Passada a eleição municipal e empossados os escolhidos,
começa a corrida pela vaga de Jair Bolsonaro. Competição da qual participa o
próprio, muito disposto a suceder a ele mesmo. As municipais são nossas
“midterm”. Nos Estados Unidos, elas elegem todos os deputados, uma parte dos
senadores e dos governadores. Aqui, todos os prefeitos e vereadores. O ponto
médio do período de quatro anos é a largada para a eleição seguinte.
O universo da política gira sempre em torno de eleições. Daí
haver certa ingenuidade (ou malandragem) quando se diz ao governante, nos
diversos níveis, “desça do palanque e governe”. Mais honesto seria admitir:
quem desce do palanque está arriscado a enfraquecer-se. Pior. Dada a
quase impossibilidade, aqui, de o eleito trazer com ele da eleição a maioria
parlamentar, se descer do palanque, aumenta o risco de ser derrubado.
Quem desce do palanque não governa, ou enfrenta imensas
dificuldades, inclusive porque a periodicidade e a assiduidade das eleições
exigem o reabastecimento permanente e atento da expectativa de poder, o que
pede ao político alimentar uma projeção de futuro. Isso é mais fácil para quem
está na oposição. Pois a pergunta “se está dizendo que vai fazer, por que não
fez ainda?” vive exposta na prateleira do supermercado mercadológico eleitoral.
É sempre possível, claro, dizer que não fez ainda porque não
deu tempo, porque pegou a situação com muitos problemas e precisa de mais
quatro anos para completar a obra. [inevitável reconhecer que fundamentos para pedir mais tempo, e ser atendido, é o que não falta ao presidente Bolsonaro; qual dos governantes brasileiros, dos últimos 50 anos, enfrentaram uma pandemia do porte da atual? ou mesmo uma pandemia simples? se é que existe.
qual deles ao tempo que enfrenta uma pandemia, sofre um boicote sistemático - ou sofria - do Poder Legislativo, com apoio na maior parte das vezes do Judiciário?] Esse discurso colar depende de algumas coisas,
duas delas muito importantes: a vida dos eleitores estar algo confortável e haver
operadores eficientes empenhados na construção da narrativa “as alternativas
não são boas, com elas a coisa poderia estar muito pior”.
Mas, regra geral, quem carrega a tocha da esperança é a
oposição, então o governo precisa estar sempre mostrando serviço e com uma
defesa bem articulada. Para fazer do presente a ponte da esperança de um
futuro mais bonito. No caso de agora, Bolsonaro precisa, em 2021, mostrar serviço
nas suas duas frentes principais: a vacinação e o suporte econômico aos mais
vulneráveis na pandemia. Sem isso, será alvo fácil em 2022.
Todos dizem que é provável termos vacinas em grande quantidade
a partir ainda deste semestre, e que isso é certo para o próximo. Se acontecer,
colaborará para “retomar a retomada” econômica (até o governo já prevê retração
neste começo de ano). O que pode fazer o povo chegar à eleição com um certo
alívio. Se a turma estiver vacinada e a economia crescendo, o candidato a
continuar terá credibilidade para falar de um futuro melhor.
Também por isso a vitória de Arthur Lira (PP-AL)
foi tão
estratégica. Permite a Bolsonaro atravessar estes meses mais delicados
sem estar
ameaçado pela guilhotina do impeachment. Se desse Baleia Rossi (MDB-SP),
apesar
de todas as declarações apaziguadoras, já se estaria armando o cadafalso
habitual no Brasil. Mas, vamos repetir, o governo precisa funcionar.
Nada, ou quase nada (na política o “quase” é importante), pode
substituir isso.
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Alon Feuerwerker, jornalista e analista político