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domingo, 17 de abril de 2022

O coquetel da direita populista - Blog Mundialista

VEJA

A receita: ideias tradicionais e propostas “esquerdizoides” 

Reindexar as aposentadorias à inflação, reverter a privatização das estradas para diminuir a tarifa dos pedágios (e como são caros na França!) e ter um estado indutor do crescimento econômico são algumas das propostas que levaram Marine Le Pen ao segundo turno da eleição presidencial, com uma projeção de conseguir inéditos 45% dos votos. Nenhuma delas evidentemente constaria do programa de qualquer político conservador no sentido tradicional, de defesa do estado menor e menos interventor.

 Orbán ganhou no começo do mês uma quarta vitória na Hungria, “tão grande que pode ser vista da lua”. A ironia vai na conta dos prognósticos insistentemente repetidos de que a oposição unida, a afinidade com Putin em plena guerra na Ucrânia e uma poderosa expressão de desejos progressistas bastariam para encerrar a carreira do primeiro-ministro. Seis de cada dez húngaros têm uma ideia diferente: gostam da política de direita não tradicional, que mistura impostos baixos para as empresas e remunerações reduzidas para os desempregados com controles das tarifas de energia e incentivos às indústrias locais nos setores onde podem ser competitivas. Laissez-faire e protecionismo, uma combinação esquizofrênica, criaram um coquetel húngaro que não tem similar no panorama político atual. Marine Le Pen provou dessa mistura.

A direita partidária do protecionismo e do Estado interventor não é exatamente uma novidade, em especial no Brasil, onde estes foram fundamentos constitutivos da ala dominante do regime militar. O toque de populismo do século XXI é a preocupação zero com a clonagem de propostas tiradas do ideário esquerdista tradicional. Outro componente fundamental é o apelo a pulsões nacionais em sociedades que se sentem ameaçadas pela imigração em massa. Foi assim com Donald Trump nos Estados Unidos, com a ideia do muro que nunca foi construído na fronteira com o México, onde o descontrole atual é um dos fatores que podem custar uma derrota catastrófica para o Partido Democrata em novembro próximo. Foi assim com Viktor Orbán, quando grandes massas humanas vindas de países orientais ameaçaram a estabilidade da Europa.

E está sendo assim com Marine Le Pen, cujo clã se ergueu com base na rejeição aos imigrantes muçulmanos não integrados à sociedade francesa. Agora, com as consequências econômicas da pandemia e a pancada do aumento de preços no bolso das camadas onde o salário acaba antes do mês, ela reajustou o foco. Numa de suas tiradas famosas, Charles de Gaulle dizia que “a pior calamidade depois de um general burro é um general inteligente”. A candidata precisar demonstrar até o dia 24 se ganhou inteligência política para conquistar os poucos pontos que fazem a diferença entra derrota honrosa e vitória espantosa junto a um eleitorado onde o nome Le Pen tem sido visto, majoritariamente, como uma calamidade sem tamanho.

Vilma Gryzinski, colunista - Blog Mundialista 

Publicado em VEJA,  edição nº 2785,  de 20 de abril de 2022

 

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Como Putin converteu Rússia em 'potência masculina mundial' e inspirou líderes como Trump e Bolsonaro - BBC

  • Mariana Sanches - @mariana_sanches
  • Da BBC News Brasil em Washington
Putin e Bolsonaro se cumprimentam durante encontro em 2019

Crédito, Marcos Corrêa/PR - Putin e Bolsonaro já se encontraram anteriormente, em novembro de 2019

Presentes eróticos para comemorar o aniversário de Putin, no poder na Rússia há mais de duas décadas, são apenas um elemento da exaltação pública costumeira a uma característica central na personalidade do líder russo. Putin se tornou um modelo de virilidade e masculinidade a inspirar políticos ao redor do mundo, como o americano Donald Trump, o húngaro Viktor Orban e o brasileiro Jair Bolsonaro, que embarcou nesta segunda-feira (14/2) para Moscou com objetivo de se reunir com o chefe de Estado russo.

Além do episódio do helicóptero dos bombeiros, Putin já se deixou fotografar em uma série de situações másculas. Derrubou adversários num tatame em lutas de judô. Examinou os dentes de um urso polar no Ártico e de um tigre na Sibéria, ambos anestesiados. Pilotou um submarino e um barco e voou em uma espécie de asa delta motorizada

Posou de rifle em punho (e sem camisa) durante caçada na Sibéria. Surgiu de dorso nu em cavalgadas e pescarias. Preparou um churrasco. Exibiu-se com uma pistola em um estande de tiro ao alvo. Ou apenas apareceu em roupas esportivas enquanto treinava os músculos do peitoral, na academia. 

Nenhum dos registros foi fortuito, fruto do trabalho de fotógrafos paparazzi. "É um trabalho de imagem pensado e executado pelo Kremlin. E, como a internet ainda é largamente livre na Rússia, se algo escapa ao controle e ofende ou desagrada, o governo russo pune", disse à BBC News Brasil Valerie Sperling, professora da Clark University, em Massachussets, e autora do livro Sex, Politics and Putin (Sexo, Política e Putin, em tradução livre).

Com altas taxas de popularidade, mesmo quando descontada a possível coerção sobre a população em um regime crescentemente autoritário, especialistas argumentam que Putin deve ao menos em parte ao perfil "machão" a admiração que inspira nos russos.

 Da comida à religião: as semelhanças entre Rússia e Brasil

Matrix: a origem e o polêmico legado do filme no mundo real

Putin

Putin já se deixou fotografar em uma série de situações másculas - Getty Images

Ao chegar ao poder, no fim dos anos 1990, Putin passou a comandar um país que tentava se reerguer dos escombros da União Soviética. O bloco soviético implodira em 1991, e os russos se viam diante de questionamentos de identidade profundos, tendo que se acostumar ao capitalismo, lidar com o fracionamento do território e com a perda do status de potência global. 

"Havia uma sensação de derrota generalizada, uma instabilidade econômica forte, com a desvalorização da moeda russa, e a derrota na Guerra Fria. A fragilidade era ainda mais evidente entre os pais de família russos, gente em seus 30, 40 e 50 anos que tinha perdido suas economias e seus empregos, que já não conseguia mais sustentar a família enquanto via jovens enriquecendo em novos negócios, e que era alvo de abertas críticas, por sua ausência na vida familiar, por violência doméstica e por problemas como o alcoolismo", afirma Amy Randall, professora de História da Santa Clara University, na Califórnia, e organizadora da edição especial "Masculinidades soviéticas", da publicação acadêmica Estudos Russos em História.

De acordo com Randall, a humilhação e o constrangimento russos perante o mundo nos anos 90 acabaram personificados pelo então líder do país, Boris Yeltsin, flagrado bêbado e em atitudes embaraçosas em eventos internacionais. Ele chegou a fingir que regia uma orquestra em uma solenidade militar e deu declarações sobre o desejo de desarmamento nuclear russo depois de passar da conta na bebida, tendo que ser desmentido por seus auxiliares.

Relativamente desconhecido do grande público, Putin surge no cenário político russo pelas mãos de Yeltsin, a quem viria a suceder. "Putin oferece aos russos essa imagem sóbria de agente durão, das artes marciais, egresso da KGB (o serviço secreto soviético). Se apresenta como o homem que iria levantar a Rússia, então de joelhos, e reestabelecer sua força no cenário internacional", diz Sperling.

É claro que não só de imagem se construiu a trajetória de Putin. Sob seu comando, o Exército russo retomou o controle da Chechênia, invadiu a Geórgia e anexou a Crimeia. Agora, o país vive às voltas com a possibilidade de um conflito armado com a Ucrânia. Desde o fim do ano passado, Putin mantém mais de cem mil soldados na fronteira entre os dois países e exige que a Ucrânia não seja admitida na Organização do Tratado do Atlântico Norte, a OTAN, uma aliança militar liderada por EUA e Europa Ocidental que Putin vê como ameaça à segurança de seu país.Putin e TrumpSegundo professora Amy Randall, Trump tomou seu slogan ("fazer os EUA grandes outra vez) de empréstimo de Putin 

"Sob a liderança de Putin, a Rússia tem se estabelecido como uma potência masculina mundial, exibindo sua virilidade política, sua independência econômica e seu poderio tecnológico e militar. Putin deve sua popularidade - e sua habilidade de se manter por tanto tempo no poder - a mecanismos como seu nacionalismo masculinizado, à ambição de fazer a Rússia grande outra vez, ao seu uso de ideais patriarcais e à noção das diferenças de papéis sociais entre gêneros, além da aberta homofobia".

 'Melhores qualidades masculinas'
Foi a partir dessa perspectiva que Putin disse, em novembro de 2020, que Jair Bolsonaro apresentava "as melhores qualidades masculinas" no comando do Brasil. O elogio aconteceu durante o discurso do mandatário russo no encontro dos BRICS, bloco composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, e fazia referência ao modo como Bolsonaro lidou com a pandemia de covid-19. 

"Você até foi pessoalmente infectado por essa doença e resistiu à provação com muita coragem. Sei que aquele momento não deve ter sido fácil, mas você o encarou como um verdadeiro homem e mostrou as melhores qualidades masculinas, como força e força de vontade", disse Putin, segundo transcrição que o próprio governo brasileiro postou.

No léxico de Putin, esse é um elogio típico de quem pretende agradar e conhece bem o interlocutor. Bolsonaro já repetiu a performance de Putin em situações altamente fotografáveis: ele nadou em mar aberto, comandou motociatas, praticou tiro ao alvo, pilotou uma churrascada, jogou futebol, deu cavalo de pau em carro de competição. Quando a covid surgiu, disse que, no seu caso, uma eventual infecção seria leve "graças ao seu histórico de atleta".

Mas, de acordo com Sperling, "apenas mostrar que é durão não esgota as possibilidades de obter legitimidade política a partir da masculinidade".Ela afirma que as demonstrações públicas de tais habilidades costumam se somar também com questionamentos sobre a masculinidade dos oponentes. "E isso é feito, por exemplo, sugerindo que seu adversário não é homem o suficiente, ou é gay, ou ainda dizendo que a mulher dele é feia, não desejável", diz Sterling, que mapeou o comportamento masculino em diferentes líderes mundiais.

Há uma semana, Putin chamou a atenção do mundo com uma declaração em que censurava o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, crítico dos acordos de paz de Minsk. "Goste ou não, minha linda, você tem que aturar", disse Putin, usando uma expressão em feminino para se dirigir ao líder da Ucrânia. 

Já Bolsonaro, no auge de suas discussões com o presidente Emmanuel Macron acerca das queimadas na Amazônia, em 2020, republicou uma postagem que comparava a primeira-dama Michelle Bolsonaro, de 39 anos, com Brigitte Macron, de 68. A postagem dizia: "entende agora por que Macron persegue Bolsonaro?". E o próprio presidente comentava "Não humilha, cara Kkkkkk". 

Outra tática comum é fazer "piadas" com estupro e misoginia. Em 2014, em discussão com a colega Maria do Rosário, do PT, o então deputado Jair Bolsonaro afirmou que "Jamais estupraria você, porque você não merece." Bolsonaro explicou que Rosário seria feia demais para seu gosto. Já Putin, em 2006, teria dito a um repórter israelense, a propósito de acusações de estupro contra o então presidente de Israel Moshé Katsav: "Diga olá a seu presidente. Ele se mostrou um sujeito muito poderoso. Estuprou dez mulheres. Estamos todos surpresos. Todos o invejamos". Depois da repercussão negativa do episódio, o Kremlin culpou uma falha na tradução pelo teor do comentário.

Em 2014, quando a então secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, comparou a invasão da Crimeia ao assalto do alemão Adolf Hitler sobre a Polônia, Putin foi sucinto: "Melhor nem discutir com mulheres". Disse ainda que o comentário de Hillary revelava "fraqueza". E que "fraqueza não é algo necessariamente ruim em mulheres". Já Bolsonaro, em 2017, afirmou sobre sua filha Laura: ""Eu tenho cinco filhos. Foram quatro homens, aí no quinto eu dei uma fraquejada e veio uma mulher".

Sperling nota que esse tipo de recurso à masculinidade para legitimar - ou deslegitimar - políticos não é uma exclusividade da direita. Mas que talvez fique mais evidente entre políticos direitistas cuja pauta é socialmente conservadora, categoria em que tanto Bolsonaro quanto Putin se enquadram. 

Putin e Orban

Crédito, EPA - Putin se tornou um modelo de virilidade e masculinidade a inspirar políticos ao redor do mundo como Donald Trump, Viktor Orban (foto) e Jair Bolsonaro

Putin se coloca como feroz defensor da família nuclear tradicional. "Quanto a esse papo de 'pai número 1' e 'pai número 2', já falei publicamente sobre isso e vou repetir novamente: enquanto eu for presidente isso não vai acontecer. Haverá papai e mamãe", disse Putin, em 2020. Em 1997, quando era deputado, Bolsonaro afirmou: "ninguém gosta de gay. A gente suporta".

Ao contrário do Brasil, no entanto, na Rússia o casamento homossexual é ilegal. Casais homoafetivos também não podem adotar crianças em conjunto. Se feita, a adoção é registrada apenas no nome de um dos pais.

Quanto à questão da violência doméstica, no Brasil, a Lei Maria da Penha completou 15 anos. Já na Rússia, a agressão de companheiros contra mulheres foi descriminalizada em 2017. A partir de então, apenas agressões dos maridos que provoquem graves lesões corporais nas esposas são passíveis de punição legal.

A mudança legislativa representou um ganho do governo Putin, que tem ficado cada vez mais conservador com o passar dos anos. "Putin e Bolsonaro se admiram e juntos reforçam esse senso de orgulho em relação à masculinidade. Bolsonaro tem claramente tentado emular Putin em suas posturas misóginas e homofóbicas, e em sua confrontação de lideranças europeias e multilaterais. Ele claramente vê em Putin um homem forte. E essa imagem do homem forte tem se tornado mais e mais popular e prevalente no mundo atual", diz Randall.

BBC News Brasil -  Mariana Sanches 

 

 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Os repasses milionários de George Soros - Revista Oeste

Gabriel de Arruda Castro
 
Um levantamento exclusivo feito por Oeste mostra que, em 2020, mais de 100 organizações brasileiras (ou estrangeiras com projetos no Brasil) receberam dinheiro da Fundação Open Society

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Batalha da Hungria contra bandeira gay vai além de jogo da Eurocopa - VEJA - Blog Mundialista

Vilma Gryzinski 

O governo de Viktor Orbán tem o maior atrito com a direção da União Europeia por causa de lei que proíbe falar em homossexualidade nas escolas

Não teve bandeira do arco-íris na iluminação do estádio Allianz Arena, embora as cores do movimento LBGTI tenham pipocado por toda a Alemanha. Também não teve vitória da Hungria, com grande torcida contra o time por causa da decisão da Uefa de não acatar o pedido do prefeito de Munique, Dieter Reiter, de iluminar o estádio com as listas multicoloridas. [Agiu certo o prefeito de Munique: futebol é futebol, não pode,nem deve se envolver em discussões políticas.] Como explicação, a Uefa disse que não poderia agir movida por “uma decisão política”.

Apesar das antipatias despertadas, teve uma dose de razão: a iniciativa do prefeito foi feita em resposta a uma lei aprovada esmagadoramente  – 157 votos a um pelo Parlamento da Hungria na semana passada que proíbe falar sobre homossexualidade e questões de gênero nas escolas frequentadas por menores de 18 anos e em programas infantis de televisão. [também agiu corretamente o Parlamento húngaro: não é aceitável que questões como homossexualidade e de gênero sejam tratadas em escolas para menores de 18 anos e em programas infantis; são assuntos que devem ser discutidos entre adultos. São assuntos complexos e que só devem ser tratados por pessoas com um grau de amadurecimento não encontrado no público infantil,nem adolescência.]

O tema é, obviamente, incendiário, pois não existe consenso entre as diferentes camadas da sociedade sobre como deve ser tratado. Simplesmente ignorá-lo, abordá-lo de maneira neutra ou usar a influência da escola para promover a aceitação de diferentes comportamentos sexuais? 
Qual o limite entre combater o preconceito, atitude tão desejável e necessária, e o incentivo com selo oficial à experimentação sexual heterodoxa?

Os extratos mais conservadores ou apenas não antenados com comportamentos alternativos têm grande repúdio a que isso seja tratado na escola, por receio justamente de que a terceira opção seja a mais influente. É uma atitude refletida, inclusive, na última eleição no Brasil. E é um debate no qual Viktor Orbán, o primeiro-ministro húngaro que encarna como nenhum outro político em atividade o conservadorismo mais assumido e articulado, se jogou de cabeça, sabendo muito bem que criaria mais um – talvez o maior de todos – ponto de atrito com a União Europeia.

“Esta lei húngara é uma vergonha”, fulminou Ursula von der Leyen, a alemã que preside a União Europeia, acusando a Hungria de “violar os valores fundamentais da União Europeia: a dignidade humana, a igualdade e o respeito pelos direitos humanos”. Ela também desencadeou o burocrático processo da instituição para tentar cancelar a lei, com apelos ao governo húngaro.  As duas partes têm pleno conhecimento de que isso não vai acontecer. A próxima etapa, como pediram 14 dos 27 países europeus, pode ser levar a Hungria ao Tribunal de Justiça da UE. Parecer um guerreiro solitário que enfrenta potestades superiores para defender os valores tradicionais é um dos motivos da popularidade de Orbán. Na Assembleia Nacional, seu partido, o Fidesz, e um partido aliado têm 133 deputados do total de 199.

Orbán é primeiro-ministro desde 2010 e não parece minimamente ameaçado, apesar – ou por causa das antipatias que acirra entre progressistas, dentro e fora da Hungria, e dos muitos atritos com a União Europeia, inclusive por interferir na composição do judiciário. [os mandatos sucessivo a serem cumpridos pelo presidente Bolsonaro o levará, com as bênçãos de DEUS,  a superar a longevidade de Viktor Órban.] Os adversários mais inflamados do político húngaro dizem que ele gostaria de instaurar uma “ditadura putinesca”. Ele realmente cultiva uma relação especial com Vladimir Putin, embora muitos de seus discursos formidáveis se ancorem do espírito de resistência dos húngaros ao comunismo soviético.

Ao contrário de Putin, ele tem estofo intelectual  sólido e conhece melhor a Europa Ocidental. Chegou a ganhar uma bolsa para estudar ciências políticas em Oxford – ironicamente, a bolsa foi dada pela Fundação Soros.  George Soros, o multibilionário nascido na Hungria e radicado nos Estados Unidos, se tornou o mais conhecido inimigo ideológico de Orbán.

A batalha da bandeira gay torna o político húngaro mais conhecido, talvez pelos motivos errados. Orbán iria assistir o jogo com a Alemanha, mas cancelou a viagem. Poupou-se de ver o empate que desclassificou a Hungria – e talvez de ser vaiado, dependendo dos humores da plebe. A Hungria e a Polônia são hoje os dois países da União Europeia que mais assumem um papel combativo em relação às chamadas batalhas identitárias ou pautas sociais, insurgindo-se contra o casamento gay, a mudança oficial de gênero, o aborto, o progressivismo que grassa no mundo acadêmico e nas ONGs e a abertura de fronteiras para imigrantes de fora da Europa.

Ganharam a denominação de “democracias iliberais” O nacionalismo sem nenhuma atenuante, fortemente alimentado pelos períodos de perda de autonomia no passado distante ou recente, é a coluna de sustentação dessa linha. É claro que isso entra diretamente em confronto com as tendências dominantes. “A maior ameaça para a Europa não está nos que querem vir viver aqui, mas nas nossas próprias elites políticas, econômicas e intelectuais, obcecadas por transformar a Europa contra o próprio desejo dos povos europeus”, já disse Orbán. “Os partidos no governo na Polônia e na Hungria buscam o que consideram uma ruptura mais autêntica com a miragem da transição de 1989”, escreveu no Guardian o historiador americano Nicholas Mulder, referindo-se ao período atribulado do pós-comunismo.  “O nacionalismo antiliberal na Europa oriental é mais do que uma explosão de paixões incontroláveis. Têm em comum a crença de que receberam uma missão histórica e que o fim do comunismo foi apenas o começo do trajeto para a libertação nacional. O fato de que estas ideias tenham sido moldadas durante a década de transição também sugere que a democracia liberal é um projeto propositivo – não apenas algo reativo, mas sim dotado de seus próprios objetivos ideológicos”.

Dá para perceber que o assunto vai muito além da iluminação com a bandeira gay num estádio. E que o conflito com a direção da União Europeia vai esquentar.

Blog Mundialista - Vilma Gryzinski, jornalista -  VEJA

 

domingo, 20 de outubro de 2019

A Rota da Seda - Nas entrelinhas

“Bolsonaro mira não apenas a balança comercial com os países asiáticos, abalada pela mudança de nossa política externa, mas atrair investidores para o seu programa de privatizações”

O presidente Jair Bolsonaro embarcou ontem para a Ásia. Sua viagem deve durar duas semanas e inclui Japão, China, Emirados Árabes, Catar e Arábia Saudita, países com os quais o Brasil pretende intensificar relações comerciais. As más-línguas dirão que a crise viajou no mesmo avião, como costumava falar o então senador Fernando Henrique Cardoso numa de suas maiores maledicências em relação ao ex-presidente José Sarney (o que lhe custou sua inimizade), mas isso é uma tremenda bobagem: Bolsonaro tenta reposicionar geopoliticamente o Brasil, para melhorar o relacionamento com esses países, abalado por causa do seu alinhamento automático com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O retorno a Brasília está previsto para o dia 31.

Além disso, com os mercados conectados on-line e a comunicação instantânea nas redes sociais, o que pode acontecer é o Brasil amanhecer com o mercado reagindo às declarações e tuitadas do presidente da República da mesma forma como a Bovespa reage às bolsas de valores de Xangai, Tóquio e Hong Kong. Crises já não viajam com o presidente da República, elas se instalam e se propagam a partir de qualquer ponto, pelas redes sociais. A viagem é muito importante porque a lógica ideológica que levou Bolsonaro ao alinhamento com Trump e outros líderes de direita no mundo, como o húngaro Viktor Orban, não é mais forte do que os fundamentos da geopolítica. O fato objetivo é que o principal parceiro comercial do Brasil hoje é a China; e os demais países a serem visitados, são grandes compradores de nossas commodities. Todos fazemos parte do que os chineses chamam de a nova Rota da Seda.

A Rota da Seda era uma série de rotas interconectadas pelo sul da Ásia pelas quais se fazia o comércio da seda entre o Oriente e a Europa, mas não somente: toda sorte de produtos e especiarias circulavam por ali, por meio de caravanas de camelos e embarcações oceânicas. Surgiu a partir do comércio entre as regiões de Chang’an, na China, e a Antióquia, na Ásia Menor, região disputada por mongóis, turcos e bizantinos na Idade Média, chegando à Coreia e ao Japão. Era o eixo de comércio que fomentou a formação de impérios: Egito antigo, Mesopotâmia, China, Pérsia, Índia e Roma.

De certa forma, teve um papel fundamental para expansão portuguesa e o Descobrimento. Na Idade Média, o comércio entre Oriente e Ocidente passava pela Rota de Champagne, que foi interrompida pela Guerra dos 100 anos (1337-1453), entre a Inglaterra e a França. Isso fomentou o comércio por via marítima entre o Atlântico Norte e o Mediterrâneo, o que possibilitou o desenvolvimento da indústria naval e do comércio em Portugal. O resto da história todos conhecem: a expansão marítima portuguesa, após a Revolução de Avis, com ascensão de sua burguesia mercantil, levou os portugueses ao Brasil; por meio do périplo africano, à Ásia: China, Pérsia, Japão e Índia. Veneza e outras cidades italianas perderam o monopólio do comércio entre nações mercantilistas europeias e o Oriente.

Infraestrutura
Se comércio entre os países do Atlântico, desde então, foi o eixo da economia mundial até o final do século passado, seu controle levou a duas guerras mundiais, provocadas pela disputa entre uma potência continental, a Alemanha, e uma marítima, a Inglaterra. Hoje, esse eixo se deslocou para o Pacífico e provoca uma guerra comercial entre os Estados Unidos, a maior potência marítima da atualidade, e a China, a potência continental que emerge como segunda maior economia do mundo. Do ponto de vista geoeconômico, o Brasil está no meio dessa disputa, com um posicionamento robusto do ponto de vista da produção agrícola e mineral, mas muito frágil em termos logísticos, porque nossa infraestrutura é voltada para o Atlântico e está sucateada.

Nesse sentido, a viagem de Bolsonaro e sua comitiva mira não apenas manter e expandir a nossa balança comercial com os países asiáticos, abalada pela mudança disruptiva de nossa política externa, mas atrair investidores desses países para o programa de concessões e privatizações do governo. Os países asiáticos são grandes compradores de nossos produtos agrícolas e siderúrgicos, além de equipamentos de defesa, como carros blindados, lança-foguetes e aviões de combate e treinamento, sem falar no interesse que o novo avião cargueiro multiúso KC-390 da Embraer desperta entre esses países. Mas o que realmente pode fazer diferença são os investimentos pesados em infraestrutura, principalmente na modernização de portos, hidrovias e ferrovias.

Nas Entrelinhas - Luiz Carlos Azedo - Correio Braziliense

 

domingo, 22 de setembro de 2019

Os novos “cruzados” - Nas entrelinhas

Há que separar os setores tradicionais que sempre defenderam o caráter laico do Estado daqueles que ambicionam uma espécie de nova teocracia”


No contexto da participação do Brasil na cena internacional, cujo ponto crucial será o discurso do presidente Jair Bolsonaro na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), no próximo dia 24 de setembro, um sinal preocupante foi a participação do governo brasileiro na Cúpula da Demografia, em Budapeste, na qual o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, sugeriu uma espécie de cruzada antiglobalização e em defesa do cristianismo mais conservador. O Brasil foi representado pela ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, que reiterou a disposição de o governo brasileiro liderar um bloco ultra-conservador na ONU. [O Brasil precisa acabar com a valorização sem motivo desse discurso de abertura da assembleia-geral da ONU. 
A ONU é o exemplo mais perfeito de ditadura da minoria.]

Como se sabe, as cruzadas foram movimentos militares que partiram da Europa Ocidental com objetivo de conquistar a Palestina e tomar Jerusalém, que estava sob controle dos turcos muçulmanos. Foram nove cruzadas, um movimento quase permanente, que mobilizou a nobreza, camponeses e desocupados por mais de 200 anos, e se transformou numa alternativa de ascensão política, econômica e social. Ironicamente, ajudaram a acabar com o isolamento das sociedades feudais e fortalecer o comércio entre Oriente e Ocidente, principalmente no mar Mediterrâneo.    Hoje, a expressão tem significado mais político e ideológico do que militar.

Em Portugal, que liderou uma das cruzadas, a morte do jovem rei Dom Sebastião, em 1578, na batalha de Alcácer-Quibir, deu origem ao sebastianismo, um movimento místico-secular que ocorreu durante a segunda metade do séc. XVI. Como não possuía herdeiros, o trono de Portugal ficou sob o manto do poderoso rei Filipe II, da Espanha. Criou-se uma lenda de que o Rei ainda estaria vivo, esperando o momento certo para retomar o trono e afastar o rei estrangeiro. O mito sebastianista nada mais é do que a esperança de chegada de um salvador, mesmo que fosse necessário um verdadeiro milagre, como a ressurreição do rei morto, D. Sebastião, o Desejado.

No Brasil, o sebastianismo popular se manifestou na crença de chegada de um “rei bom” e até hoje está presente em manifestações folclóricas, como a Folia de Reis. Influenciou movimentos populares de Norte a Sul, sendo o mais significativo o de Canudos, no sertão da Bahia, no qual Antonio Conselheiro pregava que D. Sebastião retornaria dos mortos para restaurar a monarquia no Brasil, o que foi motivo para a intervenção do Exército. Foram necessárias quatro campanhas militares para derrotar os jagunços de Canudos. O livro Os Sertões, de Euclides da Cunha, narra em detalhes essa tragédia nacional.

Neopentecostais
O mito sebastianista se manifesta de diferentes formas, mas todas têm como ponto de referência o surgimento de um “salvador da pátria”. Por isso mesmo, serve de caldo de cultura para o nosso velho populismo. Não à toa, o presidente Jair Bolsonaro é chamado de “Mito” por seus seguidores mais apaixonados. A facada que recebeu em plena campanha eleitoral e as quatro cirurgias dela decorrentes reforçam essa ideia no imaginário de seus seguidores. A forte relação de Bolsonaro com as igrejas neopentecostais também alimenta seu carisma, ainda mais por causa do forte engajamento político dessas correntes na política, que ultrapassou a fronteira entre o desejo de reconhecimento e o efetivo exercício do poder.

Há que separar, porém, os setores tradicionais que sempre defenderam o caráter laico do Estado, até por causa dos antigos vínculos entre a Igreja Católica e o Estado, daqueles que ambicionam uma espécie de nova teocracia. Depois do fracasso dos calvinistas franceses, nas invasões do Rio de Janeiro (1555) e Maranhão (1594), o protestantismo chegou ao Brasil no começo do século XIX, com os anglicanos (1816), devido à presença inglesa após a Abertura dos Portos(1808) por Dom João VI. Graças à liberdade religiosa, depois vieram congregacionistas (1855), presbiterianos (1859), metodistas (1867), batistas (1881), episcopais (1889) e luteranos (1900).

Mesmo com a Congregação Cristã do Brasil (1910) e a Assembléia de Deus (1911), somente na década de 1950, o movimento pentecostal brasileiro se fragmentou, com o surgimento das igrejas Evangelho Quadrangular (1954), Igreja do Nazareno (1958) e Cristã de Nova Vida (1960). A cisão desses movimentos deu origem às organizações pentecostais brasileiras: Brasil para Cristo (1955), do missionário Manoel de Mello e Silva; Deus é Amor (1962), de David M Miranda; e Casa da Bênção (1964), de Doriel de Oliveira.

O movimento que dá mais sustentação a Bolsonaro, porém, é formado por igrejas pentecostais que fazem uso intensivo dos meios de comunicação, com ênfase em milagres, curas e prosperidade pessoal: Igreja Universal do Reino de Deus (1977), de Edir Macedo; Igreja da Graça de Deus (1980), de R.R. Soares; a Renascer em Cristo (1986), de Estevam e Sônia Ernandes; Sara Nossa Terra (1992), de Robson Rodovalho; e Poder de Deus (1998), de Valdemiro Santiago.  [em  todas essas igrejas pentecostais, o que mais se observa é a abundância de denominações e que cada igreja é propriedade de alguém - os fiéis podem até não receberem milagres, curas e prosperidade pessoal, mas, os proprietários com certeza recebem e muito, especialmente, prosperidade pessoal em suas finanças.

Os tempos em que havia vínculos sólidos entre a Igreja Católica Apostólica Romana - que não se dividiu, por estar amparada no DECRETO DIVINO: ."E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela.19. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”. Evangelho de São Mateus 16,18-19 - as situações eram mais definidas.]


Hoje, devido à nova legislação eleitoral, se transformaram em poderosas forças políticas, que vão disputar as prefeituras nas próximas eleições municipais, como no Rio de Janeiro, em razão da facilidade de montar chapas de vereadores e levantar recursos financeiros, ao lado do desgaste dos partidos.

Nas Entrelinhas - Luiz Carlos Azedo - CB

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

30 anos, amanhã - O Globo

Demétrio Magnoli - O Globo

Orbán nasceu da derrubada de um muro e transformou-se no principal arauto da construção de muros

Há 30 anos, entre a noite de 10 de setembro de 1989 e a manhã seguinte, o êxodo começou. Milhares de alemães do leste com vistos de turismo cruzaram a fronteira entre Hungria e Áustria. Na passagem, cada motorista recebeu pouco mais de US$ 25 doados pela Cruz Vermelha para pagar o combustível até a Alemanha Ocidental. Ali, começou a ruir o Muro de Berlim, que desabaria dois meses depois, no 9 de novembro. A história inteira, relida hoje, é um conto sobre a indignidade e o declínio de valores.

O ponto de partida situa-se pouco antes, no 27 de agosto, quando o governo comunista húngaro cedeu à pressão e cortou a cerca erguida na fronteira com a Áustria. Vivia-se o ocaso de uma era. Da capital da Tchecoslováquia, vinham os ecos de uma grande manifestação em memória do 21º aniversário da invasão soviética que arrasou a Primavera de Praga. Dos países bálticos, as imagens de uma corrente humana de dois milhões de letões, estonianos e lituanos que exigiam liberdade e independência. Mas a ruptura física da cerca húngara de arame farpado, um ato simbólico protagonizado pelos ministros do Exterior da Hungria e da Áustria, assinalou a quebra da Cortina de Ferro.

No 27 de agosto, um estudante húngaro acompanhava as notícias de longe, na Universidade de Oxford. Chamava-se Viktor Orbán, tinha 26 anos e beneficiava-se de uma bolsa concedida pela Fundação Soros. No ano anterior, ele tinha ajudado a fundar o Fidesz, um partido oposicionista ilegal, democrático e liberal. De volta a seu país, fez carreira política meteórica, elegendo-se primeiro-ministro em 1998. Hoje, o líder que nasceu da derrubada de um muro converteu-se no principal arauto da construção de muros. Orbán é a face icônica da Europa xenófoba que invoca o direito do sangue para implantar barreiras de arame farpado diante de refugiados do Oriente Médio e do norte da África.

São dois capítulos distintos. No seu mandato original, até 2002, Orbán conservou-se fiel aos princípios liberal-democráticos, conduzindo as negociações de acesso da Hungria à União Europeia. Já no segundo mandato, iniciado em 2010, vestiu as roupagens de um nacionalista conservador, armando os canhões paralelos da islamofobia e do antissemitismo. Então, a pólvora da “civilização cristã” passou a impulsionar seus obuses dirigidos contra dois alvos: os imigrantes e a globalização.

Os imigrantes são os refugiados sem rosto que vêm de terras devastadas pela violência. A globalização tem, na propaganda estatal emanada de Orbán, o rosto do investidor George Soros, seu antigo patrono, retratado como o “judeu errante”, o “judeu sem pátria”, o manipulador inescrupuloso dos destinos do mundo. A direita nacionalista atual (inclusive a brasileira) oculta suas raízes antissemitas atrás de um alinhamento completo com o governo israelense de Benjamin Netanyahu. Mas o líder húngaro fala tudo, expondo o lado oculto da lua.

“Democracia iliberal” — eis o rótulo de Orbán para o sistema de governo que instalou. “Conhecendo o presidente por bons 25 ou 30 anos, posso dizer-lhe que ele adoraria ter a situação que tem Orbán”, confessou David Cornstein, velho amigo de Donald Trump e embaixador americano em Budapeste. O chefe do governo húngaro manietou a imprensa, subordinou o Judiciário e enfrentou, com sucesso, a política de abertura aos refugiados ensaiada pela alemã Angela Merkel em 2015. Nesse percurso, transformou-se no farol dos partidos da direita nacionalista europeia.

A Praça do Parlamento, em Budapeste, perdeu a estátua de Imre Nagy, o líder da revolução democrática húngara de 1956, erguida em 1996 e removida em 2018 por uma ordem de Orbán destinada a agradar a seu aliado Vladimir Putin. A Universidade Centro-Europeia, melhor instituição de ensino superior da Hungria, financiada pela Fundação Soros, está sendo expulsa do país por injunções do governo. De certo modo, a Hungria restabelece a cerca de arame farpado cortada há 30 anos. Orbán não economiza elogios ao governo de um país distante:  
“A mais apta definição da democracia cristã moderna pode ser vista no Brasil, não na Europa”.
 
Demetrio Magnoli, jornalista - O Globo