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quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

PASSAPORTE VACINAL

[Causa estranheza Lula - o maior ladrão do Brasil - convidar para sua campanha esse senador do Acre,  o estridente, que se apresenta como combatente dos corruptos. 
Apesar de que referido senador é grande aliado de Renan Calheiros e Omar Aziz.] 

 
MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

O Brasil está dividido entre cientistas e reacionários. Tudo começou em 2020 com a pandemia. A ciência foi usada exaustivamente para permitir que fosse distribuído crachá de cientistas para uns e de imbecis para outros. Particularmente, registrei momentos nos quais a ciência poderia ter se imposto de forma apartidária, mas não foi isso que ocorreu. Apenas para citar um caso: pesquisadores do Amazonas fizeram uma experiência com 81 pacientes dando 1200mg de hidroxicloraquina duas vezes ao dia, replicando (agora vai Roberto Cappelletti) uma experiência realizada na China que matou pessoas. Aqui morreram onze, ou seja, já se sabia que essa dosagem diária de HCQ matava pessoas, mas a ciência ficou em dúvida e resolveu contribuir matando mais onze. 
Ninguém foi punido e até onde sei não houve autorização dessas pessoas para participar dessa experiência. Lembro que seria aberto um inquérito, mas no Brasil é não quer dizer nada. Não há cientistas presos.

A ciência poderia ter desenvolvido a racionalidade dos governantes, mas não me parece que isso tenha sido atingido. De modo amplo, ainda se usa uma série de procedimentos que violam o raciocínio mais simples, mais lógico, a exemplo do tal passaporte vacinal. Recentemente, através de decreto, o governo de Pernambuco impôs a necessidade de apresentação do passaporte vacinal para entrar em restaurantes, praça de alimentação, dentre outros. No fundo, acho que todos os governos que fazem isso cometem um grande equívoco porque, de acordo com um estudo feito pela Fiocruz, 48% das contaminações de Covid ocorrem nos terminais de transporte público, 22% ocorrem em hospitais, ou nas suas proximidades, e em atividades como restaurantes, o risco de contaminação é 2,2%. Ou seja, pune-se a atividade por um risco tão baixo, enquanto nada se faz no transporte público.

Não precisa ser cientista para entender que o transporte urbano foi, é e será, o foco principal de transmissão de covid. O metrô do Recife transporta 400 mil pessoas por dia; o transporte público da cidade de São Paulo absorve 7 milhões de pessoas; do Rio de Janeiro, outro tanto. Um estudo de uma universidade inglesa visitou academias 62 milhões de vezes, em 14 países, e encontrou 497 casos de covid, ou seja, uma proporção absolutamente desprezível. Mas, por conta de 2,2% de risco foram adotadas por diversos governos mais medidas de restrição as atividades econômicas.

 A rede que governa o Brasil
No vídeo de hoje vamos comentar como o Brasil segue sendo governado em tempos tão... estranhos.

 

Em 2020, com a suspensão das atividades econômicas “até que a curva achatasse” comentei sobre os danos e o impacto que teria para nossa economia que apresentava sinais de otimismo. A Bolsa bateu 113 mil pontos, houve um crescimento econômico pequeno (1,1%), mas houve. Enfim, havia uma série de indicadores que preconizavam melhoras. Fui ensinar Macroeconomia numa turma de Ciência Política e o que a gente estava vivendo era o melhor programa para ser apresentado. Mostrei que inflação ia crescer por falta de insumos, de renda, de desemprego e tudo mais. Foi assim e está sendo no mundo inteiro. Os americanos experimentaram uma inflação de 7%. Na Alemanha, a Destatis (a agência de estatística) comunicou uma inflação de 24,2% ao produtor. Então, não fica a menor dúvida de que a suspensão da atividade econômica tem uma enorme responsabilidade sobre isso.

Estamos diante de fatos inusitados. Todos nós tomamos vacina contra poliomielite, sarampo, catapora, tuberculose, tétano, etc. e todos nós mantemos o cadastro de vacina dos filhos atualizado. Então, me parece que não é a vacina… é esta vacina que tem algo estranho e que a gente não pode comentar sob o risco de ser taxado de “minion”, “gado”, “negacionista” e outros adjetivos menos qualificados. A vacina da poliomielite erradicou a doença e Albert Sabin abriu mão dos direitos para que houvesse agilidade na aplicação da vacina no mundo inteiro
A quantidade de pessoas que se vacinaram contra poliomielite e que pegaram a doença, se existir, é irrisória, ao contrário da vacina contra covid. 
Até o momento não vi um laboratório falar em abrir da grana que está recebendo por essa vacina.

A gente tomava vacina para não ter a doença, mas esta é diferente: a gente toma para que os efeitos da doença sejam minimizados. Eu acho absolutamente estranho quando se fala que a vacina diminui os efeitos da variante ômicron. Ué!!!! Mas, eu não lembro de ninguém que tomou vacina contra tétano para que os efeitos do tétano fossem reduzidos. Tomava para não contrair tétano. Vacina é isso: prevenção!

PERGUNTAS QUE NÃO QUEREM CALAR:
Assim, o que nós estamos vendo são pessoas vacinadas contraindo a doença e acredito que a sociedade precisa saber, por exemplo, quantas pessoas vacinadas foram contaminadas?
Pessoas que contraem a doença duas ou três vezes se deve a quê?
Qual o perfil das pessoas que morreram por covid?
As pessoas contaminadas atualmente possuem comorbidades?
Quais?
É dito que a vacina tem ajudado a reduzir o número de óbitos, mas existem trabalhos que avaliam a autoimunidade?

Eu sou defensor da ciência, mas eu gosto da ciência apartidária. Não simpatizo muito com quem pega a Economia para favorecer um partido político ou um projeto político, embora saiba que isso é muito difícil de separar porque a Economia é decidida por pessoas. Eu quando oriento um aluno digo sempre que a Teoria está dada e que se os resultados que a gente encontrar não forma de acordo com a teoria, a culpa não é dela e não vamos adequar a Teoria aos nossos dados. Vamos rever se estamos fazendo os pressupostos corretamente.

Enquanto tivermos a contenda do tipo cientista x imbecis negacionistas, nós vamos ter doenças e mortos. Vamos ter incoerência como essa do passaporte vacinal que é um desses casos que vai de encontro ao que diz a teoria e da forma que está sendo tratado, em pouco tempo será exigido passaporte vacinal para assistirmos enterros de pessoas vacinados.

 Jornal da Besta Fubana

[Defendemos a vacina, até pelos excelentes resultados que muitos dos nossos desfrutam, como consequência das vacinas recebidas no passado.
Além do mais é a única opção.
Nossa opinião é contrária à vacinação compulsória e o passaporte vacinal.]

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

O SUS - Sistema Único de Saúde - Monica de Bolle

O Sistema Único de Saúde sobreviveu para lutar mais um dia neste governo de desmandos e descasos

O SUS, de fora, é visto com certa estupefação. Como um país de renda média como o Brasil conseguiu construir um sistema tão abrangente e que funciona para todos? O feito é incomum em países com características econômicas semelhantes às nossas. O feito não foi realizado nos Estados Unidos, onde, na pandemia, há muita gente desassistida, ou, quando assistida, quase falida. Aqui nos Estados Unidos a saúde é praticamente toda privada, e quem não tem plano de saúde, ainda que possa ser atendido nas emergências dos hospitais, depois recebe contas astronômicas a pagar. As falhas do sistema de saúde norte-americano, há muito debatidas, ficaram inteiramente visíveis agora, durante a crise da Covid-19. Embora os descasos brasileiro e norte-americano tenham sido semelhantes, no Brasil contivemos algumas mortes por causa do SUS. E a epidemia está longe de acabar.

Bolsonaro e Guedes tentaram passar um decreto, o infame 10.530 de 27 de outubro, que previa possíveis alterações consideráveis nas unidades básicas de saúde (UBS). O decreto mencionava estudos para avaliar a viabilidade de parcerias privadas nas UBS, ainda que não chegasse a falar em privatização. Contudo, esse é o governo do Estado mínimo. Difícil imaginar que alguma intenção privatizante não estivesse ali escondida. As UBS são a base articuladora do SUS; se privatizadas fossem, desapareceria o SUS. Não de supetão, mas penso que dá para ver o ponto.

O decreto Bolsonaro-Guedes não foi apreciado pelo Ministério da Saúde, tampouco pelo Conselho Nacional de Saúde, órgão do Ministério responsável pelas políticas de saúde pública. Não foi apreciado por órgãos fundamentais do Ministério da Saúde porque Bolsonaro-Guedes decidiram que não era relevante que opinassem sobre o documento e seu conteúdo. Evidentemente, algo que é da competência da área de saúde só pode mesmo ser apreciada, quando não elaborada, pelo Ministério da Economia. No governo de balão de ensaio de Bolsonaro-Guedes essa abordagem faz todo sentido — esse é o mesmo governo que já lançou o programa Renda Brasil, o programa Renda Cidadã e disse que o Brasil crescerá 46% de agora até 2031. Só para que os leitores não se confundam, não existe nem Renda Brasil, nem Renda Cidadã. Quanto ao crescimento de 46%, difícil opinar, já que dizer algo sobre isso necessariamente significa levar a sério o que é dito por Guedes.

O decreto não foi a lugar algum. Sob intensa pressão da sociedade, de várias entidades, dos conselhos das secretarias municipais de saúde — todas as UBS são geridas pelos municípios, que tampouco foram consultados —, o presidente o revogou. O SUS sobreviveu para lutar mais um dia nesse governo de desmandos e descasos. [o decreto pode até ter sido um balão de ensaio;

Mas teve uma utilidade honesta: serviu para destacar o SUS - a maior parte da imprensa passou a defender o SUS e na defesa apontar vantagens, o desempenho excelente, a dedicação dos que lá trabalham = mostrando que o SUS é insubstituível.]

Contudo, os desafios do SUS são de tal ordem que faltam adjetivos para descrevê-los. O Brasil caminha a passos largos para enfrentar uma segunda onda da pandemia, como já se vê mundo afora — aqui nos Estados Unidos estamos já na terceira onda. Para além disso, há a sobrecarga de pacientes com sequelas da Covid-19, sobre as quais escrevi esta semana em artigo para o Estadão. Por fim, há o enfrentamento do teto de gastos que, do jeito que está, não permitirá que qualquer centavo seja direcionado ao SUS em 2021.

O SUS. #DefendaoSUS.

Monica de Bolle é Pesquisadora Sênior do Peterson Institute for International Economics e professora da Universidade Johns Hopkins


quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Não existe vírus grátis - Nas Entrelinhas

A fatura chegou primeiro para os desempregados e trabalhadores “por conta própria”, que dependem do auxílio emergencial do governo; mas virá para todos, à prestação

Desculpe-me o trocadilho, mas tem tudo a ver com a velha frase dos bares norte-americanos que nas décadas de 1930 e 1940 ofereciam a refeição para quem pagasse a bebida. Ficou mundialmente famosa porque intitulou um dos livros do economista liberal Milton Friedman, guru do ministro da Economia, Paulo Guedes. A lembrança não tem nenhuma relação direta com suas frases de efeito, até porque, ele tem evitado declarações polêmicas, mas, com o artigo publicado, ontem, pela economista Mônica de Bolle no jornal O Estado de S. Paulo, a propósito dos custos econômicos do negacionismo de Donald Trump em relação à pandemia. Os custos políticos podem inviabilizar a reeleição dele.

Segundo os economistas norte-americanos David Cutler e Lady Summers, citados no artigo, a queda do PIB norte-americano deve chegar a US$ 16 trilhões até outubro do próximo ano, ou seja, 90% do PIB, se a pandemia for controlada até lá. Nos cálculos dos dois economistas, foram incluídos os indicadores econômicos, como o aumento dos pedidos de seguro desemprego, mas, também, estimativas relativas aos prejuízos causados pela liquidação de vidas humanas, ou seja, de força de trabalho geradora de riqueza. [a realidade mostrada nesse parágrafo, isenta o governo Bolsonaro por qualquer responsabilidade de eventual desastre econômico no ano 2020 = incluindo, sem limitar a esperada queda do PIB.]

O Brasil não tem indicadores que possibilitem esse tipo de cálculo, mas tem estatísticas que podem servir de referência para um razoável balanço de perdas e danos. Pesquisadora do Peterson Institute for International Economics e professora da Sais/Johns Hopkins University, Mônica De Bolle destaca que o nosso Sistema Único de Saúde (SUS), posto à prova pela pandemia, pode nos dar uma noção, por exemplo, de quanto será preciso investir na Saúde em razão das sequelas da covid-19 nas pessoas que se recuperaram da doença. Como a população está envelhecendo, a pandemia também agrava, por falta de tratamento, as doenças associadas à idade — diabetes, câncer, cardiopatias —, que se somam àquelas que são consideradas endêmicas, como tuberculose, dengue, hanseníase, malária e Aids, que já pressionavam o sistema de saúde.

Crediário
O número de casos graves com longas internações é sete vezes maior do que o de óbitos; 30% dos que sobreviveram apresentam sequelas. Projetam-se 350 mil pessoas nessa situação, a grande maioria dependente do SUS. Com mais de 150 mil mortos, Mônica de Bolle estima que o custo econômico da pandemia no Brasil, por baixo, pode chegar a R$ 9 bilhões, sem considerar as mortes prematuras, ou seja, dos jovens que não faziam parte da população de risco. Coincidentemente, ontem, num evento da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), o presidente Jair Bolsonaro disse que a pandemia da covid-19 no Brasil foi superestimada. Bolsonaro insiste que o vírus e o desemprego devem ser tratados de igual maneira, simultaneamente. [Bolsonaro é presidente do Brasil e de todos os brasileiros, o que torna imperativo que sempre considere o Brasil no todo e tenha sempre presente evitar a frase: sobreviveu à covid-19,mar morreu de fome.] 

O Brasil é o 2º país com mais mortes por covid-19. Só os Estados Unidos têm mais vítimas: 220.694. Até o final da tarde de ontem, eram 150.998 óbitos de brasileiros causados pela doença. Segundo o Ministério da Saúde, 5.113.628 pessoas foram infectadas pelo novo coronavírus no país, 10.220 a mais nas últimas 24 horas. O número de mortes, felizmente, está caindo: foram 309.

Aproximadamente 4,5 milhões de pessoas se recuperaram da doença até o momento. Outras 436 mil estão em acompanhamento. São 713 vítimas a cada milhão de habitantes, o que coloca o Brasil na 3ª posição de letalidade da pandemia no ranking mundial. O Peru é o país onde a covid-19 mais mata em relação ao número de habitantes (1.008 pessoas para cada milhão), o segundo é a Bélgica (880 pessoas). [percebe-se que a letalidade da pandemia ignora a capacidade econômica dos países: Peru x Bélgica ?

Falando sobre letalidade da covid-19 no Brasil, surge a necessidade de destacar uma informação:

Se consultarmos o site do Registro Civil, que tem fé pública, constatamos que, no ano passado, no Brasil, no mesmo período, morreram de pneumonia 139.906 pessoas e, neste ano, 140.957 da covid-19. Não houve histeria por causa da pneumonia no ano passado. Seria medo de uma doença desconhecida? ]

As advertências de Mônica de Bolle são importantes porque as pesquisas de popularidade do presidente Jair Bolsonaro, com a recuperação de seu prestígio, reforçam o discurso negacionista oficial, robustecido pelo fato de que o pior já passou e a redução das taxas de contaminação permite que a política de isolamento social seja flexibilizada, como está sendo, na maioria das cidades. A fatura do vírus chegou primeiro para os desempregados e trabalhadores “por conta própria”, que perderam sua fonte de renda e dependem do auxílio emergencial do governo. A ideia de uma recuperação econômica rápida, acalentada pelo ministro Paulo Guedes, porém, não tem sustentação técnica. A conta está chegando para os demais à prestação.

Nas Entrelinhas - Luiz Carlos Azedo, jornalista - Correio Braziliense


quarta-feira, 22 de abril de 2020

A praça vazia - O Globo

Ao seu crescente desprestígio a velhice somou sua vulnerabilidade ao novo vírus

Escrevo, com muito receio, neste começo de minha primeira pandemia. Tenho o duvidoso privilégio, pela idade e outras agravantes, de estar no grupo de alto risco. Melhor, assim, escrever logo estes comentários.  A inquietante constatação é ver a velhice como vítima favorita do novo vírus. Em calamidades anteriores — seja porque os velhos eram muito poucos e os muito velhos mais escassos ainda e porque nas guerras e conflitos eram os moços que iam lutar e morrer —, não costumavam ser os idosos os alvos preferidos. A Gripe Espanhola que é a minha epidemia de referência —, pelo que sei, foi ecumênica em suas vítimas. O cólera e a peste negra, também. Havia mesmo doenças que, em boa medida, pareciam poupar os mais velhos. A poliomielite tinha entre nós o nome caseiro de paralisia infantil, o que parece sugerir qual era seu alvo favorito. A tuberculose procurou, durante seu longo reinado, sobretudo os mais jovens, e toda a arte romântica comemora este fato. O começo da vida, até pouco tempo atrás, parecia quase tão perigoso quanto o seu fim.

A velhice, além do prestígio que vinha da escassez de seus números, presumia mesmo uma medida de imunidade e resiliência dos que haviam chegado tão longe. É bom acentuar aqui a extraordinária novidade que a velhice numerosa e crescente de hoje representa. Antes os velhos tinham o prestígio de serem os depositários de uma coisa então valiosa, que recebia o nome genérico e respeitoso de experiência, e de que era subproduto quase que natural uma coisa ainda melhor avaliada que chamávamos de sabedoria.

A imensa velocidade da incorporação da ciência e das tecnologias nos últimos anos fez com que essa lenta sedimentação de conhecimentos trazida pela passagem dos anos ficasse menos relevante e pudesse mesmo ser vista hoje não como uma luz que ilumina o caminho pela frente e explica o trajeto já feito, mas possa parecer uma irrelevante perda de tempo e de rumo. Ao seu crescente desprestígio a velhice somou agora a fragilidade adicional de sua vulnerabilidade ao novo vírus e corre o risco de provocar uma impaciência crescente da sociedade com os custos necessários para protegê-la. Os mais moços já davam sinais de exasperação, e as batalhas sobre reformas previdenciárias aqui e em outros países eram o sinal desta nova realidade. A indagação é saber até que ponto o futuro aceita ser refém do passado, em outras palavras, que valor a sociedade atribui aos mais velhos que teimam em se multiplicar e a exceder, largamente, seus prazos originais de validade.

Acredito que o coronavírus veio precipitar a urgência de uma ampla negociação entre moços e velhos e, para essa urgente releitura do contrato social, a atual crise talvez tenha servido como o gatilho necessário. Mudo de registro. Depois de semanas de incessante ócio, quero compartilhar algumas poucas imagens destes dias que em mim devem perdurar. A primeira é de um imenso porta-aviões norte-americano dotado de armas de última geração e fragilizado por um número crescente de marinheiros doentes que seu comandante corajoso quis proteger. O comandante foi sumariamente demitido, já que a publicidade que cercou a inesperada vulnerabilidade da sua moderna fortaleza não estava prevista nos manuais. O inimigo não estava lá fora. Já estava dentro.

A segunda é de uma Casa Branca e de um Palácio da Alvorada conduzidos por insensatos que, buscando reeleições, não enxergam o óbvio.  A minha imagem mais duradoura deste período é, contudo, a da Praça de São Pedro, em Roma, vazia sob a chuva para escutar o Papa estender à cidade e ao mundo a sua bênção. Praças foram feitas para acolher multidões e para isso seu tamanho e situação. Aquela apenas parecia vazia. Uma imensa audiência virtual assistia, comovida e esperançosa, à comunhão da mais cosmopolita das religiões, com sua cidade-sede e com o mundo ao redor. O jogo continua.

Marcos Azambuja,  diplomata - Jornal O Globo



sexta-feira, 13 de março de 2020

Ilustre passageiro - Nas entrelinhas

“”A reação dos países à epidemia é proporcional à envergadura de seu sistema de saúde, esclarecimento da população e escala de medidas de contenção por parte dos governos” 

Um dos mais famosos “cases” da propagada brasileira é um anúncio de bondes: “Veja, ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que o senhor tem ao seu lado. E, no entanto, acredite, quase morreu de bronquite, salvou-o o Rum Creosotado”. O poeta Bastos Tigres levou a fama, mas a autoria seria do farmacêutico Ernesto de Souza (1864-1928), criador da fórmula, que até hoje serve de exemplo nas escolas de comunicação, por causa da simplicidade de seus versos. De acordo com o anúncio publicado no jornal Correio da Manhã, de 8 de agosto de 1920, a fórmula do Rum Creosotado, produzido pela centenária Drogaria Granado, era mesmo aquela que aparece na propaganda, com “fartos elementos para a hygiene dos pulmões”: iodo, hypophosphito de sódio (NaH2PO2), e de cálcio [Ca(H2PO2)2]. Naquela época, como grande público tinha baixa escolaridade, os versos e a ilustração facilitavam a propagação do anúncio boca a boca.

Seu principal concorrente era o Biotônico Fontoura, criado em 1910 pelo médico Cândido Fontoura para sua esposa. Seu amigo Monteiro Lobato, que tomava o produto para combater o cansaço, batizou a fórmula exaltando suas propriedades e o nome do criador. O Biotônico ganhou muita fama por causa da Lei Seca dos Estados Unidos (1920-1933), para onde foi exportado e fez muito sucesso como remédio que podia ser comprado nas farmácias, mas que servia para aliviar a abstinência dos beberrões, por causa do teor de 9,5% de álcool. No Brasil, era usado como abridor de apetite das crianças, misturado com leite condensado e ovos de pata, um coquetel antianêmico. Em 2001, a Anvisa proibiu que produtos destinados às crianças tivessem qualquer quantidade de álcool em sua composição, razão pela qual o produto foi modificado, ganhando os sabores morango e uva, sem álcool, para as crianças. Rico em ferro, é vendido até hoje, por R$ 26.

A propósito do tipo faceiro, ilustre passageiro ao lado, era o caso do secretário de Comunicação da Presidência da República, Fábio Wajngarten, que viajou aos Estados Unidos com o presidente Jair Bolsonaro e seus familiares e está com coronavírus. Toda a comitiva presidencial — parentes, ministros, assessores civis e militares, parlamentares — fez exames ontem para saber se alguém mais foi contaminado. Fábio está em isolamento, depois de fazer novo exame em São Paulo; o resultado da contraprova confirmou a infecção. Bolsonaro, a primeira-dama Michelle e o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente da República, fizeram o teste no Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência da República, e não apresentam sintomas da doença.

Desdenhar do coronavírus é a mesma coisa que acreditar que o Rum Creosodato resolveria o problema dos pulmões, numa época em que a penicilina não havia sido descoberta e, por isso mesmo, não existiam antibióticos capazes de curar a tuberculose, e a pneumonia era quase fatal. Essa suposição é alimentada pela baixa letalidade da epidemia (entre 0,5% e 3,5% dos infectados), que atinge grupos de risco (cardiopatas, diabéticos e idosos). O problema é a velocidade da propagação da epidemia, que aumenta sua letalidade por causa da incapacidade de o sistema de saúde atender o crescimento exponencial de casos graves, que exigem entubação dos pacientes em leitos de UTIs.  Até a volta dos Estados Unidos, Bolsonaro tratava o assunto de forma até leviana, comparando o coronavírus a uma simples gripe e culpando a imprensa — sempre ela — pelo justificado temor que se disseminou na população, o que é muito diferente de pânico.

Escolhas
Trata-se de uma escolha de Sofia
(decisão difícil sob pressão e enorme sacrifício pessoal, como a vista no filme homônimo de 1982, que valeu a Meryl Streep o Oscar de melhor atriz), entre a redução das atividades da sociedade, principalmente as aglomerações e circulação das pessoas, com consequente redução da atividade econômica, ou o colapso do sistema de saúde, sem leitos, máscaras, tomógrafos, respiradores e outros equipamentos para quem precisa, provocando o aumento do número de mortos. A capacidade de reação dos países à epidemia é mais ou menos proporcional à envergadura de seu sistema de saúde, nível de esclarecimento da população e escala de medidas de contenção da epidemia por parte dos governos.


O caso da China proporcionou aos especialistas da Organização Mundial de Saúde (OMS) um estudo do comportamento da doença em diversas regiões do país, que está servindo de paradigma para o enfrentamento da epidemia, sobretudo depois do colapso do sistema de saúde da Itália, que é um dos melhores do mundo. As ruas desertas das cidades italianas escondem o drama terrível dos hospitais lotados, onde não se morre só de coronavírus, mas de câncer, ataque cardíaco, traumatismo craniano, pneumonia e até gripes comuns, por falta de leitos de UTIs.

O Brasil vai contratar 5 mil médicos pelo Programa Mais Médico e direcionar 2 mil leitos de UTI para o tratamento de pacientes com Covid-19 pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O secretário executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo, em entrevista coletiva, revelou que o nível de preocupação com leitos aumentou após registros dos casos na Itália. Ontem, em Florianópolis (SC), prefeitos das capitais e das principais cidades do país, se reuniram para discutir medidas de combate ao coronavírus. Ninguém se iluda, o sucesso no combate ao coronavírus precisa de medidas governamentais corajosas, dos prefeitos e dos governadores, para reduzir a velocidade de propagação da epidemia e contê-la, poupando vidas.

Nas Entrelinhas - Luiz Carlos Azedo - Correio Braziliense


segunda-feira, 19 de março de 2018

Sistema prisional - os horrores de uma prisão no Rio Grande do Norte


O que aprendi acompanhando por um ano a vida dos detentos no presídio de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte 

Venho acompanhando as famílias de presos da penitenciária de Alcaçuz desde o massacre de 26 presos que aconteceu em 14 de janeiro do ano passado. Sou professora de antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, moro em Natal e fui para lá no dia seguinte, de manhã. Encontrei várias mulheres — mães, irmãs e esposas — desesperadas. Dentro da cadeia, uma situação sistemática de torturas se estabeleceu a partir dessa época — e persiste até hoje. O que acontece em Alcaçuz, localizada em Nísia Floresta, a 25 quilômetros de Natal,  é uma morte lenta: presos são espancados, eletrocutados, insultados, privados de comida, privados de água, privados de exercer sua religião, e suas famílias são maltratadas quando vão visitá-los.

Trabalho acompanhando o sistema prisional há um bom tempo, mas não tinha noção da intensidade da tortura que temos no Brasil, algo legitimado socialmente e pelas instituições jurídicas, que se negam a reconhecer sua existência. Parece mentira. Aquilo é um campo de concentração. Testemunhamos ali o poder do Estado de matar. Se eu estivesse lá dentro, enlouqueceria. Tudo que eu iria querer seria fugir dali, porque é humanamente impossível viver em condição tão horrível. E há presos provisórios, gente com transtornos mentais, pessoas que nem deveriam estar ali.

>> O legado de violência deixado pela usina de Belo Monte

Depois do massacre do ano passado, nos primeiros dias os presos começaram a ser privados de água. Em meados de 2017, 30 a 35 homens chegaram a ficar, e ainda ficam, em uma cela que deveria comportar apenas oito. A eles só eram oferecidos 2 litros de água por dia. Todos deveriam dividir esses 2 litros para beber. Outra coisa que angustiou muito as famílias foi a privação alimentar. Antes, as visitas levavam no final de semana algum alimento para complementar a dieta, que é muito restrita. Isso foi proibido. Mães viram seus filhos emagrecer drasticamente. Continua acontecendo.

O secretário de Justiça, Luís Araújo, disse que, se permitisse às famílias levar a comida para lá, os presos fariam trocas, o que criaria uma hierarquia na cadeia. Isso já está acontecendo. O estado fornece três refeições diárias: um suco em pó e um pão pela manhã; à tarde uma quentinha malcheirosa e podre; à noite mais um pão e um suco em pó. Isso é a alimentação deles. E alguns passam fome para vender aos outros sua cota diária. Não são todos que fazem isso, mas existe um comércio. Um pão de sal é vendido por R$ 20 dentro de Alcaçuz. [vale ter presente que os presos estão na cadeia pela opção que fizeram: o crime; é lamentável o tratamento dado a eles mas pior são milhões de brasileiros, grande maioria crianças e idosos, passam fome por não ter um emprego, pelo pai ter sido assassinado por um dos que hoje estão merecidamente encarcerados.
Se o Brasil não pode dar boas condições de vida para as pessoas de BEM, para os doentes, não tem sentido dar boa vida para bandido.]

A água para higiene é ligada por meia hora, três vezes ao dia. Os agentes ligam às 6 da manhã, ao meio-dia e às 18 horas. Depois cortam. Nessa meia hora, os presos têm de tomar banho, escovar os dentes e lavar a pouca roupa que há. Eles estão sem lençol e sem colchão. Dormem no chão ou em camas que na verdade são blocos de concreto. Eles têm praticamente a roupa do corpo. Os produtos de higiene que as famílias enviam não chegam a eles. No ano passado, alguns tiveram de compartilhar até escova de dentes. O acesso a bens de higiene é muito restrito. Há vários casos de doenças como hepatite, tuberculose, doenças de pele, sífilis e aids.

>> A associação de esquemas criminosos que levou à chacina de Pau d’Arco, no Pará

Insultos morais acontecem o tempo todo. Uma mulher nos contou as coisas que seu marido ouviu de um agente: que eles eram “um bando de veadinhos”, que eles podiam reclamar à vontade que nenhuma denúncia iria surtir efeito e que o “bom-dia” deles é com spray de pimenta mesmo. E spray de pimenta é a coisa que mais existe lá. Se for até a frente de Alcaçuz e observar de fora os agentes penitenciários, vai ver que todos eles usam uma espécie de cachecol protegendo as vias aéreas. Por quê?  Além da tortura pela privação do acesso à água, à comida e à higiene, há os espancamentos. Uma mãe que fala: “Juliana, meu filho está apanhando tanto que não sabe mais quanto tempo vai aguentar”. Elas contam que seus filhos têm marcas de hematomas nas costas e nas costelas e os dedos de suas mãos são quebrados.

(...) 

Se pedir água, apanha; 
se pedir para tomar banho, apanha; 
se pedir um remédio, apanha; 
se estiver dormindo e não ouvir o agente chamando para o “procedimento”, apanha de novo. 

Para os choques elétricos, eles fazem uma fila, um encostando no outro, sendo que o último segura na porta de ferro. O agente dá um choque em todos de uma vez, atacando o primeiro da fila com a Taser, uma pistola de descarga elétrica. Também há relatos de as celas terem sido por vezes inundadas com água sanitária, e os presos terem de ficar lá dentro nus, sem poder sentar ou deitar a noite inteira.

(...)
Outro tipo de tortura é chamado de “Procedimento”. Quando os guardas passam gritando essa palavra, o preso tem de ficar sentado no chão, com as pernas abertas e dobradas, cabeça baixa e as duas mãos na nuca. O seguinte senta na mesma posição, logo em frente, entre as pernas do anterior, de costas para ele. E assim eles formam uma fila, um atrás do outro, com as mãos na cabeça. Os agentes passam dando cacetadas nos dedos das mãos. Isso acontece a qualquer momento. Se estiver tomando banho e ouvir o chamado, o preso tem de sair correndo e entrar no procedimento. Acontece dentro das celas, nos pátios, nos corredores, onde eles estiverem. Presos oferecem as costelas, porque não aguentam mais apanhar nos dedos quebrados.

 

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

O calvário de uma mãe para sepultar o filho



Rapaz morreu em um presídio. Equipe do GLOBO acompanhou o périplo da mãe dele por cinco dias





Descaso, burocracia e corrupção - O calvário  para sepultar o filho morto em presídio do Rio

Com um corpo médico incapaz de atender uma população carcerária crescente – apenas 56 profissionais para 50 mil prisioneiros espalhados pelo estado –, dobrou em três anos o número de presos mortos no sistema penitenciário fluminense. Um dos 230 óbitos registrados este ano (até o momento) foi o de William, mineiro de 29 anos, morto por tuberculose, doença que ele pode ter contraído na prisão. Acompanhamos o drama de sua mãe, que enfrentou descaso, burocracia e corrupção para enterrar o filho.

Sexta-feira: número desconhecido

O celular toca, mas a dona de casa Isa Maria dos Santos, de 51 anos, está ocupada na cozinha. É sexta-feira, 17 de novembro, hora do almoço. Enquanto serve o prato de Marcelinho, seu filho caçula, pede ao marido para ver quem é: número desconhecido. Do outro lado da linha, um homem se apresenta como Breno, “funcionário do serviço social do presídio Ary Franco”. Em poucas palavras, informa que William Carvalho dos Santos, preso desde julho, acusado pelo roubo de um celular na Praia de Icaraí, em Niterói, morreu na noite anterior, após passar mal e ser levado para a UPA do Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, a 25 quilômetros de distância do Ary Franco.

“Como ele morreu?", quer saber Marcelo, padrasto de William. O homem não diz – dá o número da UPA e se despede. Isa emudece ao receber de Marcelo a confirmação do que acabara de ouvir: seu primeiro filho, que veio com ela de Andrelândia, cidade mineira de 12 mil habitantes, está morto. O telefonema dá início a um calvário na vida da mãe. Naquela mesma sexta-feira, ela telefona diversas vezes para a UPA de Gericinó até ser atendida, no fim da noite. Um funcionário da equipe médica conta que o corpo está no local, mas que seria logo transferido para o Instituto Médico-Legal de Campo Grande. Diz mais: que William chegou à unidade sem vida, ao contrário do que o servidor do Ary Franco informou mais cedo.

Sábado: família vem de Minas  

                           William ao ser preso em 2014 - Reprodução


William tinha 29 anos. Era negro, alto e forte como o avô materno, Luiz Carlos dos Santos, de 75 anos, que sempre se divertiu com as graças do neto. No começo da adolescência, William voltou a morar em Andrelândia com o avô, tios e primos. Quis saber nessa época quem era seu pai – que não o assumiu quando Isa, uma mulher simples e de olhar bondoso, engravidou – e pediu ao padrinho que os apresentasse. Ele tentou marcar um encontro, mas o pai não apareceu. - William sentiu muito. Ele queria ter um pai - lembra sua mãe.

Assim que soube da repentina morte do neto, seu Luiz Carlos arrumou uma pequena mala com algumas peças de roupa. Vieram com ele, de carro, três primos de William. Cinco horas de estrada mais tarde, a família se reunia na casa de Isa, no subúrbio de Niterói. O corpo ainda não havia sido levado para o IML de Campo Grande. Isa e Marcelo ligavam para o local de hora em hora, às vezes em intervalos menores, perguntando a todo momento se o corpo já havia sido transferido para lá. A resposta era sempre negativa. Se não estava no IML, onde estaria?


Domingo: um corpo esquecido  
 Pouco depois das 8h, Isa e seu marido entram em um ônibus da linha 484 (Alcântara – Niterói) e, depois, vão de barca até a Praça Quinze. Pedem ajuda ao plantão judiciário do Tribunal de Justiça fluminense, onde são atendidos pela defensora pública Juliana Naliato. Na tentativa de ajudá-los, emite ofícios para diversos órgãos pedindo urgência no caso, além de um enterro gratuito para William.


Isa e Marcelo saem do plantão às 13h e vão para a 34ª DP (Bangu), a 50 quilômetros dali. O inspetor que os atende encontra o registro de ocorrência da morte de William, feito por um servidor da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap), e percebe um erro: seu colega, que havia feito o registro, dois dias antes, esqueceu de pedir a remoção do corpo. Isa volta para casa no fim da tarde com um punhado de papéis carimbados pela defensora pública – documentos que ela não compreende exatamente o que são – e o coração pesado como nunca. Esqueceram seu filho numa geladeira de Gericinó.


Segunda-feira: como ele morreu? 
 

Galeria do presídio Ary Franco, em Água Santa, considerado o pior cárcere do Rio - Daniel Marenco m 16/12/2015 / Agência O Globo


O dia mal amanhece e já é hora de sair. Por telefone, a família de William finalmente confirma a chegada do corpo ao IML. Eles pegam dois ônibus, uma barca e, duas horas de trajeto depois, chegam ao destino. Com os ofícios de gratuidade em mãos, Isa vê pessoas serem cobradas para liberar os corpos. É informada de que ela também precisará desembolsar R$ 150 para tirar o corpo de seu filho daquele lugar, mas não naquele momento. É preciso voltar ao plantão judiciário do Tribunal de Justiça para saber em qual cemitério será o enterro gratuito. Como a família prefere levar o corpo para Niterói, escolhe-se o Cemitério Maruí, fundado em 1855, no Barreto. Às 19h30m, Isa e Marcelo voltam para casa exaustos.  - Deus nos ajude amanhã - diz a mãe, prevendo dificuldade antes de passar mais uma noite em claro. 

Até aquele momento, Isa não sabe como o filho morreu. Não falava com ele há quatro meses, desde que William telefonou de dentro do presídio, usando o celular de um colega, para avisar à mãe que estava preso. Suspeita que ele tenha sido vítima da tuberculose diagnosticada em fevereiro, menos de dois meses após deixar o mesmo presídio Ary Franco, considerado o pior cárcere do Rio, infestado de ratos, morcegos e baratas. É possível que ele tenha se contaminado no local.

Marcelo conta que o enteado conseguiu um emprego como faxineiro de um condomínio residencial em fase de acabamento. Em seu Facebook, as últimas fotos mostram um homem orgulhoso de si por estar trabalhando, sempre sorrindo com o uniforme de sua empresa. No começo de junho, a firma perdeu o contrato de limpeza e dispensou William.

Sua vida mudou: ele, que dormia no sofá da sala, começou a sair e não avisar à mãe aonde ia. Dizia que estava namorando, mas nunca apresentou a namorada a ninguém. No dia 29 de junho, caminhava na Avenida Sete de Setembro com uma mochila nas costas e um guarda-chuva na mão. Uma viatura policial o achou suspeito. William foi revistado e, com ele, os policiais encontraram um celular roubado e um cordão. Os autores da prisão divulgaram fotos de William sob poder do estado em uma página do Facebook: "Preso ladrão de Icaraí", dizia a postagem.

William foi levado para a 77ª DP (Icaraí), a mesma de quatro anos antes, quando foi preso pela primeira vez ao ser reconhecido na rua por uma mulher que teve o celular roubado.  – Ele estava tentando mudar, a gente via que ele se esforçava, mas não conseguia. Se continuasse trabalhando acredito que não teria voltado a roubar – lamenta Marcelo.

Ao acordar, Isa vai ao cemitério. Apesar do pedido de gratuidade da defensora, é informada que somente o velório e o sepultamento são de graça.  - Apesar da lei de gratuidade, o município não está arcando com essas despesas há algum tempo. Tem que ser particular - diz o servidor que a atendeu.  Chamam uma funerária pequena que funciona perto do cemitério e cobra R$ 650. Cansada e sem poder esperar mais um dia para enterrar o filho, ela paga o valor, ajudada por parentes e amigos. A empresa buscaria o corpo no IML de Campo Grande ao meio-dia, na companhia da mãe.


Mas o funcionário Luiz Fernando deixa Isa em casa alegando que precisava antes remover um cadáver em Tribobó, São Gonçalo. O carro, um modelo Palio Weekend improvisado, com o banco rebaixado para caber o caixão, foi buscá-la somente às 15h - uma hora antes do horário agendado para o enterro. Percorrer os 70 quilômetros de distância até o IML foi desesperador. A Avenida Brasil estava parada. A mãe só chegou ao instituto às 17h. Antes de ir embora, o homem da funerária pede à Isa R$ 150, entra em uma sala e volta de mãos vazias. A mãe pede um recibo: "Vai me complicar", disse Luiz Fernando.

Em agosto, uma operação no IML de Campo Grande parecia ter colocado fim a um esquema de corrupção que lucrava R$ 150 mil por mês, segundo investigação do Ministério Público estadual e da Corregedoria da Polícia Civil. Foram presos na ocasião o vereador Gilberto de Oliveira Lima (PMN), o então diretor do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE), Sérgio William Silva Miana, e o comissário Franklin Silva da Paz, que chefiava a unidade – os dois primeiros já a dirigiram. Os investigadores descobriram que o “pedágio da morte” existia desde 2014.

A informação de que o esquema continua é confirmada pelo dono de uma funerária: “Lá é assim que funciona: às vezes cobram R$ 150, outras vezes R$ 200”.  – Achei que aquela ação fosse acabar com o esquema. É a miséria humana em estado bruto, que tem um braço junto às funerárias e junto ao setor médico também. As investigações continuam, os três permanecem presos. Felizmente as prisões têm sido mantidas pelos tribunais superiores. Dia 4 de dezembro, haverá a sessão de julgamento sobre este caso, para decidir se a denúncia será recebida ou rejeitada e se a prisão deles será mantida – afirma o promotor de Justiça Túlio Caiban Bruno, responsável pelo caso.

Em nota, a Polícia Civil afirma que trocou a direção do posto de Campo Grande do IML por determinação da direção do Departamento Geral de Polícia Técnico-Científica (DGPTC). A nota afirma ainda que "por ordem expressa (ordem de serviço) ficou proibida a entrada de funcionários de funerárias (agenciadores) no posto, sob pena de crime de desobediência".
"Sendo certo que o delegado titular de Campo Grande está ciente, e se colocou à disposição para encaminhar policiais da equipe dele para o local, em caso de descumprimento", diz a nota, que pede ainda que a pessoa que pagou entre em contato "a fim de formalizar tal denúncia, pois estará nos prestando um serviço".

A nota diz ainda que foi determinado que o diretor do posto "identifique o corpo oriundo da SEAP, liberado na semana passada, para que possamos ouvir a pessoa que fez a liberação, bem como o parente do morto".
Quando Isa chega ao cemitério com o corpo do filho, passa das 19h. Cinco coveiros foram obrigados a esperar, por ordem do administrador. Ele mesmo ficou até mais tarde no serviço, pois o cemitério fecha às 18h. Mas Isa e sua família precisariam ter mais paciência. Por causa do atraso da funerária, o cartório de Bangu já estava fechado quando o corpo foi liberado. Ela não teve tempo de emitir a certidão de óbito obrigatória para realizar o enterro. A mãe desabou ao ser informada pelo administrador de que não haveria enterro aquela noite. O corpo de William passaria a madrugada na capela H, com um ventilador barulhento ligado o tempo todo sobre o caixão para manter a sala minimamente resfriada.


Doze pessoas que amavam William estão ao redor do seu corpo na capela H. Isa chega depois, pois teve que ir ao cartório de Bangu para obter a certidão de óbito. É uma reunião silenciosa de mulheres e homens negros, trabalhadores, religiosos. O velório é feito com caixão aberto. Apesar da morte ter sido há seis dias, o rosto tem boa aparência. Não está tão magro nem tão pálido quanto se poderia supor, e os músculos da face estão relaxados. A família sente um inesperado conforto ao vê-lo assim: bonito. William estava em liberdade condicional. Apenas três dias antes de ser preso novamente, compareceu em juízo para assinar seu nome. – Sinto que fracassei – desabafa Marcelo durante o velório, chorando muito, antes de ser abraçado pela família.


Segundo o defensor público Marlon Barcellos, coordenador do Nuspen (Núcleo do Sistema Penitenciário), não faltam medicamentos para tuberculose nos presídios do Rio – faltam médicos.

Em resposta ao GLOBO, a Secretaria de Administração Penitenciária informou que são 56 médicos trabalhando no sistema. O promotor acha pouco para 50 mil presos, o que corresponderia a 1 médico para cada 892 presos. Um levantamento feito em 2015 pelos conselhos Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) e Federal de Medicina (CFM) aponta que a média para o país é de 2,11 médicos para cada grupo de mil pessoas.

Na mesma resposta, a Seap disse que a tuberculose de William não foi diagnosticada, mas o laudo do IML aponta infecção pulmonar como causa da morte.  – Este ano, já morreram 232 pessoas nas prisões do estado. Ano passado foram 254. Morre-se muito, de um modo geral. Há três anos morria menos da metade. Culpa da superlotação e da ineficiência do serviço médico. Quando um preso precisa de médico, precisa ser levado para a UPA de Gericinó, mas faltam motoristas e até carros para fazer esse transporte. Quando um preso está em estado grave, quem decide se ele será ou não levado ao médico é o agente penitenciário. Não é um critério médico – afirma o defensor.


Segundo ele, um preso pode demorar até três semanas para conseguir ser transportado, uma vez feito o pedido:  – Pode ter havido omissão, nunca vamos saber. Ele pode ter morrido no Ary Franco, onde já morreram 15 este ano, e foi levado à UPA para confirmar o óbito, ou pode ter morrido no caminho, depois de ter havido negligência. Uma coisa é certa: as unidades prisionais tentam se livrar do corpo para se livrar da sindicância que é feita, ou deveria ser feita, após a morte de um preso.

A Seap confirma que, nos presídios fluminenses, o transporte dos internos para a unidade médica de Gericinó é controlado pelos agentes penitenciários, uma vez tendo sido acionados pelos outros presos quando um deles está passando mal. Mas, segundo a assessoria de imprensa da pasta, o serviço é imediato: assim que um preso necessita de socorro, uma viatura do Serviço de Operações Especiais (SOE) é convocada pelos agentes para levá-lo. A secretaria nega que William tenha ficado muito tempo à espera de atendimento médico.  Um coveiro se aproxima para levar o corpo de William. Quando o caixão é fechado, Isa desaba. “Vai com Deus, filho”, diz, enquanto o corpo é levado para longe dela. Pouco depois das 12h, o caixão é colocado na gaveta 337 e sua entrada é vedada com um bloco de concreto. Seis dias após a morte, Isa consegue enterrar seu filho.

O Globo

 

 


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