética em junho daquele ano. Nesse relatório, Stalin rabiscou uma nota dizendo: “Pode mandar a sua ‘fonte’ para a pqp. Ele é um dezinformator.” Em 22 de junho de 1941, Hitler realmente invadiu a União Soviética, que pagou um alto preço por Stalin ter usado mal o serviço de inteligência dando a ele apenas a função de dizer ao mundo o quão grande ele – Stalin – era. Dez milhões de militares e 14 milhões de civis foram mortos. Mais 5 milhões foram feitos prisioneiros pelos nazistas.

Stalin e os seus sucessores no Kremlin continuaram usando os seus aparatos de inteligência para engrandecer as suas próprias regras e a sua própria estatura, por meio, simplesmente, da estratégia de alterar o passado histórico e o presente visível para que se acomodassem aos seus planos para o futuro. Dentro da nossa comunidade de inteligência do Bloco Soviético, isso era chamado de dezinformatsiya, e era apresentada como uma ciência eminentemente russa e extraordinariamente efetiva. Durante a Guerra Fria, mais gente trabalhou para a dezinformatsiya do que para todo o exército soviético e indústria de defesa somados. Poucos outsiders sabiam disso, porque o assunto ficava imerso em segredo.

Essa prática secreta e esse exército de desinformação invisível foram ressuscitados sob a presidência de Putin, conforme descrito com riqueza de detalhes no livro sobre desinformação, a ser lançado em breve, cuja autoria dividi com o professor Rychlak. O totalitarismo precisa sempre de um inimigo tangível, e os Estados Unidos, retratado pela KGB durante os 47 anos da Guerra Fria como o seu “Principal Inimigo”, continua a ser pintado pela administração de Putin como o principal inimigo do país.

Tão logo o presidente Putin e os seus antigos oficiais da KGB começaram a governar a Rússia, eles levaram o país de volta ao acampamento dos tradicionais clientes da União Soviética – os quais haviam sido os mais mortais inimigos dos EUA. Putin já começou favorecendo precisamente os três governos classificados pelos EUA como o “eixo do mal” – Irã, Iraque e Coréia do Norte.

Em março de 2002, Putin silenciosamente retomou a venda de armas para o ditador do Irã, Aiatolá Khamenei, e, secretamente, começou a ajudar o governo terrorista daquela nação a alcançar a produção de armas nucleares e a desenvolver mísseis balísticos capazes de transportar ogivas nucleares ou armas químicas até qualquer alvo no Oriente Médio ou na Europa. Em agosto de 2002, Putin concluiu um acordo comercial de 40 bilhões de dólares com o tirânico regime iraquiano de Saddam Hussein. Em seguida, pouco antes de setembro de 2002, quando os EUA se preparavam para chorar as vítimas do ataque terrorista do ano anterior, Putin recebeu em Moscow, com grandes honras, o desprezível ditador da Coréia do Norte, Kim Jong II.

Em seguida, os antigos oficiais da KGB instalados no Kremlin começaram a armar os terroristas árabes anti-americanos, exatamente como haviam feito no tempo da União Soviética. Em 12 de julho de 2006, militantes do Hezbollah (“Partido de Deus”), uma organização fundamentalista muçulmana anti-semita, lançou um grande ataque de foguetes contra Israel, que foi seguido por uma contra-ofensiva israelense de 34 dias de duração. 

Muitas das caixas de armas do Hezbollah capturadas pelas forças de Israel durante o episódio traziam a identificação: “Cliente: Ministério da Defesa da Síria. Fornecedor: KBP, Tula, Rússia.” Em outubro de 2010, o mesmo Hezbollah apoiado pela Rússia realizou um treinamento simulando a invasão de Israel. O Gulf Research Centre, financiado pela União Européia, que fornece a jornalistas uma vista interna da área do Oriente Médio, descobriu que as forças militares do Hezbollah estavam armadas com uma grande quantidade de “foguetes Katyusha-122 de fabricação soviética, que carregam uma ogiva de 15 kg.” O Hezbollah também estava armado com fogutetes Fajr-5, projetados pela Rússia e fabricados pelo Irã, capazes de alcançar o porto israelense de Haifa, e com foguetes Zelzal-1 projetados pela Rússia, com capacidade de alcançar Tel Aviv. O Hezbollah também possuía os infames mísseis russos Scud, bem como os mísseis russos anti-tanques AT-3 Sagger, AT-4 Spigot, AT-5 Spandrel, AT-13 Saxhorn-2 e AT-14 Spriggan Kornet.

Em março passado, o candidato presidencial americano Mitt Romney classificou a Rússia como inimigo geopolítico número 1 dos EUA. Enquanto dizia que a maior ameaça atual ao mundo é um “Irã nuclear”, o presidenciável falou dura e esperançosamente contra o Kremlin por ele, consistentemente, “apoiar os piores atores mundiais”, referindo-se ao veto da Rússia à resolução do Conselho de Segurança da ONU sobre a Síria.

O expansivo presidente russo da época, Dmitry Medvedev, afirmou que as observações de Romney tinham um quê hollywoodiano e mandou o americano olhar o relógio. “Estamos em 2012, não na década de 1970” disse Medvedev.

Os EUA precisam de uma política externa realista
A política americana atual em rel ação à Rússia de Putin é denominada “Reset”, erroneamente traduzida pelo Departamento de Estado como peregruzka, cujo significado é “overcharged”. Há alguns poucos significados para “reset” nos dicionários, mas todos tendem a significar “restore” (exceto na Escócia, onde “reset” é o termo legal para receptação).


A ditadura de inteligência da Rússia é, não obstante, um fenômeno político totalmente novo e precisamos de uma política externa totalmente nova para lidar com ele. Caso contrário, podemos enfrentar uma nova Guerra Fria, uma guerra que ameaça ser não apenas fria mas também sangrenta.

Não sei qual deve ser a nossa nova política externa em relação à Rússia. Não tenho acesso a informações confidenciais e não tenho vontade de representar o papel de general de poltrona. Os tagarelas sabe-tudo da mídia americana não são mais espertos do que eu. Eu tenho, entretanto, boas razões para sugerir que a nossa administração e o Congresso dêem uma boa olhada no documento NSC 68/1950 do presidente Truman.

O relatório NSC 68/1950 do National Security Council não culpa filmes ou livros pela Guerra Fria e pelos ataques terroristas contra os Estados Unidos. Aquele documento “pé-no-chão” de 58 páginas descrevia os desafios que os Estados Unidos enfrentavam em termos realistas.
“As questões que enfrentamos são graves” afirmou NSC 68/1950 “envolvendo a sobrevivência ou a  destruição não apenas dessa República mas da própria civilização.”

Por isso, o NSC 68/1950 focou na criação de uma “nova ordem mundial” centrada nos valores americanos liberal-capitalistas e continha uma estratégia política dupla: poder militar superior e uma “Campanha da Verdade”, definida como uma “luta, acima de tudo, pelas mentes dos homens.” Truman argumentou que a propaganda usada pelas “forças do comunismo imperialista” somente podia ser vencida pela “verdade nua e crua”. A Voice of America, Radio Free Europe e Radio Liberation (depois Radio Liberty) se tornaram parte da “Campanha da Verdade” de Truman.

Se você ainda quer saber como os Estados Unidos foi capaz de vencer a Guerra Fria sem disparar um único tiro, eis uma explicação do segundo presidente romeno pós-comunista, Emil Constantinescu:

A Radio Free Europe tem sido muito mais importante do que os exércitos e os mais sofisticados mísseis. Os “mísseis” que destruíram o comunismo foram lançados pela Radio Free Europe e esse foi o mais importante investimento de Washington durante a Guerra Fria. Não sei se os americanos percebem isso hoje, sete anos após a queda do comunismo, mas nós entendemos isso perfeitamente bem.

A metáfora do presidente Constantinescu não é exagerada. De acordo com a mídia romena pós-comunista, em 1988 e 1989, quando a Radio Free Europe estava serializando o meu livro Red Horizons, as ruas de Bucareste estavam vazias. Os romenos estavam ansiosos para ver o seu glorificado tirano nu, como ele realmente era – um iletrado traficante de drogas e terrorista internacional que amealhou uma fortuna pessoal vendendo secretamente armas e o povo romeno em troca da moeda ocidental. No Natal de 1989, Ceausescu foi executado pelo seu próprio povo, ao fim de um julgamento no qual as principais acusações haviam sido tiradas do meu livro. Hoje, a Romênia é um membro da União Européia e da OTAN.


Artigo de 
Ion Mihai Pacepa publicado no World Net Daily em 23 de setembro de 2012.

Tradução:
Ricardo Hashimoto




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