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sábado, 15 de julho de 2017

Selfies, cafezinho e baderna

Cabe agora discutir os problemas éticos e legais levantados pelo episódio, lamentável sob qualquer ângulo, de um grupo de senadoras ocupando a mesa do plenário para tentar barrar, na marra, a votação da reforma trabalhista – de mais a mais, um avanço para o restabelecimento da normalidade nas relações entre capital e trabalho. A cena surreal configurou um acinte ao povo, à ordem constituída, à democracia. Ninguém que assistiu ao ocorrido encarou de forma passível, serena, tamanha petulância.

Esse Congresso, entretanto, é extraordinário. Seus titulares, majoritariamente os da oposição, como digníssimos representantes ungidos pelo voto, possuem ideias por assim dizer medievais, ultrapassadas, sobre como resistir. Não são suficientes medidas regimentais, protestos ao microfone ou articulação de bancada. Recorrem à obstrução física, na base da força. Imaginam-se guerrilheiros em tempos sombrios de uma ditadura longínqua, muito embora proclamem ter promovido a modernização e a redemocratização do País. Seja como for, qualquer um classificaria como abominável, ridículo, beirando o escárnio, aquele comportamento das parlamentares. Ele dá a exata dimensão da decadência a que chegou a política brasileira. Foram as petistas Gleisi Hoffmann, Fátima Bezerra e Regina Sousa, além de Vanessa Grazziotin (do PCdoB), meras marionetes manipuladas como em um jogral lobista de sindicalistas da CUT, esses contrariados principalmente com o fim do imposto que banca as suas agremiações. 

Por oito intermináveis horas, as senadoras tomaram de assalto a Mesa Diretora e a transformaram em um picadeiro com direito a show de palhaçadas, cafezinho, lanche e “selfies”. Atuaram tal qual colegiais que se rebelam na sala de aula. Faltou o corretivo da direção. O patético espetáculo é altamente representativo do casuísmo “made in Brazil”, clássico recurso de anarquistas quando perdem o argumento e partem para a arruaça pura e simples, numa atitude de desespero. O ardil leguleio, contra o princípio da razão e da dignidade, preenche o vazio do interesse público, colocado em segundo plano quando o que se está em jogo é a disputa partidária, a guerra pela tomada de poder. O País vive tempos difíceis, de advogados chicaneiros, de empresários desavergonhados (alguns poucos, é verdade) e de políticos cuja hombridade nas ações segue questionável. 

Esses últimos são os piores. Os congressistas, de modo geral, habitam um mundo onde as versões predominam sobre os fatos, as declarações e atitudes são usadas mais para esconder do que para mostrar. Aquelas senadoras da fuzarca não estavam preocupadas com eventuais perdas ou retrocessos dos direitos trabalhistas. Muito menos agiam em prol do interesse público. Contou mais o que poderiam levar no intento de sabotar qualquer projeto desenvolvimentista do Executivo. Incorreram naturalmente em quebra de decoro. E no caso de algumas delas, não foi sequer a primeira falta passível de condenações judiciais. Mas para elas pouco importa. A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, recém-eleita para comandar a sigla, que o diga. Ela adotou a tática do tumulto, das negociatas deploráveis e da gritaria em sessões do Congresso como método de política. Quer misturar todos no mesmo balaio de malfeitos e bagunça para escapar de suas penas e livrar correligionários, ainda mais graduados, do mesmo fim. 

Agora Gleisi e sua trupe sonham fervorosamente com a deposição do presidente Temer. Trabalham a qualquer custo, e fazendo uso de métodos nada republicanos, para isso. Com estafante insistência de uns tempos para cá falam de uma deposição a ser feita para salvar o Brasil do caos. Não admitem que foram eles os próprios responsáveis por tamanho caos. A decadência moral, a ambiguidade ideológica e os fins inconfessáveis de retomada do Planalto para servir de abrigo contra eventuais ofensivas da lei não lhes permitem esclarecer que a transição para um novo governo em mandato-tampão não é garantia nenhuma (ao contrário) de supressão do azougue. Os designados do parlamento continuarão tomando cafezinho, mancomunando entre si no seu universo paralelo e promovendo despautérios como o da semana passada, de acordo com as suas conveniências – que quase nunca coincidem com as da Nação.

Fonte: Editorial - Revista Isto É - Carlos José Marques, diretor editorial

 

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