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sábado, 20 de abril de 2019

A onda marrom na Europa

O triste é perceber que os partidos de esquerda carecem de propostas


As democracias e os valores democráticos estariam em crise terminal? Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, em livro recente, aventuraram-se a apresentar uma reflexão sobre como as democracias morrem. Ora, há poucas décadas, sobretudo depois da desagregação do socialismo soviético, em 1991, a democracia parecia destinada a ser o ponto de chegada da história mundial. O que teria acontecido? A ascensão do autoritarismo, sob diversas formas, de direita e de esquerda, desenvolve-se em diferentes contextos e, em cada região ou país, suscita interpretações próprias. Seria ousado propor uma explicação geral para o fenômeno.
Consideremos, porém, o caso da Europa, em particular, onde é visível a popularidade do autoritarismo de direita. Na Polônia, na Hungria e na Eslováquia, governos direitistas dão as cartas. Na Itália e na Áustria, forças extremadas de direita, em coligação, acedem ao governo. Na França, há anos, ela só tem sido vencida por votos de uma ampla e informal frente democrática.
Até mesmo em sociedades do “bem-estar social”, como Inglaterra, Holanda, Bélgica, Suíça, Dinamarca e Suécia, a tentação autoritária de direita aparece com força. É o caso também da Alemanha, onde, nas últimas eleições, ingressou no Parlamento um partido de extrema-direita, embora minoritário. Seria razoável igualar estas tendências a uma nova “onda marrom” (cor do uniforme usado pelas SA, os Sturmabteilung, milícias nazistas dos anos 1930)? Um renascimento do nazifascismo sob novas formas? Enquanto se trava o debate conceitual, seria importante considerar alguns aspectos relevantes.

Comecemos pelo fato de que as propostas ultraconservadoras, mesmo depois da II Guerra Mundial, permaneceram vivas e bem vivas na Europa. No ocidente do continente, a Guerra Fria impediu políticas sérias de desnazificação. Na Europa oriental, as mal chamadas “democracias populares” existiam em virtude da ocupação das tropas soviéticas. Assim, ideias e movimentos de extrema-direita ficaram fermentando, à espera e à espreita de circunstâncias propícias. Estas desenharam-se com a subversão radical de valores introduzida pela grande revolução informática, desde os anos 1960. Da organização da economia às instituições políticas, da configuração das classes sociais aos valores culturais, um verdadeiro terremoto aconteceu, abalando certezas, instaurando o medo. Grandes contingentes populacionais passaram a ter dificuldade em se encontrar num mundo que mudava numa velocidade imprevisível. Desamparados pelos partidos tradicionais — de direita e de esquerda —e pelas instituições vigentes, tenderam a encontrar em discursos simplistas respostas para seus anseios e angústias.
O processo acirrou-se com a crise econômico-financeira iniciada em 2008. Pagaram pelos custos da superação do desastre os trabalhadores e os assalariados em geral. Pagaram com desemprego, subemprego, salários aviltados e serviços públicos degradados. Já os capitais financeiros, responsáveis diretos pela crise, receberam subsídios, estímulos, proteção e cobertura dos respectivos governos. Aprofundou-se o quadro de desespero, amargura e ressentimento. Caldo de cultura favorável aos demagogos direitistas.

Por outro lado, os imigrantes, que haviam desempenhado papel vital no desenvolvimento econômico dos anos 1950-1960, assimilados pela prosperidade europeia, passaram a ser percebidos com hostilidade, gerando uma espécie de “pânico identitário” (expressão de Daniel Bensaid, citado por Michel Lowy em recente artigo), um outro poderoso nutriente das direitas.
 
O triste é perceber que os partidos de esquerda carecem de propostas. [felizmente.] Ou conciliam com os interesses dos grandes capitais financeiros ou cedem ao canto de sereia dos nacionalismos, um terreno armadilhado que não é o seu. Em ambos os casos, abandonam o caminho de uma Europa dos trabalhadores, única saída comprometida com a justiça social e à democratização da democracia, uma terceira margem, alternativa ao domínio atual da especulação financeira e à onda marrom. 
 
Daniel Aarão Reis - O Globo
 
 
 
 

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